Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Dalet · Mishná 4 de 8

Visitar o doente, curá-lo e dividir a mesa: os limites do voto na convivência diária

נִכְנַס לְבַקְּרוֹ, עוֹמֵד, אֲבָל לֹא יוֹשֵׁב
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná desce ao detalhe da convivência cotidiana entre votante e votado — visita ao doente, cura, banho, sono, refeição e trabalho lado a lado — traçando, em cada caso, a linha exata entre o permitido e o proibido.

Aquele que foi votado a não desfrutar de seu companheiro e entra para visitá-lo, fica em pé, mas não se senta. E cura-lhe a cura da alma, mas não a cura dos bens. E banha-se com ele numa banheira grande, mas não numa pequena. E dorme com ele numa mesma cama. Rabi Yehudá diz: nos dias de calor, mas não nos dias de chuva, porque isso lhe traz benefício. E reclina-se com ele no leito, e come com ele à mesma mesa, mas não do mesmo prato coletivo; mas come com ele do prato coletivo que retorna. Não come com ele do cocho diante dos trabalhadores, e não trabalha com ele lado a lado, palavras de Rabi Meir. E os sábios dizem: trabalha a certa distância dele.A mishná percorre uma série de situações concretas de convivência, aplicando o mesmo princípio subjacente ao capítulo inteiro: distinguir o que traz benefício mensurável do que não traz. Visitar o doente em pé é permitido porque não há costume de cobrar por isso, mas sentar-se, em lugares onde há costume de remunerar quem acompanha o doente sentado, constituiria benefício real. Curar a "alma" — o próprio corpo do doente — é permitido porque é mandamento bíblico obrigatório para qualquer israelita; curar seus "bens" — tratar diretamente o animal doente com as próprias mãos — não é obrigação pessoal do votado e, portanto, permanece vedado, embora ele possa indicar verbalmente qual remédio usar. A banheira grande não aumenta a água por causa do segundo banhista, mas a pequena sim, o que constitui benefício direto. Dormir na mesma cama é permitido no calor, mas Rabi Yehudá o proíbe no frio, quando o corpo do outro aquece. Comer à mesma mesa é permitido, mas comer do mesmo prato individual arrisca que um deixe a melhor porção para o outro; já o prato coletivo que "retorna" ao anfitrião elimina esse risco, pois nenhum dos dois controla o que sobra nele. Trabalhar lado a lado na colheita é proibido, segundo Rabi Meir, porque abrir espaço ao lado de alguém acelera seu trabalho; os sábios permitem, desde que a certa distância.

הַמֻּדָּר הֲנָאָה מֵחֲבֵרוֹ וְנִכְנַס לְבַקְּרוֹ, עוֹמֵד, אֲבָל לֹא יוֹשֵׁב. וּמְרַפְּאֵהוּ רְפוּאַת נֶפֶשׁ, אֲבָל לֹא רְפוּאַת מָמוֹן. וְרוֹחֵץ עִמּוֹ בְאַמְבַּטִיָא גְדוֹלָה, אֲבָל לֹא בִקְטַנָּה. וְיָשֵׁן עִמּוֹ בְמִטָּה. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, בִּימוֹת הַחַמָּה, אֲבָל לֹא בִימוֹת הַגְּשָׁמִים, מִפְּנֵי שֶׁהוּא מְהַנֵּהוּ. וּמֵסֵב עִמּוֹ עַל הַמִּטָּה, וְאוֹכֵל עִמּוֹ עַל הַשֻּׁלְחָן, אֲבָל לֹא מִן הַתַּמְחוּי, אֲבָל אוֹכֵל הוּא עִמּוֹ מִן הַתַּמְחוּי הַחוֹזֵר. לֹא יֹאכַל עִמּוֹ מִן הָאֵבוּס שֶׁלִּפְנֵי הַפּוֹעֲלִים, וְלֹא יַעֲשֶׂה עִמּוֹ בְאֻמָּן, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, עוֹשֶׂה הוּא בְרִחוּק מִמֶּנּוּ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A permissão de curar o corpo do doente mesmo sob voto — "cura da alma" na linguagem da mishná — apoia-se no mandamento de restituir ao próximo o que ele perdeu, interpretado pelos sábios como incluindo a obrigação de cuidar de sua saúde.

