Quem vota contra os nascidos está permitido com os que nascerão. Quem vota contra os que nascerão está proibido com os nascidos. Rabi Meir permite também com os nascidos. E os sábios dizem: este não pretendia senão quem tem por costume gerar. — "Os nascidos" (yelodim) refere-se a quem já veio ao mundo; "os que nascerão" (noladim) refere-se a quem ainda virá a nascer. Quem vota contra os já nascidos naturalmente não inclui os que ainda vão nascer — categoria futura e distinta. Mas, segundo a leitura inicial da mishná (a opinião tanna qama, implícita), quem vota contra "os que nascerão" fica proibido também com os já nascidos, pois estes, num sentido amplo, também um dia "nasceram" e portanto se enquadram, retrospectivamente, na categoria mais geral de seres que passam pelo processo de nascimento. Rabi Meir estende essa mesma lógica de reciprocidade: assim como quem vota contra os que nascerão inclui os já nascidos, também quem vota contra os já nascidos deveria incluir os que ainda nascerão — pois ambas as expressões, no fundo, apontam para a mesma categoria ampla de "seres que nascem". Os sábios discordam dessa extensão: para eles, a expressão "os que nascerão" não se refere a uma categoria temporal abstrata, mas concretamente àqueles cuja natureza é gerar descendência — isto é, seres vivos como o ser humano e outros mamíferos, que produzem filhotes vivos, e não aves ou peixes, que põem ovos.
A própria Torá emprega "yelod" para designar aqueles já nascidos numa época determinada, distinguindo-os das gerações futuras — fundamento textual para a categoria "yelodim" da mishná.
O versículo distingue nitidamente entre "os que saíram" do Egito e "os yelodim" — os nascidos depois, já no deserto — como duas gerações e categorias claramente delimitadas no tempo. Essa mesma lógica bíblica de "yelodim" como designação precisa de uma geração já nascida, distinta da geração futura, é o que a mishná pressupõe ao construir a categoria "yelodim" como referência a quem já veio ao mundo, contraposta a "noladim", os que ainda hão de nascer.
Na ausência de citação direta em Mishné Torá para este caso específico, o Perush HaMishná do próprio Rambam serve de fonte halachica, explicitamente rotulado, decidindo a favor dos sábios contra Rabi Meir.
Rambam explica que, na linguagem popular da época, "yelodim" significava simplesmente quem já havia nascido, e "noladim", quem ainda haveria de nascer — categorias puramente temporais. Mas os sábios, cuja opinião prevalece como halachá, entendem "noladim" não como referência temporal abstrata, mas como designação de espécies "cujo costume é gerar" — isto é, que produzem descendentes vivos, como o ser humano e os quadrúpedes —, excluindo aves e a maioria dos peixes, cujo costume é pôr ovos, e não gerar filhotes diretamente. A halachá segue os sábios, não Rabi Meir.
Bartenura detalha a estrutura elíptica da mishná conforme a Guemará e confirma a exclusão de aves e peixes da categoria "noladim".
Bartenura esclarece, com base na Guemará, que o texto da mishná está elíptico e deve ser completado: primeiro se afirma que quem vota contra "os que nascerão" fica proibido com "os já nascidos" — posição da opinião inicial —, e então Rabi Meir discorda, sustentando que também quem vota contra os já nascidos deveria ficar permitido com os que nascerão, pela mesma lógica de reciprocidade. Os sábios, por fim, explicam que "noladim" não é uma categoria temporal, mas biológica: refere-se especificamente a seres "cujo costume é gerar" — como o ser humano e os animais quadrúpedes que dão à luz filhotes vivos —, excluindo expressamente aves e peixes, que não geram descendentes diretamente, mas põem ovos.