Konam, que eu não me beneficio das criaturas — não pode anular; mas ela pode se beneficiar de espiga caída, esquecida e canto do campo. Konam, que os cohanim e leviim se beneficiem de mim — tomam contra sua vontade. Estes cohanim e estes leviim se beneficiem de mim — outros tomam. — A mishná apresenta o caso mais radical de voto de auto-privação: uma mulher que se proíbe de receber qualquer benefício vindo de outra pessoa qualquer. À primeira vista, isso pareceria a forma máxima de aflição da alma, justificando amplamente a anulação. Mas a mishná ensina o contrário: o marido não pode anular esse voto, porque o próprio sustento que ele lhe provê não é considerado "benefício das criaturas" — o marido está fora da categoria "pessoas" para efeito deste voto, uma vez que ele tem obrigação bíblica de sustentá-la, e não age por benevolência voluntária como as demais pessoas. Como ela continua recebendo tudo de que precisa através dele, não há aflição real, e o voto permanece plenamente vigente mesmo perante ele. A mishná acrescenta que, caso ela seja pobre, mesmo esse voto amplo não a impede de receber os dons agrícolas destinados aos pobres — espiga caída (leket), gavela esquecida (shichechá) e o canto do campo (pe'á) — porque esses dons não são doados por benevolência pessoal de ninguém: são obrigações que a Torá impõe automaticamente ao proprietário, sem qualquer ato voluntário de doação, e por isso não se qualificam como "benefício das criaturas". A segunda parte da mishná trata de um caso relacionado: quem veda que cohanim e leviim em geral se beneficiem dele, não pode impedi-los de tomar à força os dons sacerdotais e levíticos que lhes são devidos por lei; mas se especificou determinados cohanim e leviim, apenas estes ficam excluídos, e outros podem receber esses dons normalmente.
A leitura de que o marido não figura entre as "criaturas" deste voto apoia-se na mesma expressão bíblica "entre um homem e sua mulher" — lida como definindo o que conta como assunto "entre eles" versus o que envolve terceiros externos ao casamento.
A expressão "entre um homem e sua mulher" define o âmbito de atuação do poder de anulação do marido como sendo especificamente assuntos internos ao vínculo conjugal. A Guemará usa essa mesma expressão para o argumento inverso do visto nas mishnayot anteriores: assim como certos votos que dizem respeito diretamente à relação entre marido e esposa são anuláveis por ele mesmo sem qualificarem como aflição da alma clássica, aqui a lógica se inverte — precisamente porque o sustento do marido não é um "benefício de terceiro" mas uma obrigação legal decorrente do próprio casamento, o voto contra "as criaturas" não o atinge, e permanece vigente mesmo dentro do lar, já que, tecnicamente, ele nunca deixou de sustentá-la como manda a lei.
Rambam, no Perush HaMishná, explica por que este é, na prática, o único tipo de voto que o marido nunca consegue anular, e detalha a lógica dos dons sacerdotais mencionados na segunda parte da mishná.
Rambam esclarece um ponto sutil: embora a primeira parte da mishná — que o marido não anula esse voto — pareça, à primeira vista, seguir a linha restritiva de Rabi Yosei, ela é, na verdade, aceita como lei mesmo pelos sábios que discordam de Rabi Yosei nos demais pontos do capítulo. A razão não é a "pequenez" da aflição (como argumentaria Rabi Yosei), mas o motivo estrutural distinto de que o próprio marido está fora do escopo da palavra "criaturas". Rambam explica também que os dons de leket, shichechá e pe'á mencionados aqui pertencem tecnicamente ao domínio do "sem dono" (hefker) desde o momento em que caem ou são esquecidos no campo, e por isso recebê-los nunca constitui "benefício de pessoas".
Rashi explica por que o marido está excluído da categoria "criaturas" e a base para a leitura de que os dons de leket, shichechá e pe'á não constituem benefício de terceiros; Rambam e Bartenura reforçam a distinção entre a categoria de aflição da alma e a categoria de "assuntos entre marido e mulher".
Rashi confirma que este voto genérico — "konam, que eu não me beneficio das criaturas" — proíbe formalmente todo e qualquer benefício vindo de outra pessoa, mas explica que o marido não pode anulá-lo precisamente porque a incapacidade de anular deriva do fato de que ela consegue se sustentar inteiramente através dele, o que retira toda aflição real do voto — não é, portanto, uma questão de definição estrita da categoria "aflição da alma", mas de ausência prática de sofrimento. Sobre os dons agrícolas, Rashi confirma que leket, shichechá e pe'á não são "das criaturas" porque pertencem, desde a origem, ao domínio do hefker — abandonados pelo próprio proprietário por comando bíblico, sem qualquer ato voluntário de doação de sua parte.
Rambam distingue com precisão a estrutura desta mishná: o voto "que eu não me beneficio das criaturas" não é anulado pelo marido não por ser fraco demais na escala de aflição de Rabi Yosei, mas por um motivo estrutural mais profundo — ele nunca conta como um dos "beneficiadores" possíveis, já que sua obrigação de sustento é legal e não voluntária. Rambam também nota que este mesmo raciocínio — assuntos "entre ele e ela" que o marido pode anular independentemente de serem tecnicamente aflição da alma — é o que permite ao marido anular votos sobre embelezamento, tingimento e outros cuidados pessoais tratados adiante no capítulo.
Bartenura confirma que o marido não está incluído entre as "criaturas" para efeito deste voto, precisamente porque ela pode se sustentar inteiramente dele. Bartenura acrescenta uma distinção conceitual importante que ecoa ao longo de todo o capítulo: existe uma diferença entre "votos de aflição da alma" propriamente ditos — que o marido pode anular tanto para si mesmo quanto para o benefício dela perante qualquer outra pessoa, mesmo depois de um eventual divórcio — e "assuntos entre ele e ela" — como o voto contra um único vendedor —, que o marido anula apenas na medida em que o afetam diretamente, permanecendo o voto vigente para ela em relação a todas as outras pessoas mesmo depois da anulação.