Devarim (Deuteronômio) 22:2
וְאִם לֹא קָרוֹב אָחִיךָ אֵלֶיךָ וְלֹא יְדַעְתּוֹ, וַאֲסַפְתּוֹ אֶל תּוֹךְ בֵּיתֶךָ וְהָיָה עִמְּךָ עַד דְּרֹשׁ אָחִיךָ אֹתוֹ וַהֲשֵׁבֹתוֹ לוֹ
E se teu irmão não estiver perto de ti, e não o conheceres, recolhê-lo-ás em tua casa, e ficará contigo até que teu irmão o procure; então tu o devolverás a ele.

Do verbo "e o devolverás" (וַהֲשֵׁבֹתוֹ), aplicado no contexto literal a objetos perdidos, a tradição rabínica deriva por extensão a obrigação de "devolver" também a saúde perdida do próximo — isto é, curá-lo quando adoece, tratando essa restituição como mandamento tão vinculante quanto devolver um bem perdido. É esse fundamento que permite à mishná tratar a cura do corpo do doente — "cura da alma" — como ato obrigatório e não como favor pessoal, exatamente pela mesma lógica que já havia permitido, na mishná anterior, devolver o achado perdido do companheiro: cumprir um mandamento independente da vontade das partes não configura o "desfrute" que o voto proíbe.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, explica o fundamento e o limite exato da obrigação de curar o companheiro, e por que a decisão prática segue Rabi Yehudá sobre dormir na mesma cama.

Rambam · Perush HaMishná, Nedarim 4:4
וְרִפְאוּת נַפְשׁוֹ הוּא שֶׁיְּרַפֵּא גּוּפוֹ, וְרִפְאוּת מָמוֹן שֶׁיְּרַפֵּא בְּהֶמְתּוֹ, וּמֻתָּר לוֹ לְהַגִּיד מַה שֶּׁיּוֹעִיל לִבְהֶמְתּוֹ, וְאָמְנָם אָסוּר לוֹ לְרַפֹּאות בְּיָדָיו... וְזֶה נִכְלָל בְּפֵרוּשׁ מַה שֶּׁאָמַר הַכָּתוּב וַהֲשֵׁבֹתוֹ לוֹ

Rambam define os dois termos técnicos da mishná: "cura da alma" é curar o próprio corpo do doente, e "cura dos bens" é tratar diretamente o animal doente com as mãos. A obrigação de curar o corpo do companheiro é derivada explicitamente do versículo "e o devolverás a ele" — o médico tem, segundo Rambam, um dever bíblico de tratar o israelita doente sempre que puder salvá-lo, com seu corpo, seus bens ou sua sabedoria; esse dever prevalece sobre o voto. Já cuidar do animal alheio não é obrigação pessoal de ninguém, por isso o votado só pode indicar verbalmente o remédio adequado, nunca aplicá-lo com as próprias mãos. A halachá segue Rabi Yehudá quanto à cama compartilhada, permitida apenas nos dias quentes.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, na Guemará (Nedarim 38b-41b), discute em que circunstâncias exatas a mishná proíbe sentar-se na visita ao doente e explica o mecanismo do prato coletivo "que retorna"; Bartenura resume cada cláusula da mishná.

Rashi · רש"י
Nedarim 38b-39a, 41b
הַמּוּדָּר הֲנָאָה מֵחֲבֵירוֹ נִכְנַס לְבַקְּרוֹ עוֹמֵד אֲבָל לֹא יוֹשֵׁב כִּדְמְפָרֵשׁ לְקַמָּן... בְּמַאי עַסְקִינַן, נִכְנַס לְבַקְּרוֹ; אֲפִלּוּ יוֹשֵׁב נַמִי יְהֵא מֻתָּר, שֶׁהֲרֵי נִכְסֵי חוֹלֶה אֵין אֲסוּרִין עַל הַמְבַקֵּר וּמֻתָּר לֵיהָנוֹת מִשֶּׁלּוֹ; אִי בְּשֶׁנִּכְסֵי כוּ' וּלְהָכִי אֵינוֹ יוֹשֵׁב בִּישִׁיבָה שֶׁלֹּא יֵהָנֶה מִשֶּׁלּוֹ... מַתְנִיתִין וְרוֹחֵץ עִמּוֹ, הַמּוּדָּר עִם הַמַּדִּיר; אֲבָל לֹא בִקְטַנָּה, מִשּׁוּם דְּקָא מַפְשֵׁי מַיָּא מִינֵּיהּ וּמַפִּישׁ נַמִי הֶבְלָא

