Aquele que foi votado a não desfrutar de seu companheiro, antes da shemitá, não desce ao seu campo, e não come dos frutos pendentes. E na shemitá, não desce ao seu campo, mas come dos frutos pendentes. Votou-lhe apenas comida antes da shemitá, desce ao seu campo, mas não come dos frutos. E na shemitá, desce e come. — A mishná combina o voto amplo, "não desfruto de fulano", com o voto restrito, "não desfruto da comida de fulano", em relação às duas fases do ciclo sabático. Antes de a shemitá entrar em vigor, o campo ainda pertence integralmente ao dono, e tanto pisar nele quanto comer de seus frutos constituem benefício pleno — por isso ambos ficam proibidos ao votado amplamente. Já durante o ano sabático, os frutos que crescem no campo tornam-se hefker, sem dono, de modo que comê-los já não representa desfrutar do companheiro, mas apenas tomar posse de algo que a Torá tornou disponível a todos; permanece proibido, porém, descer ao próprio terreno, pois o solo em si — diferente dos frutos — não se torna hefker, e permanecer ali seria desfrutar do espaço físico que continua sendo propriedade do dono. O caso inverso, do votado apenas contra a comida, espelha essa lógica: antes da shemitá ele pode entrar no campo — pois pisar nele não é "comer" —, mas não pode comer de seus frutos, que ainda pertencem ao dono; durante a shemitá, quando os frutos se tornam hefker, ele pode tanto entrar quanto comer, pois nenhum dos dois atos mais envolve tomar algo do companheiro.
A base bíblica de toda a mishná é o próprio mandamento da shemitá, que torna hefker os frutos do campo — mas não o solo em si — durante o sétimo ano.
O verbo "a abandonarás" (וּנְטַשְׁתָּהּ) é a fonte do princípio de que os frutos do sétimo ano se tornam hefker — disponíveis a qualquer pessoa, pobre ou rica, israelita ou não —, mas o versículo fala do abandono dos frutos ("comerão... o que sobrar comerá"), não do próprio solo, que permanece propriedade do dono mesmo durante a shemitá. Essa distinção precisa entre o hefker dos frutos e a permanência da propriedade do solo é exatamente o eixo sobre o qual gira a mishná: por isso, mesmo no ano sabático, o votado amplamente pode comer dos frutos pendentes — já hefker —, mas continua proibido de descer ao terreno, que ainda pertence ao companheiro.
Rambam, no Perush HaMishná, explica por que mesmo o hefker dos frutos não libera o votado a permanecer parado no campo alheio.
Rambam esclarece o princípio central: os frutos do sétimo ano são hefker sem dono algum, mas isso não converte o solo em hefker — por isso permanece proibido ao votado entrar no campo, mesmo durante a shemitá, pois ali dentro ele acaba parado, sem estar ocupado em comer, e esse tempo de permanência já constitui desfrutar de um terreno que continua sendo propriedade alheia. A proibição de entrar no campo, portanto, não é sobre os frutos — que ele já pode comer —, mas sobre o próprio ato de pisar e permanecer no espaço físico do companheiro.
Rashi, na Guemará (Nedarim 42a), confirma a distinção entre a proibição de "descer ao campo" e a permissão dos frutos hefker; Bartenura precisa a definição de "frutos pendentes" e a razão de continuar proibido descer ao campo mesmo na shemitá.
Rashi confirma que a mishná aplica-se ao caso em que o voto foi feito antes de a shemitá começar. "Não desce ao seu campo" refere-se a comer os frutos que estão dentro dele — proibido por ser dricat regel, o mesmo "pisar" já vedado ao votado amplamente na primeira mishná do capítulo. "Não come dos frutos pendentes" refere-se especificamente àqueles galhos que se projetam para fora dos limites do campo, alcançáveis sem entrar nele — mesmo esses, antes da shemitá, permanecem proibidos, pois ainda pertencem ao dono.
Rambam define "notot" como os frutos que pendem da árvore para fora dos limites do pomar — acessíveis a quem está do lado de fora, sem necessidade de pisar dentro da propriedade. É precisamente essa acessibilidade externa que torna relevante a distinção da mishná entre "descer ao campo" (proibido antes da shemitá, permitido para pisar durante ela é vedado de todo modo) e "comer dos pendentes" (que se torna permitido assim que os frutos são hefker, independentemente de estar dentro ou fora do terreno).
Bartenura confirma a definição de "notot" e explica com clareza o porquê de a proibição de entrar no campo persistir mesmo durante a shemitá: embora o Misericordioso tenha tornado hefker os frutos do sétimo ano, Ele não tornou hefker o próprio solo — e há o receio de que, nos momentos em que o votado não estiver ocupado comendo, ele permaneça parado no campo por mais tempo do que o necessário, desfrutando assim do terreno em si, que continua sendo propriedade plena e não-hefker do companheiro.