Seder Nashim · Massechet Nazir · Perek Vav · Mishná 5 de 11

Comparando as três proibições: rigor e leniência entre elas

חֹמֶר בַּטֻּמְאָה וּבַתִּגְלַחַת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Retomando a enumeração das três proibições centrais do nazireado, a mishná abre uma análise comparativa sistemática entre elas, identificando em que aspectos a impureza e o corte de cabelo são mais rigorosos que o produto da videira, e em que aspecto ocorre o inverso.

Três tipos são proibidos ao nazireu: a impureza, o corte de cabelo, e o que sai da videira. Há rigor na impureza e no corte de cabelo em relação ao que sai da videira, pois a impureza e o corte de cabelo anulam o nazireado, e o que sai da videira não anula. E há rigor no que sai da videira em relação à impureza e ao corte de cabelo, pois o que sai da videira nunca foi permitido em nenhuma de suas modalidades, enquanto a impureza e o corte de cabelo foram permitidos em suas modalidades no corte de cabelo por preceito e na impureza por morto sem quem o enterre.A mishná retoma a lista das três proibições para compará-las entre si em dois eixos. No primeiro, impureza e corte de cabelo são mais graves que o produto da videira, porque ambos anulam a contagem dos dias já cumpridos de nazireado, exigindo recomeço, enquanto consumir produto da videira não tem esse efeito anulador — apenas constitui transgressão pontual. No segundo eixo, porém, o produto da videira é mais rigoroso: nunca existe circunstância em que seu consumo seja permitido ao nazireu, enquanto tanto a impureza quanto o corte de cabelo têm exceções legítimas em que a própria Torá os permite — o corte de cabelo, no caso do nazireu que contrai lepra e precisa se tosquiar por preceito específico, e a impureza, no caso de um morto sem ninguém para enterrá-lo, que todo israelita, incluindo o nazireu, é obrigado a sepultar.

שְׁלשָׁה מִינִין אֲסוּרִין בַּנָּזִיר, הַטֻּמְאָה וְהַתִּגְלַחַת וְהַיּוֹצֵא מִן הַגָּפֶן. חֹמֶר בַּטֻּמְאָה וּבַתִּגְלַחַת מִבַּיּוֹצֵא מִן הַגֶּפֶן, שֶׁהַטֻּמְאָה וְהַתִּגְלַחַת סוֹתְרִין, וְהַיּוֹצֵא מִן הַגֶּפֶן אֵינוֹ סוֹתֵר. חֹמֶר בַּיּוֹצֵא מִן הַגֶּפֶן מִבַּטֻּמְאָה וּבַתִּגְלַחַת, שֶׁהַיּוֹצֵא מִן הַגֶּפֶן לֹא הֻתַּר מִכְּלָלוֹ, וְטֻמְאָה וְתִגְלַחַת הֻתְּרוּ מִכְּלָלָן בְּתִגְלַחַת מִצְוָה וּבְמֵת מִצְוָה.
A mishná conclui a comparação com um terceiro eixo, isolando um aspecto em que a impureza supera até mesmo o corte de cabelo em rigor: sua capacidade de anular a totalidade dos dias já cumpridos, e sua exigência de um sacrifício expiatório, ausente na transgressão de cortar o cabelo.

E há rigor na impureza em relação ao corte de cabelo, pois a impureza anula tudo e exige sacrifício por ela, e o corte de cabelo não anula senão trinta dias e não exige sacrifício por ele.Encerrando a comparação, a mishná isola a impureza como a mais severa das três proibições: enquanto o corte de cabelo anula apenas um bloco fixo de trinta dias — o mínimo necessário para o cabelo voltar a crescer —, a impureza por contato com um morto anula toda e qualquer quantidade de dias já cumpridos, por maior que fosse o nazireado, obrigando a um recomeço completo. E, diferentemente do corte de cabelo, que não acarreta obrigação sacrificial alguma, a impureza exige que o nazireu traga um sacrifício expiatório específico ao retomar seu voto.