Rashi explica que a mishná pressupõe o caso em que os bens de quem visita estão proibidos ao doente — ou seja, é o visitante quem está sob voto de não desfrutar do doente; por isso ele pode ficar em pé (visita breve, sem costume de remuneração), mas não sentar-se, pois em lugares onde se paga por sentar-se junto ao doente, permanecer sentado sem cobrar seria conceder-lhe um desconto real. Sobre o banho, Rashi explica que a banheira pequena, ao receber um segundo corpo, eleva visivelmente o nível da água e também aumenta o vapor quente — dois benefícios físicos diretos —, o que não ocorre na banheira grande, cujo volume absorve a diferença sem qualquer efeito perceptível.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 4:4
וְאָמְרוּ אֲבָל לֹא יוֹשֵׁב, זֶה הוּא בְּמָקוֹם שֶׁלּוֹקְחִים שָׂכָר מִן הַיְשִׁיבָה... וְלֹא יֹאכַל עִמּוֹ בִּכְלִי אֶחָד, לְפִי שֶׁהוּא חוֹלֵק לוֹ כָּבוֹד וְיָשִׂים חֲתִיכַת בָּשָׂר טוֹבָה לְפָנָיו אוֹ יַנִּיחֶנָּה כְּדֵי שֶׁיֹּאכְלֶנָּה

Rambam confirma que a distinção entre ficar em pé e sentar-se depende exclusivamente do costume local de remunerar quem acompanha o doente sentado. Sobre o prato individual compartilhado, ele explica o risco concreto que a mishná evita: ao comerem do mesmo recipiente, um dos dois — por respeito ou afeto — pode reservar a melhor porção para o outro, ou deixar de comer certo pedaço para que o companheiro o consuma, gerando benefício disfarçado; o prato coletivo que retorna ao anfitrião elimina esse risco, pois seu conteúdo não é controlado por nenhum dos dois comensais.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 4:4
רְפוּאַת הַנֶּפֶשׁ. רְפוּאַת גּוּפוֹ... אֲבָל לֹא בִקְטַנָּה. מִפְּנֵי שֶׁמְּהַנֵּהוּ כְּשֶׁמַּגְבִּיהַּ עָלָיו אֶת הַמַּיִם... הָאֵבוּס שֶׁלִּפְנֵי הַפּוֹעֲלִים. כְּלִי גָּדוֹל שֶׁמְּמַלְּאִים אוֹתוֹ וְאוֹכְלִים בּוֹ כָּל הַפּוֹעֲלִים בְּיַחַד. לֹא יַעֲשֶׂה עִמּוֹ בְאֻמָּן. לֹא יִקְצֹר עִמּוֹ בְּאוֹתָהּ שׁוּרָה שֶׁהוּא קוֹצֵר, שֶׁגּוֹרֵם לוֹ שֶׁמְּמַהֵר לַעֲשׂוֹת מְלַאכְתּוֹ

Bartenura resume as definições práticas: "cura da alma" é curar o corpo, e o dever de curar decorre de "e o devolverás a ele"; a mitsvá permite ao votado tratar o corpo do doente com as próprias mãos, mas não seu animal, apenas indicando o remédio adequado. Sobre trabalhar "em umán" — lado a lado na mesma fileira de colheita —, Bartenura explica que isso é proibido segundo Rabi Meir porque, ao encontrar o espaço já livre ao lado, o trabalhador termina sua tarefa mais rápido; os sábios discordam apenas quanto à distância exigida, não quanto ao princípio, e por isso permitem o trabalho conjunto desde que a certa distância um do outro.