Seder Nashim · Massechet Nazir · Perek Vav · Mishná 3 de 11

A proibição de corte de cabelo: da tosquia total ao simples ato de esfregar

סְתָם נְזִירוּת שְׁלשִׁים יוֹם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná fixa a duração padrão de um voto de nazireado sem prazo especificado, e estabelece que, se o cabelo do nazireu for cortado — mesmo à força, por bandidos —, o período se anula e ele deve recomeçar a contagem de trinta dias, com qualquer corte de cabelo, por menor que seja, constituindo transgressão.

Um nazireado sem prazo especificado dura trinta dias. Se cortou o cabelo, ou se bandidos o cortaram, anula-se trinta dias. O nazireu que cortou o cabelo, seja com tesoura seja com navalha, ou que arrancou o quanto for, fica obrigado.Quando alguém faz um voto de nazireado sem mencionar sua duração, a lei fixa o período em trinta dias. Se, durante o nazireado, seu cabelo é cortado — mesmo contra sua vontade, por bandidos que o forçam —, isso anula a contagem, e ele precisa aguardar trinta novos dias de crescimento de cabelo antes de poder completar seu nazireado com a tosquia da pureza. Quanto à transgressão propriamente dita, o nazireu que corta o próprio cabelo — com qualquer instrumento, tesoura ou navalha — ou que arranca até mesmo um único fio, já incorre em culpa.

סְתָם נְזִירוּת שְׁלשִׁים יוֹם. גִּלַּח אוֹ שֶׁגִּלְּחוּהוּ לִסְטִים, סוֹתֵר שְׁלשִׁים יוֹם. נָזִיר שֶׁגִּלַּח בֵּין בְּזוּג בֵּין בְּתַעַר אוֹ שֶׁסִּפְסֵף כָּל שֶׁהוּא, חַיָּב.
A mishná esclarece que a proibição de corte de cabelo não impede o nazireu de cuidar da higiene do couro cabeludo, desde que não haja intenção de remover fios — permitindo esfregar e separar o cabelo com as mãos, mas não penteá-lo com pente, e alertando contra o uso de determinados tipos de barro que soltam o cabelo.

O nazireu pode esfregar e separar o cabelo com a mão, mas não pentear. Rabi Ishmael diz: não deve lavar com barro, porque este solta o cabelo.Embora não possa cortar ou arrancar fios, o nazireu tem permissão para cuidar da limpeza de seu couro cabeludo: pode esfregá-lo e separar mechas com as próprias mãos, já que esse ato não visa remover cabelo, mesmo que ocasionalmente algum fio solto caia. O que lhe é vedado é usar um pente, instrumento cuja ação inevitavelmente arranca fios presos, tornando-se um ato de remoção intencional. Rabi Ishmael acrescenta um alerta específico: certos tipos de barro usados para lavar o cabelo têm o efeito de soltá-lo de forma tão certeira quanto um pente, e por isso devem ser evitados.

נָזִיר חוֹפֵף וּמְפַסְפֵּס, אֲבָל לֹא סוֹרֵק. רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר, לֹא יָחוֹף בַּאֲדָמָה, מִפְּנֵי שֶׁמַּשֶּׁרֶת אֶת הַשֵּׂעָר:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A proibição central de corte de cabelo remonta ao mandamento de deixar crescer livremente o cabelo durante todo o nazireado.

Bemidbar (Números) 6:5
כָּל יְמֵי נֶדֶר נִזְרוֹ תַּעַר לֹא יַעֲבֹר עַל רֹאשׁוֹ... גַּדֵּל פֶּרַע שְׂעַר רֹאשׁוֹ
Todos os dias do voto do seu nazireado, navalha não passará sobre a sua cabeça... deixará crescer livremente o cabelo de sua cabeça.

É desse duplo mandamento — a proibição de que a navalha passe pela cabeça, e o preceito positivo de deixar o cabelo crescer livremente — que a tradição deriva tanto a proibição de qualquer corte, por instrumento que seja, quanto a exigência de trinta dias de crescimento renovado sempre que o cabelo é cortado, já que a expressão "פֶּרַע" — cabelo crescido livremente — é entendida, por tradição recebida, como o crescimento mínimo de trinta dias.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica o mecanismo da anulação de trinta dias e os limites entre ação intencional e não intencional na remoção de cabelo.

