Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Zayin · Mishná 7 de 9

A obra das mãos da esposa: o mesmo padrão aplicado ao marido

הָאוֹמֵר לְאִשְׁתּוֹ, קוֹנָם מַעֲשֵׂה יָדַיִךְ עָלָי
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná aplica exatamente o mesmo padrão da mishná anterior — konam formulado sobre o objeto versus konam formulado como ato pessoal — a um novo domínio: o marido que vota contra o proveito da obra das mãos de sua esposa, um direito que lhe pertence pelo casamento.

Quem diz à sua esposa: konam, a obra de tuas mãos sobre mim; konam, ela sobre minha boca; konam, ela para minha boca — fica proibido em suas trocas e em seus produtos derivados. Eu não como, eu não provo — está permitido em suas trocas e em seus produtos derivados, em coisa cuja semente se esgota; mas em coisa cuja semente não se esgota, mesmo os produtos derivados dos produtos derivados ficam proibidos.O marido tem, pela própria condição do casamento, direito ao produto do trabalho de sua esposa — incluindo, por exemplo, o que ela planta e cultiva. Se ele formula o konam diretamente sobre "a obra de tuas mãos" — o objeto do direito em si —, a proibição se estende, como no caso anterior, às trocas comerciais desse produto e a tudo que dele cresça como derivado agrícola. Mas se ele formula o voto apenas como ato pessoal — "eu não como, eu não provo" —, a proibição fica restrita ao consumo direto, liberando trocas e produtos derivados, com a mesma ressalva técnica de antes: essa liberdade vale apenas para o que a esposa planta de semente que se esgota na terra; para o que ela planta de semente que não se esgota, como bulbos, a proibição persiste por todas as gerações de crescimento, pois a identidade do item original nunca se dissolve completamente.

הָאוֹמֵר לְאִשְׁתּוֹ, קוֹנָם מַעֲשֵׂה יָדַיִךְ עָלָי, קוֹנָם הֵן עַל פִּי, קוֹנָם הֵן לְפִי, אָסוּר בְּחִלּוּפֵיהֶן וּבְגִדּוּלֵיהֶן. שֶׁאֵינִי אוֹכֵל, שֶׁאֵינִי טוֹעֵם, מֻתָּר בְּחִלּוּפֵיהֶן וּבְגִדּוּלֵיהֶן, בְּדָבָר שֶׁזַּרְעוֹ כָלֶה. אֲבָל בְּדָבָר שֶׁאֵין זַרְעוֹ כָלֶה, אֲפִלּוּ גִדּוּלֵי גִדּוּלִין אֲסוּרִים:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

O elogio da mulher virtuosa em Mishlei celebra precisamente "a obra de suas mãos" como fruto que se colhe e se compartilha — o mesmo direito do marido ao produto do trabalho da esposa que a mishná agora regula quanto ao voto.

Mishlei (Provérbios) 31:31
תְּנוּ לָהּ מִפְּרִי יָדֶיהָ, וִיהַלְלוּהָ בַשְּׁעָרִים מַעֲשֶׂיהָ
Dai-lhe do fruto de suas mãos, e que suas obras a louvem nos portões.

O elogio final do "Eshet Chayil" nomeia explicitamente "peri yadeha" — o fruto de suas mãos — como algo que se dá e se reconhece publicamente, precisamente a mesma "obra das mãos" (maasê yadayich) que a mishná agora trata como direito legal do marido dentro do casamento. Esse mesmo termo bíblico, que celebra o valor econômico e moral do trabalho da mulher, é a base da instituição halachica pela qual o marido recebe o produto do trabalho de sua esposa em troca do sustento que lhe provê; e é justamente esse direito que ele pode voluntariamente vedar a si mesmo por meio do konam, com o alcance técnico que esta mishná precisa.

Halachot · הֲלָכוֹת

Sem citação direta correspondente na Mishné Torá para o caso específico das trocas e derivados, Bartenura explica a extensão do voto sobre a obra das mãos da esposa ao que ela planta e cultiva.

Bartenura · Nedarim 7:7
קוֹנָם מַעֲשֵׂה יָדַיִךְ עָלָי. אָסַר כָּל מַה שֶּׁהִיא עוֹשָׂה וּמְכִינָה לוֹ. וְאִם נָטְעָה אִילָן, גִּדּוּלָיו אֲסוּרִין

Bartenura explica que a expressão "obra de tuas mãos" abrange tudo o que a esposa produz e prepara para o marido, e que, se durante esse período ela plantou uma árvore, o próprio crescimento dessa árvore fica proibido para ele — aplicando à obra da esposa o mesmo princípio de que o produto derivado herda a condição do direito original votado.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rambam remete ao princípio já fixado na mishná anterior para os termos técnicos de semente que se esgota e não se esgota, e Bartenura fecha com a extensão do voto ao plantio realizado pela esposa.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 7:6-7
דָּבָר שֶׁזַּרְעוֹ כָלֶה הוּא מַה שֶּׁנִּפְסָד זַרְעוֹ בָּאָרֶץ וְנֶאֱבָד... וּכְבָר נִתְבָּאֵר זֶה בְּפֶרֶק ה מִמַּסֶּכֶת עָרְלָה, וְהוּא הַדִּין כָּאן בְּמַעֲשֵׂה יְדֵי הָאִשָּׁה

Rambam aplica à mishná sobre a obra das mãos da esposa o mesmo princípio botânico já explicado na mishná anterior — semente que se esgota versus semente que não se esgota — remetendo novamente ao seu comentário sobre Massechet Orlá para a fundamentação técnica completa, agora estendida ao caso concreto do direito do marido ao trabalho agrícola de sua esposa.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 7:7
קוֹנָם מַעֲשֵׂה יָדַיִךְ עָלָי. אָסַר כָּל מַה שֶּׁהִיא עוֹשָׂה וּמְכִינָה לוֹ. וְאִם נָטְעָה אִילָן, גִּדּוּלָיו אֲסוּרִין

Bartenura enfatiza que o voto sobre "a obra de tuas mãos" é amplo o suficiente para incluir qualquer atividade produtiva da esposa, inclusive o plantio de uma árvore — e que, seguindo o mesmo princípio geral da mishná anterior, o crescimento dessa árvore ao longo do tempo permanece sob a mesma proibição que recaiu sobre o direito original votado pelo marido.