Sua esposa fez voto, e ele pensou que fora sua filha que fizera voto; sua filha fez voto, e ele pensou que fora sua esposa que fizera voto; fez voto de ser nazirea, e ele pensou que fizera voto de oferenda; fez voto de oferenda, e ele pensou que fizera voto de ser nazirea; fez voto de figos, e ele pensou que fizera voto de uvas; fez voto de uvas, e ele pensou que fizera voto de figos — ele deve voltar e anular. — A mishná examina uma série de casos em que a anulação, embora pronunciada com palavras tecnicamente corretas, foi feita com base numa percepção equivocada da realidade — seja sobre quem fez o voto (confundindo esposa com filha, ou vice-versa), seja sobre a natureza do voto (confundindo nazireato com um voto de trazer oferenda, ou figos com uvas). Em todos esses casos, a mishná decreta que a anulação original não teve efeito algum, e o titular precisa "voltar e anular" — repetir o ato, desta vez com pleno conhecimento e intenção correta sobre a pessoa e o conteúdo exatos do voto que está anulando. O princípio subjacente é que a anulação, tal como a Torá a descreve, exige que o titular esteja verdadeiramente ciente do voto que está desfazendo — não basta que suas palavras coincidam, por acaso, com a fórmula correta; sua intenção precisa corresponder à realidade específica do voto em questão. Sem esse conhecimento genuíno, o ato de anulação carece do elemento essencial que a Torá exige, e o voto original permanece tecnicamente vigente até que uma nova anulação, desta vez informada corretamente, seja realizada.
A exigência de que a anulação corresponda com precisão à pessoa e ao conteúdo reais do voto deriva de dois elementos textuais distintos no mesmo capítulo de Bemidbar: o pronome "ela" (otah) e a expressão "seu voto" (nidrah).
A Guemará extrai da palavra "otah" (a ela) a exigência de que a anulação seja direcionada especificamente à pessoa que de fato fez o voto — e não a outra pessoa, ainda que próxima, como uma filha confundida com a esposa. Da expressão "et nidrah" (seu voto), a Guemará extrai uma segunda exigência: o titular precisa saber qual voto específico está anulando — não basta anular "algum voto genérico" sem saber se se trata de nazireato, oferenda, ou uma restrição alimentar específica. As duas exigências, extraídas de duas partes do mesmo versículo, formam juntas o padrão de precisão que esta mishná ilustra através de seis exemplos emparelhados.
Rambam, no Perush HaMishná, explica que a intenção original de anular "seja qual for a intenção" poderia parecer suficiente, mas a fonte bíblica exige precisão real — não apenas boa vontade genérica.
Rambam explica o raciocínio subjacente: poder-se-ia pensar que, uma vez que o titular tinha genuína intenção de anular algum voto de sua esposa ou filha, sua anulação deveria valer independentemente de detalhes específicos. Mas a Guemará esclarece que não é assim: o versículo exige que a anulação seja "para ela mesma" — a pessoa exata que fez o voto — e sobre "aquilo que ela jurou" — o conteúdo exato do voto, não apenas a categoria geral. Sem essa correspondência precisa, a anulação simplesmente não se aplica ao voto real que está em vigor.
Rambam e Bartenura detalham a origem textual dupla desta exigência de precisão — a pessoa e o conteúdo do voto — como leitura direta dos dois elementos do versículo de Bemidbar 30:6.
Rambam confirma a dupla base textual: "não a proibiu" (lo heni otah) exige que a anulação seja direcionada à pessoa exata que fez o voto, e "ouviu seu voto" (shama et nidrah) exige que o titular tenha conhecimento do conteúdo exato daquilo que está anulando. As duas condições precisam se cumprir juntas para que a anulação seja válida — falhando qualquer uma delas, como nos seis casos ilustrados pela mishná, o ato precisa ser refeito.
Bartenura resume os dois elementos numa fórmula clara: uma "anulação em erro" (hafará be-ta'ut) simplesmente não é uma anulação válida. É preciso que o titular tenha, ao mesmo tempo, a intenção correta quanto à identidade da pessoa que fez o voto — a própria noderet, e não outra pessoa confundida com ela — e conhecimento correto quanto ao conteúdo específico daquele voto. Bartenura observa que a mishná ilustra essa dupla exigência com pares emparelhados e simétricos: confusão de pessoa (esposa/filha), confusão de categoria de voto (nazireato/oferenda), e confusão de objeto específico dentro da mesma categoria (figos/uvas) — mostrando que o princípio se aplica em todos os níveis de precisão exigidos.