Rambam · Perush HaMishná, Nazir 6:3
ואמרו פספס כל שהוא חייב ר"ל שיעקרנו ביד ופירוש חופף החכוך ביד ומפספס החכוך בצפרנים או בכלי ובתנאי שלא יתכוין להשיר השער לפי שזאת ההלכה אמנם היא לר"ש שאומר דבר שאינו מתכוין מותר... ופירוש סורק מסרק שער ראשו במסרק... והלכה כר' ישמעאל

Rambam esclarece que "esfregar" é o ato de coçar com a mão, e "separar" é fazê-lo com as unhas ou com um instrumento — ambos permitidos apenas na condição de que não haja intenção de remover cabelo, seguindo o princípio de que um ato sem intenção de transgredir, mesmo que produza um resultado proibido como efeito colateral, é permitido. Já pentear com um pente é vedado, pois esse instrumento inevitavelmente arranca fios presos, o que equivale a uma ação intencional. E a halachá segue Rabi Ishmael quanto ao barro que solta o cabelo.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi, Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Nazir 39a, s.v. מתני' גילח או שגילחוהו ליסטין
מַתְנִיתִין גִּלַּח אוֹ שֶׁגִּלְּחוּהוּ לִסְטִין - מַשְׁמַע בֵּין בְּאֹנֶס בֵּין בְּרָצוֹן בְּתוֹךְ יְמֵי נְזִירוּתוֹ בֵּין בִּנְזִירוּת מְרֻבָּה בֵּין בִּנְזִירוּת מוּעֶטֶת: סוֹתֵר ל׳ יוֹם - לְפִי שֶׁאֵין גִּדּוּל שֵׂעָר בְּפָחוֹת מִל׳ יוֹם: אוֹ שֶׁסִּפְסֵף כָּל שֶׁהוּא - שֶׁתָּלַשׁ קְצָת בָּרֹאשׁ הַשֵּׂעָר

Rashi observa que a mishná se aplica tanto a corte voluntário quanto forçado, e a qualquer momento do nazireado, seja este longo ou curto. Explica ainda que a razão da anulação de trinta dias, e não de qualquer outro período, é que o crescimento mínimo de cabelo reconhecido pela tradição nunca é inferior a trinta dias. E define "סִפְסֵף" como arrancar uma pequena porção de cabelo do couro cabeludo.

Rashi · רש״י
Nazir 42a, s.v. מתני' נזיר חופף ומפספס
מַתְנִיתִין נָזִיר חוֹפֵף וּמְפַסְפֵּס - חוֹפֵף כְּמוֹ חוֹפֵף עָלָיו כָּל הַיּוֹם, לְשׁוֹן מְגָרֵד. מְפַסְפֵּס - שֶׁמַּפְרִיד שְׂעָרוֹתָיו זוֹ מִזּוֹ אֲבָל לֹא בְמַסְרֵק

Rashi traz a fonte bíblica da palavra חוֹפֵף — do versículo sobre a bênção de Binyamin, onde o termo significa esfregar ou coçar —, e explica que "separar" é o ato de afastar mechas de cabelo umas das outras com os dedos, sem recorrer a um pente.

Bartenura · רע״ב
Nazir 6:3
סְתָם נְזִירוּת שְׁלֹשִׁים יוֹם. אַף עַל גַּב דְּתָנֵי לָהּ לְעֵיל, מִשּׁוּם דְּבָעֵי לְמִתְנֵי סֵיפָא גִּלַּח אוֹ שֶׁגִּלְּחוּהוּ לִסְטִים סוֹתֵר שְׁלֹשִׁים יוֹם, הָדַר תָּנָא לֵיהּ הָכָא... אֲבָל לֹא סוֹרֵק. בְּמַסְרֵק, דַּהֲוֵי פְּסִיק רֵישֵׁיהּ וְאָסוּר

Bartenura explica por que a mishná repete a regra da duração padrão de trinta dias, já mencionada implicitamente antes: fá-lo para poder encadear a regra seguinte, sobre a anulação por corte de cabelo. E quanto à proibição de pentear, explica que o pente é proibido porque seu uso resulta inevitavelmente na remoção de fios — o que a linguagem talmúdica chama de "פְּסִיק רֵישֵׁיהּ", uma consequência certa e inevitável de um ato, que é tratada como intencional mesmo sem essa intenção declarada.