Quem vota contra os que guardam o shabat está proibido com israelitas e proibido com cutim. Contra os que comem alho, está proibido com israelitas e proibido com cutim. Contra os que sobem a Jerusalém, está proibido com israelitas e permitido com cutim. — A mishná examina três expressões que descrevem práticas ou costumes, e não a pertença a um povo específico. "Os que guardam o shabat" e "os que comem alho" — este último costume, ligado às dez ordenanças de Ezra, praticado às sextas-feiras à noite — eram observâncias partilhadas tanto por israelitas quanto por cutim, que observavam parte considerável da lei mosaica; por isso, votar contra quem tem esses costumes exclui ambos os grupos igualmente. Mas "os que sobem a Jerusalém" é diferente: refere-se especificamente à peregrinação ao Templo na cidade santa, prática central à identidade israelita mas rejeitada pelos cutim, que odiavam Jerusalém e haviam escolhido o Monte Guerizim como seu centro de culto alternativo. Por isso, quem vota contra "os que sobem a Jerusalém" exclui apenas os israelitas, que de fato praticam essa peregrinação, e permanece permitido com os cutim, que nunca sobem à cidade santa.
A obrigação de peregrinar três vezes ao ano "ao lugar que o Eterno escolher" fundamenta a prática de "subir a Jerusalém" como marca distintiva de Israel, ausente entre os cutim, que rejeitavam esse lugar.
O mandamento da peregrinação vincula a subida ao "lugar que Ele escolher" — Jerusalém, sede do Templo — como marca central e obrigatória da identidade israelita. É precisamente essa vinculação exclusiva a Jerusalém que separa israelitas de cutim na terceira cláusula desta mishná: enquanto o shabat e os costumes alimentares eram práticas partilhadas por herança comum da lei mosaica, a peregrinação ao Templo de Jerusalém era ponto de ruptura religiosa entre os dois povos, que a tradição rabínica sempre destacou como sinal decisivo da diferença entre a fé israelita genuína e a versão parcial e distorcida dos cutim.
Rambam, no Perush HaMishná, explica o pano de fundo histórico do costume do alho e a razão da rejeição dos cutim a Jerusalém.
Rambam explica que comer alho na noite de shabat era costume estabelecido entre os judeus da época, por seu valor nutricional associado ao cumprimento da mitsvá conjugal nessa noite — costume que os cutim, observantes de parte da lei mosaica, também seguiam. Já a rejeição dos cutim a Jerusalém era fato notório e amplamente conhecido em toda a terra de Israel, a ponto de eles ativamente desprezarem e amaldiçoarem a cidade santa — tornando evidente por que a expressão "os que sobem a Jerusalém" nunca poderia incluí-los.
Bartenura detalha a origem da tacana de Ezra sobre o alho e explica por que os cutim, apesar de seguirem parte da Torá, rejeitam Jerusalém em favor do Monte Guerizim.
Bartenura identifica o costume de comer alho às noites de sexta-feira como uma das dez ordenanças institucionais atribuídas a Ezra o Escriba, motivada pelo valor do alho em favorecer a fertilidade — associada ao cumprimento da união conjugal, tradicionalmente recomendada aos estudiosos precisamente nas noites de shabat. Sobre a exclusão dos cutim da terceira cláusula, Bartenura confirma que eles não praticam a peregrinação festiva a Jerusalém: por ódio à cidade, escolheram o Monte Guerizim como seu próprio centro de culto alternativo, rejeitando ativamente a santidade de Jerusalém reconhecida pela tradição israelita.