Três tipos são proibidos ao nazireu: a impureza, o corte de cabelo, e o que sai da videira. Há rigor na impureza e no corte de cabelo em relação ao que sai da videira, pois a impureza e o corte de cabelo anulam o nazireado, e o que sai da videira não anula. E há rigor no que sai da videira em relação à impureza e ao corte de cabelo, pois o que sai da videira nunca foi permitido em nenhuma de suas modalidades, enquanto a impureza e o corte de cabelo foram permitidos em suas modalidades no corte de cabelo por preceito e na impureza por morto sem quem o enterre. — A mishná retoma a lista das três proibições para compará-las entre si em dois eixos. No primeiro, impureza e corte de cabelo são mais graves que o produto da videira, porque ambos anulam a contagem dos dias já cumpridos de nazireado, exigindo recomeço, enquanto consumir produto da videira não tem esse efeito anulador — apenas constitui transgressão pontual. No segundo eixo, porém, o produto da videira é mais rigoroso: nunca existe circunstância em que seu consumo seja permitido ao nazireu, enquanto tanto a impureza quanto o corte de cabelo têm exceções legítimas em que a própria Torá os permite — o corte de cabelo, no caso do nazireu que contrai lepra e precisa se tosquiar por preceito específico, e a impureza, no caso de um morto sem ninguém para enterrá-lo, que todo israelita, incluindo o nazireu, é obrigado a sepultar.
E há rigor na impureza em relação ao corte de cabelo, pois a impureza anula tudo e exige sacrifício por ela, e o corte de cabelo não anula senão trinta dias e não exige sacrifício por ele. — Encerrando a comparação, a mishná isola a impureza como a mais severa das três proibições: enquanto o corte de cabelo anula apenas um bloco fixo de trinta dias — o mínimo necessário para o cabelo voltar a crescer —, a impureza por contato com um morto anula toda e qualquer quantidade de dias já cumpridos, por maior que fosse o nazireado, obrigando a um recomeço completo. E, diferentemente do corte de cabelo, que não acarreta obrigação sacrificial alguma, a impureza exige que o nazireu traga um sacrifício expiatório específico ao retomar seu voto.
Cada um dos três eixos comparativos da mishná se apoia em versículos distintos: a anulação por impureza, a permissão excepcional de corte de cabelo por lepra, e a obrigação de sepultar um morto abandonado.
É o próprio versículo sobre a impureza que determina explicitamente que os dias anteriores "caem" — são anulados por completo —, ao passo que a Torá não emprega essa mesma linguagem de anulação para o corte de cabelo, cuja pena se limita à obrigação de aguardar novo crescimento de trinta dias, base textual que a mishná explora para hierarquizar as três proibições entre si.
Rambam explica o princípio geral por trás da permissão excepcional de corte de cabelo e de impureza em certos casos.
Rambam explica o princípio jurídico geral por trás das exceções mencionadas na mishná: sempre que um preceito positivo e um preceito negativo entram em conflito real, e não é possível cumprir ambos, o preceito positivo prevalece e afasta o negativo. É esse o mecanismo por trás das duas exceções: o preceito positivo de tosquiar-se ao curar-se da lepra afasta a proibição de corte de cabelo do nazireu, e a obrigação de sepultar um morto sem ninguém que cuide dele afasta a proibição de impureza — e é a isso que a mishná se refere quando diz que ambas foram “permitidas em suas modalidades”.
Perush de Rashi, Rambam e Bartenura.
Rambam traz a fonte da leniência do produto da videira: a Torá diz "de vinho e bebida forte se abstenha", expressão da qual os sábios derivam que até mesmo vinho de preceito — como o das quatro taças de Pêssach — é proibido ao nazireu, sem exceção alguma. Já quanto à impureza, o texto bíblico específica "a seu pai e a sua mãe não se impurificará", formulação da qual a tradição recebida deriva que a proibição vale apenas para parentes próximos, mas não para um morto sem quem o enterre — o mét mitzvá.
Bartenura conecta cada regra ao seu fundamento textual: a anulação por impureza deriva do versículo que fala explicitamente em dias que "caem"; a anulação por corte de cabelo, por sua vez, é uma consequência indireta do requisito de "פֶּרַע" — cabelo crescido —, cuja duração mínima reconhecida pela tradição nunca é inferior a trinta dias. Quanto ao produto da videira, explica que sua leniência total decorre do versículo sobre "vinho e bebida forte", entendido pelos sábios como abrangendo até mesmo o vinho de preceito.