Konam, que eu não desfruto dos filhos de Noaj — está permitido com Israel e proibido com as nações do mundo. Que eu não desfruto da semente de Avraham — está proibido com Israel e permitido com as nações do mundo. Que eu não desfruto de Israel — compra por mais e vende por menos. Que Israel não desfrute de mim — compra por menos e vende por mais, se ouvirem dele. Que eu não desfrute deles nem eles de mim — que desfrutem os gentios. Konam, que eu não desfruto dos incircuncisos — está permitido com os incircuncisos de Israel e proibido com os circuncidados das nações. Konam, que eu não desfruto dos circuncidados — está proibido com os incircuncisos de Israel e permitido com os circuncidados das nações, pois a incircuncisão só se chama assim em razão dos gentios, como está dito: pois todas as nações são incircuncisas, e toda a casa de Israel é incircuncisa de coração; e diz: e será este filisteu incircunciso; e diz: para que não se alegrem as filhas dos filisteus, para que não exultem as filhas dos incircuncisos. Rabi Elazar ben Azaria diz: repugnante é a incircuncisão, pois com ela foram vituperados os ímpios, como está dito: pois todas as nações são incircuncisas. Rabi Ishmael diz: grande é a milá, pois por ela foram cortados treze pactos. Rabi Yossei diz: grande é a milá, pois ela suplanta o rigoroso shabat. Rabi Yehoshua ben Korchá diz: grande é a milá, pois por ela mesmo Moshé o justo não teve seu castigo suspenso nem por uma hora inteira. Rabi Nechemiá diz: grande é a milá, pois ela suplanta as pragas. Rabi diz: grande é a milá, pois de todas as mitsvot que fez Avrahám nosso pai, não foi chamado íntegro até que se circuncidou, como está dito: caminha diante de mim e sê íntegro. Outra explicação: grande é a milá, pois se não fosse ela, o Santo, bendito seja, não teria criado seu mundo, como está dito: assim disse o Eterno: se não for meu pacto, dia e noite, os estatutos dos céus e da terra eu não teria estabelecido. — A mishná encerra o perek examinando cinco fórmulas de votos que envolvem categorias étnicas e religiosas amplas, e termina com uma homenagem tannaítica coletiva à circuncisão, tema naturalmente suscitado pela discussão sobre "circuncidados" e "incircuncisos". "Filhos de Noaj" designa toda a humanidade em sentido literal e amplo — inclusive Israel, que também descende de Noaj —; por isso, quem vota contra eles ficaria, a rigor, proibido também com Israel, mas a mishná ensina que a linguagem corrente restringe essa expressão às nações do mundo, excluindo Israel. Já "semente de Avraham" é mais restrita ainda na linguagem comum: refere-se apenas à linhagem de Yaakov — Israel —, e não a Ishmael ou Essav, que também descendem de Avraham mas não constituem, na fala das pessoas, "a semente de Avraham" no sentido pleno. As três cláusulas seguintes tratam do comércio entre quem vota e israelitas, com fórmulas engenhosas para contornar a proibição de desfrutar sem prejudicar ninguém. As duas últimas cláusulas retomam o padrão de que a linguagem idiomática, e não o sentido literal, determina o alcance: "incircuncisos" e "circuncidados", diz a mishná citando três versículos proféticos, são termos que na Bíblia designam especificamente os gentios, não os israelitas incircuncisos por acidente médico. A mishná fecha com a longa coletânea de sete elogios tannaítas à grandeza da mitsvá da milá — de Rabi Elazar ben Azaria, que enfatiza a repugnância da incircuncisão, até a declaração culminante de que, sem o pacto da circuncisão, o próprio mundo não teria sido criado.
O clímax da mishná — "se não for meu pacto... eu não teria estabelecido" — remete diretamente ao versículo de Yirmiyahu que Rabi cita como fundamento da afirmação de que o próprio mundo depende do pacto da circuncisão.
O versículo, em seu contexto original, refere-se ao pacto entre Deus e a ordem cósmica do dia e da noite; a mishná, seguindo uma tradição interpretativa mais ampla, o aplica ao pacto da circuncisão, também chamado de "brit" na Torá. Essa leitura eleva a milá ao status de condição estrutural da própria existência do mundo, a mais elevada de todas as sete homenagens tannaíticas reunidas ao final da mishná — clímax retórico de uma coletânea que percorre a gravidade da circuncisão sob os ângulos da aliança (os treze pactos de Bereshit 17), do calendário ritual (suplantando o shabat), da autoridade profética (nem Moshé escapou de sua exigência), da pureza ritual (suplantando as leis de tsaraat), e da integridade pessoal de Avrahám.
Rambam, em Mishné Torá, fixa a regra prática de que a expressão "semente de Avraham" na linguagem dos votos se restringe à linhagem de Yaakov, e não aos demais descendentes de Avrahám.
Rambam explica que, embora "semente de Avraham" pudesse, em princípio, abranger todos os descendentes biológicos de Avrahám — incluindo Ishmael e Essav —, a linguagem da própria Torá já restringe essa designação: quando Deus profetiza a Avrahám que "estrangeira será tua semente em terra que não é sua", a profecia se cumpriu apenas através da linhagem de Yaakov, que desceu ao Egito. Por isso, na linguagem comum dos votos, "semente de Avraham" designa exclusivamente Israel, e quem vota contra ela permanece permitido a desfrutar até mesmo de Essav e Ishmael, apesar de ambos serem, biologicamente, também descendentes diretos de Avrahám.
Rambam, no Perush HaMishná, enumera os treze pactos da circuncisão mencionados por Rabi Ishmael; Bartenura detalha os mecanismos das três cláusulas comerciais e a base bíblica da restrição de "orlá" aos gentios.
Rambam enumera, em nome de Rabi Ishmael, as treze repetições das palavras "berit" (pacto) e "beriti" (meu pacto) no capítulo 17 de Bereshit, onde Deus estabelece o pacto da circuncisão com Avrahám — cada repetição interpretada como um pacto adicional selado por meio dessa mitsvá. Sobre a afirmação de que a milá "suplanta as pragas" (Rabi Nechemiá), Rambam explica o caso prático: quando há uma mancha de tsaraat exatamente sobre o local da circuncisão, o mohel deve cortar ali mesmo no momento da milá, apesar de a Torá proibir, em princípio, cortar deliberadamente uma mancha de tsaraat — pois a mitsvá da circuncisão no oitavo dia tem prioridade sobre essa proibição.
Bartenura explica o mecanismo das três cláusulas comerciais intermediárias: quem votou não desfrutar dos israelitas evita fazê-lo comprando deles por preço mais alto que o justo e vendendo a eles por preço mais baixo — assim, na prática, é ele quem beneficia os israelitas, e não o contrário, cumprindo tecnicamente o voto sem prejudicar ninguém. A cláusula inversa — que israelitas não desfrutem dele — depende de encontrar alguém dentre eles disposto a aceitar negociar dessa forma vantajosa para o votante, o que nem sempre é fácil. Sobre "orlim" e "mulim", Bartenura esclarece que o critério decisivo não é o estado físico do prepúcio, mas a fé professada: "incircunciso" na linguagem dos votos designa quem não crê no pacto da circuncisão — isto é, o gentio —, e "circuncidado" designa quem professa essa fé, ainda que fisicamente incircunciso por acidente ou impedimento médico.