Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Zayin · Mishná 8 de 9

Até o Pessach: a ordem das palavras que muda tudo

שֶׁאַתְּ עוֹשָׂה אֵינִי אוֹכֵל עַד הַפֶּסַח
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná apresenta um dos exemplos mais finos de leitura sintática de todo o tratado: duas formulações quase idênticas, diferindo apenas na posição da expressão "até o Pessach", produzem consequências opostas para o período posterior à festa.

O que tu fizeres, eu não como até o Pessach; o que tu fizeres, eu não me cubro até o Pessach — se ela fez antes do Pessach, está permitido comer e cobrir-se depois do Pessach. O que tu fizeres até o Pessach, eu não como; e o que tu fizeres até o Pessach, eu não me cubro — se ela fez antes do Pessach, fica proibido comer e cobrir-se depois do Pessach.Na primeira formulação, "até o Pessach" qualifica o verbo "não como" — ou seja, o marido se proíbe de comer o que ela fizer, mas apenas até o Pessach; a limitação temporal recai sobre a proibição em si, que termina automaticamente quando a festa chega, deixando-o livre para consumir depois, mesmo que ela tenha feito o item antes do Pessach. Na segunda formulação, a ordem das palavras muda o alcance: "até o Pessach" qualifica agora o verbo "fizeres" — ou seja, o marido se proíbe de tudo o que ela fizer dentro do período que vai até o Pessach, sem limite de tempo para a proibição em si; por isso, qualquer item que ela produza antes do Pessach permanece proibido para sempre, mesmo depois que a festa já passou, pois a cláusula temporal define apenas quais itens entram no voto, não quando o voto expira.

שֶׁאַתְּ עוֹשָׂה אֵינִי אוֹכֵל עַד הַפֶּסַח, שֶׁאַתְּ עוֹשָׂה אֵינִי מִתְכַּסֶּה עַד הַפֶּסַח, עָשְׂתָה לִפְנֵי הַפֶּסַח, מֻתָּר לֶאֱכֹל וּלְהִתְכַּסּוֹת אַחַר הַפֶּסַח. שֶׁאַתְּ עוֹשָׂה עַד הַפֶּסַח אֵינִי אוֹכֵל, וְשֶׁאַתְּ עוֹשָׂה עַד הַפֶּסַח אֵינִי מִתְכַּסֶּה, עָשְׂתָה לִפְנֵי הַפֶּסַח, אָסוּר לֶאֱכֹל וּלְהִתְכַּסּוֹת אַחַר הַפָּסַח:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A lei da matzá delimita o próprio Pessach por uma cláusula temporal precisa — "até o vigésimo primeiro dia" —, o mesmo tipo de fronteira exata que a mishná agora usa para decidir se a proibição do voto cessa ou persiste depois da festa.

Shemot (Êxodo) 12:18
בָּרִאשֹׁן בְּאַרְבָּעָה עָשָׂר יוֹם לַחֹדֶשׁ בָּעֶרֶב תֹּאכְלוּ מַצֹּת, עַד יוֹם הָאֶחָד וְעֶשְׂרִים לַחֹדֶשׁ בָּעָרֶב
No primeiro mês, no dia catorze do mês, à tarde, comereis pães ázimos, até o dia vinte e um do mês, à tarde.

A Torá fixa o período de matzá com uma cláusula "até" (ad) que delimita precisamente quando a obrigação termina — do dia catorze até o dia vinte e um —, sem ambiguidade sobre o que acontece depois desse marco. É exatamente essa mesma função gramatical da palavra "até" que a mishná dissecta com precisão cirúrgica: dependendo de qual verbo ela qualifica dentro da frase do voto — o ato de comer, ou o ato de fazer —, o marco temporal do Pessach ou encerra a proibição quando a festa chega, ou define apenas quais produtos entram nela, deixando a proibição em si sem prazo de validade. A festa do Pessach, tão precisamente delimitada pela própria Torá, serve aqui como o ponto de referência cuja posição exata na frase determina o destino do voto.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam nota, no próprio Perush HaMishná, que o caso é claro por si mesmo e não recebeu maior discussão na Guemará; Bartenura detalha a leitura sintática exata de cada formulação.

Rambam · Perush HaMishná, Nedarim 7:8
זֶה כֻּלּוֹ מְבֹאָר אֵינוֹ צָרִיךְ זוּלַת תִּקּוּן הַקְּרִיאָה וּלְהַפְסִיק הַדִּבּוּר בְּמָקוֹם שֶׁרָאוּי לְהַפְסִיק, וְלֹא דִּבֵּר בּוֹ הַשַּׁ"ס כְּלָל לְרֹב בֵּאוּרוֹ

Rambam observa que este caso é suficientemente claro por si mesmo, exigindo apenas a correta entoação da leitura e a pausa no ponto certo da frase para se compreender a diferença entre as duas formulações — e por essa mesma clareza a Guemará não se estendeu em debate sobre ele, tratando-o como autoexplicativo assim que lido com a pontuação correta.

Bartenura · Nedarim 7:8
שֶׁאַתְּ עוֹשָׂה אֵינִי אוֹכֵל עַד הַפֶּסַח. הָכִי מַשְׁמַע, שֶׁאַתְּ עוֹשָׂה עַכְשָׁיו אֵינִי אוֹכֵל עַד הַפֶּסַח, אֲבָל לְאַחַר הַפֶּסַח אֲנִי אוֹכֵל. אֲבָל כָּל מַה שֶּׁאַתְּ עוֹשָׂה עַד הַפֶּסַח אֵינִי אוֹכֵל, מַשְׁמַע כָּל מַה

Bartenura explica passo a passo: na primeira formulação, o sentido é "o que fizeres agora, eu não como até o Pessach — mas depois do Pessach eu como", isto é, a proibição em si tem prazo de validade. Na segunda formulação, o sentido é "tudo o que fizeres até o Pessach, eu não como" — isto é, o prazo delimita apenas o universo de itens abrangidos pelo voto, e a proibição sobre esses itens específicos não tem data de término.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rambam e Bartenura concentram-se na análise sintática precisa que distingue as duas formulações quase idênticas da mishná.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 7:8
וְלֹא זְכָרוֹ הַתַּנָּא אֶלָּא מִצַּד הַבָּבָא הָאַחַת בִּלְבַד, וְהוּא מַה שֶּׁאָמַר וְאַחַר הַפֶּסַח בְּלֹא יַחֵל דְּבָרוֹ

Rambam observa que o tanna menciona este caso principalmente para preparar a próxima mishná, onde aparece a expressão "depois do Pessach, por não profanar sua palavra" — mostrando que o valor didático central deste caso está em treinar a leitura sintática precisa que será aplicada, com consequências mais complexas, no caso seguinte.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 7:8
אֲבָל כָּל מַה שֶּׁאַתְּ עוֹשָׂה עַד הַפֶּסַח אֵינִי אוֹכֵל, מַשְׁמַע כָּל מַה שֶּׁתַּעֲשֶׂה עַד הַפֶּסַח, אֲסוּרִין עָלַי לְעוֹלָם

Bartenura conclui a explicação da segunda formulação: tudo o que ela fizer dentro do período que vai até o Pessach fica proibido para o marido para sempre — não porque o item em si dure para sempre, mas porque a cláusula "até o Pessach" define apenas a janela de produção que entra no voto, sem impor nenhum limite à duração da proibição sobre os itens produzidos dentro dela.