Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Guimel · Mishná 10 de 11

Os que guardam o shabat, os comedores de alho, os que sobem a Jerusalém

הַנּוֹדֵר מִשּׁוֹבְתֵי שַׁבָּת, אָסוּר בְּיִשְׂרָאֵל וְאָסוּר בַּכּוּתִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná trata de três expressões que envolvem a comparação entre israelitas e cutim (samaritanos) — povo que observava parte da lei mosaica mas rejeitava Jerusalém como centro de culto — e mostra como práticas partilhadas incluem os cutim, enquanto a vinculação a Jerusalém os exclui.

Quem vota contra os que guardam o shabat está proibido com israelitas e proibido com cutim. Contra os que comem alho, está proibido com israelitas e proibido com cutim. Contra os que sobem a Jerusalém, está proibido com israelitas e permitido com cutim.A mishná examina três expressões que descrevem práticas ou costumes, e não a pertença a um povo específico. "Os que guardam o shabat" e "os que comem alho" — este último costume, ligado às dez ordenanças de Ezra, praticado às sextas-feiras à noite — eram observâncias partilhadas tanto por israelitas quanto por cutim, que observavam parte considerável da lei mosaica; por isso, votar contra quem tem esses costumes exclui ambos os grupos igualmente. Mas "os que sobem a Jerusalém" é diferente: refere-se especificamente à peregrinação ao Templo na cidade santa, prática central à identidade israelita mas rejeitada pelos cutim, que odiavam Jerusalém e haviam escolhido o Monte Guerizim como seu centro de culto alternativo. Por isso, quem vota contra "os que sobem a Jerusalém" exclui apenas os israelitas, que de fato praticam essa peregrinação, e permanece permitido com os cutim, que nunca sobem à cidade santa.

הַנּוֹדֵר מִשּׁוֹבְתֵי שַׁבָּת, אָסוּר בְּיִשְׂרָאֵל וְאָסוּר בַּכּוּתִים. מֵאוֹכְלֵי שׁוּם, אָסוּר בְּיִשְׂרָאֵל וְאָסוּר בַּכּוּתִים. מֵעוֹלֵי יְרוּשָׁלַיִם, אָסוּר בְּיִשְׂרָאֵל וּמֻתָּר בַּכּוּתִים:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A obrigação de peregrinar três vezes ao ano "ao lugar que o Eterno escolher" fundamenta a prática de "subir a Jerusalém" como marca distintiva de Israel, ausente entre os cutim, que rejeitavam esse lugar.

Devarim (Deuteronômio) 16:16
שָׁלוֹשׁ פְּעָמִים בַּשָּׁנָה יֵרָאֶה כָל זְכוּרְךָ אֶת פְּנֵי ה' אֱלֹהֶיךָ בַּמָּקוֹם אֲשֶׁר יִבְחָר
Três vezes no ano todo o teu sexo masculino aparecerá perante o Eterno teu Deus, no lugar que Ele escolher.

O mandamento da peregrinação vincula a subida ao "lugar que Ele escolher" — Jerusalém, sede do Templo — como marca central e obrigatória da identidade israelita. É precisamente essa vinculação exclusiva a Jerusalém que separa israelitas de cutim na terceira cláusula desta mishná: enquanto o shabat e os costumes alimentares eram práticas partilhadas por herança comum da lei mosaica, a peregrinação ao Templo de Jerusalém era ponto de ruptura religiosa entre os dois povos, que a tradição rabínica sempre destacou como sinal decisivo da diferença entre a fé israelita genuína e a versão parcial e distorcida dos cutim.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, explica o pano de fundo histórico do costume do alho e a razão da rejeição dos cutim a Jerusalém.

Rambam · Perush HaMishná, Nedarim 3:10
יִתְבָּאֵר לְךָ בְּזֹאת הַמַּסֶּכֶת שֶׁהָיָה מִנְהָגָם לֶאֱכֹל שׁוּם בְּעֶרֶב שַׁבָּת עַל כָּל פָּנִים, וֶהֱיוֹת הַכּוּתִים מוֹאֲסִים לִירוּשָׁלַיִם וּמְקַלְּלִין אוֹתָהּ הֲרֵי הוּא מְפֻרְסָם בְּכָל הָאָרֶץ

Rambam explica que comer alho na noite de shabat era costume estabelecido entre os judeus da época, por seu valor nutricional associado ao cumprimento da mitsvá conjugal nessa noite — costume que os cutim, observantes de parte da lei mosaica, também seguiam. Já a rejeição dos cutim a Jerusalém era fato notório e amplamente conhecido em toda a terra de Israel, a ponto de eles ativamente desprezarem e amaldiçoarem a cidade santa — tornando evidente por que a expressão "os que sobem a Jerusalém" nunca poderia incluí-los.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha a origem da tacana de Ezra sobre o alho e explica por que os cutim, apesar de seguirem parte da Torá, rejeitam Jerusalém em favor do Monte Guerizim.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 3:10
מֵאוֹכְלֵי שׁוּם. אֶחָד מֵעֶשֶׂר תַּקָּנוֹת שֶׁתִּקֵּן עֶזְרָא, שֶׁיִּהְיוּ אוֹכְלִים שׁוּם לֵילֵי שַׁבָּת, מִפְּנֵי שֶׁמַּרְבִּים הַזֶּרַע... וּמֻתָּר בַּכּוּתִים. שֶׁאֵינָן עוֹלִים לָרֶגֶל... מִפְּנֵי שֶׁהֵם שׂוֹנְאִים יְרוּשָׁלַיִם וּבָחֲרוּ לָהֶם הַר גְּרִיזִים

Bartenura identifica o costume de comer alho às noites de sexta-feira como uma das dez ordenanças institucionais atribuídas a Ezra o Escriba, motivada pelo valor do alho em favorecer a fertilidade — associada ao cumprimento da união conjugal, tradicionalmente recomendada aos estudiosos precisamente nas noites de shabat. Sobre a exclusão dos cutim da terceira cláusula, Bartenura confirma que eles não praticam a peregrinação festiva a Jerusalém: por ódio à cidade, escolheram o Monte Guerizim como seu próprio centro de culto alternativo, rejeitando ativamente a santidade de Jerusalém reconhecida pela tradição israelita.