Seder Nashim · Massechet Nazir · Perek Vav · Mishná 4 de 11

Uma advertência, uma transgressão: a repetição do aviso multiplica a culpa

נָזִיר שֶׁהָיָה שׁוֹתֶה יַיִן כָּל הַיּוֹם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná aplica às três proibições do nazireado — vinho, corte de cabelo e impureza — o princípio segundo o qual a repetição de uma transgressão só multiplica a culpa quando cada ato é precedido de uma advertência distinta; sem essa advertência renovada, toda uma sequência de atos conta como uma única transgressão.

O nazireu que bebeu vinho o dia todo fica obrigado por apenas uma vez. Disseram-lhe: "não beba, não beba", e ele bebeu, fica obrigado por cada uma das vezes. Cortou o cabelo o dia todo, fica obrigado por apenas uma vez. Disseram-lhe: "não corte, não corte", e ele cortou, fica obrigado por cada uma das vezes. Impurificou-se por mortos o dia todo, fica obrigado por apenas uma vez. Disseram-lhe: "não se impurifique, não se impurifique", e ele se impurificou, fica obrigado por cada uma das vezes.Nas três proibições centrais do nazireado, vale o mesmo princípio: se o nazireu repete a transgressão várias vezes sem que ninguém o advirta entre um ato e outro, toda a sequência de atos é tratada como uma única transgressão, gerando apenas uma culpa. Mas se, antes de cada novo ato, alguém formalmente o adverte a não repeti-lo, e ele o repete mesmo assim, cada ato advertido passa a constituir uma transgressão distinta e autônoma, multiplicando sua culpa por tantas vezes quantas foi advertido e ainda assim persistiu.

נָזִיר שֶׁהָיָה שׁוֹתֶה יַיִן כָּל הַיּוֹם, אֵינוֹ חַיָּב אֶלָּא אֶחָת. אָמְרוּ לוֹ אַל תִּשְׁתֶּה אַל תִּשְׁתֶּה, וְהוּא שׁוֹתֶה, חַיָּב עַל כָּל אַחַת וְאֶחָת. הָיָה מְגַלֵּחַ כָּל הַיּוֹם, אֵינוֹ חַיָּב אֶלָּא אֶחָת. אָמְרוּ לוֹ אַל תְּגַלֵּחַ אַל תְּגַלֵּחַ, וְהוּא מְגַלֵּחַ, חַיָּב עַל כָּל אַחַת וְאֶחָת. הָיָה מִטַּמֵּא לְמֵתִים כָּל הַיּוֹם, אֵינוֹ חַיָּב אֶלָּא אֶחָת. אָמְרוּ לוֹ אַל תִּטַּמָּא אַל תִּטַּמָּא, וְהוּא מִטַּמֵּא, חַיָּב עַל כָּל אַחַת וְאֶחָת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A exigência de advertência prévia para multiplicar a culpa por transgressões repetidas é um princípio geral da tradição oral, aplicado aqui às três proibições do nazireado enumeradas na própria passagem que institui o voto.

Bemidbar (Números) 6:3-7
מִיַּיִן וְשֵׁכָר יַזִּיר... כָּל יְמֵי נִזְרוֹ תַּעַר לֹא יַעֲבֹר עַל רֹאשׁוֹ... כָּל יְמֵי הַזִּירוֹ לַה' עַל נֶפֶשׁ מֵת לֹא יָבֹא
De vinho e de bebida forte se abstenha... todos os dias do seu nazireado, navalha não passará sobre sua cabeça... todos os dias em que se consagra ao Eterno, não se aproximará de pessoa morta.

O princípio de que uma advertência formal e renovada é o que separa uma sequência de atos, tratada como transgressão única, de uma série de transgressões distintas e autônomas, é um princípio geral de todo o sistema de proibições da Torá, que a mishná aqui aplica especificamente às três categorias centrais do nazireado — mostrando que elas seguem a mesma regra que rege toda transgressão passível de punição.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam distingue entre o sistema de punição terrena, que exige advertência, e a prestação de contas perante o Céu, que não depende dela.

Rambam · Perush HaMishná, Nazir 6:4
זה שאמרנו באלו הבבות אינו חייב אלא אחת אין זה אלא בדיני אדם שאינו מחוייב מלקות אלא אחר ההתראה ולכך צריך התראה על כל מלקות והוא מה שאמרו לו אל תשתה אבל בדיני שמים כל זמן ששתה רביעית יין עבירה ועל כל גלוח שערו עבירה וכל טומאה שיטמא עבירה

Rambam explica que a regra de que a sequência sem advertência conta como uma única culpa vale apenas para os tribunais humanos, que só podem aplicar açoites após uma advertência formal e específica antes de cada ato. Mas perante o juízo Celestial, cada ato de transgressão — cada revi'it de vinho bebido, cada corte de cabelo, cada impureza contraída — constitui, por si só, uma transgressão distinta, com ou sem advertência prévia; a exigência de advertência é uma limitação do sistema judicial humano, não uma medida da gravidade real do ato perante o Céu.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi, Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Nazir 42b, s.v. שלא בחיבורין
שֶׁלֹּא בְחִבּוּרִין - דְּנָגַע בְּמֵת זֶה וְהָלַךְ וְנִטְמָא בְּמֵת אַחֵר, וּדְכַוָתָהּ נַמִּי בְּמַתְנִיתִין דְּמִיחַיַּיב עַל כָּל אַחַת וְאַחַת כְּגוֹן שֶׁנִּטְמָא בְּזֶה וְהָלַךְ וְנָגַע בְּמֵת אַחֵר

Rashi esclarece que a impureza múltipla mencionada na mishná se refere a casos em que o nazireu toca um morto, depois se afasta, e então toca um segundo morto distinto — situação em que, havendo advertência entre um contato e outro, cada toque gera obrigação separada, diferentemente do caso de impurezas conectadas entre si, tratadas como um único evento.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nazir 6:4
אבל בדיני שמים כל זמן ששתה רביעית יין עבירה ועל כל גלוח שערו עבירה וכל טומאה שיטמא עבירה

Como citado acima em Halachot, Rambam esclarece a distinção fundamental entre a contagem de culpas para efeito de punição judicial, que depende de advertência, e a realidade da transgressão perante o Céu, que existe independentemente dela — e nota que esse mesmo princípio se estende a toda a Torá, incluindo, por exemplo, as relações proibidas.

Bartenura · רע״ב
Nazir 6:4
נָזִיר שֶׁהָיָה שׁוֹתֶה יַיִן כָּל הַיּוֹם. וְלֹא הִתְרוּ בוֹ אֶלָּא אַחַת. אַל תִּשְׁתֶּה אַל תִּשְׁתֶּה. שֶׁהִתְרוּ בּוֹ בֵּין שְׁתִיָּה לִשְׁתִיָּה

Bartenura resume o mecanismo com precisão: no primeiro caso da mishná, o nazireu não recebeu nenhuma advertência antes de sua sequência de atos, daí a culpa única; no segundo, a advertência foi renovada antes de cada nova bebida, corte ou contato com impureza, tornando cada ato uma transgressão à parte.