וְחֹמֶר בַּטֻּמְאָה מִבַּתִּגְלַחַת, שֶׁהַטֻּמְאָה סוֹתֶרֶת אֶת הַכֹּל וְחַיָּבִין עָלֶיהָ קָרְבָּן, וְתִגְלַחַת אֵינָהּ סוֹתֶרֶת אֶלָּא שְׁלשִׁים יוֹם וְאֵין חַיָּבִין עָלֶיהָ קָרְבָּן:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Cada um dos três eixos comparativos da mishná se apoia em versículos distintos: a anulação por impureza, a permissão excepcional de corte de cabelo por lepra, e a obrigação de sepultar um morto abandonado.

Bemidbar (Números) 6:12
וְהַיָּמִים הָרִאשֹׁנִים יִפְּלוּ כִּי טָמֵא נִזְרוֹ
E os dias anteriores cairão, pois seu nazireado se contaminou.

É o próprio versículo sobre a impureza que determina explicitamente que os dias anteriores "caem" — são anulados por completo —, ao passo que a Torá não emprega essa mesma linguagem de anulação para o corte de cabelo, cuja pena se limita à obrigação de aguardar novo crescimento de trinta dias, base textual que a mishná explora para hierarquizar as três proibições entre si.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica o princípio geral por trás da permissão excepcional de corte de cabelo e de impureza em certos casos.

Rambam · Perush HaMishná, Nazir 6:5
והעיקר בכל התורה מה שאמרו כל מקום שאתה מוצא עשה ולא תעשה אם אתה יכול לקיים את שניהם מוטב ואם לאו יבא עשה וידחה את לא תעשה וזהו ענין הותר מכללו ר"ל שיש שם צד שמותר בהם אלו הדברים האסורים ויהיה מותר בהם

Rambam explica o princípio jurídico geral por trás das exceções mencionadas na mishná: sempre que um preceito positivo e um preceito negativo entram em conflito real, e não é possível cumprir ambos, o preceito positivo prevalece e afasta o negativo. É esse o mecanismo por trás das duas exceções: o preceito positivo de tosquiar-se ao curar-se da lepra afasta a proibição de corte de cabelo do nazireu, e a obrigação de sepultar um morto sem ninguém que cuide dele afasta a proibição de impureza — e é a isso que a mishná se refere quando diz que ambas foram “permitidas em suas modalidades”.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi, Rambam e Bartenura.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nazir 6:5
כתוב בתורה מיין ושכר יזיר ואמרו בספרי לעשות יין מצוה כיין הרשות אבל בטומאה לא אמר לא יטמא בלבד אבל אמר לאביו ולאמו לא יטמא ובא בקבלה לאביו לא יטמא אבל מטמא הוא למת מצוה

Rambam traz a fonte da leniência do produto da videira: a Torá diz "de vinho e bebida forte se abstenha", expressão da qual os sábios derivam que até mesmo vinho de preceito — como o das quatro taças de Pêssach — é proibido ao nazireu, sem exceção alguma. Já quanto à impureza, o texto bíblico específica "a seu pai e a sua mãe não se impurificará", formulação da qual a tradição recebida deriva que a proibição vale apenas para parentes próximos, mas não para um morto sem quem o enterre — o mét mitzvá.

Bartenura · רע״ב
Nazir 6:5
שֶׁהַטֻּמְאָה וְהַתִּגְלַחַת סוֹתְרִים. דִּכְתִיב בַּטֻּמְאָה וְהַיָּמִים הָרִאשׁוֹנִים יִפְּלוּ. וְתִגְלַחַת סוֹתֶרֶת שְׁלֹשִׁים, דְּבָעִינַן גַּדֵּל פֶּרַע שְׂעַר רֹאשׁוֹ, וְאֵין גִּדּוּל פֶּרַע פָּחוֹת מִשְּׁלֹשִׁים יוֹם

Bartenura conecta cada regra ao seu fundamento textual: a anulação por impureza deriva do versículo que fala explicitamente em dias que "caem"; a anulação por corte de cabelo, por sua vez, é uma consequência indireta do requisito de "פֶּרַע" — cabelo crescido —, cuja duração mínima reconhecida pela tradição nunca é inferior a trinta dias. Quanto ao produto da videira, explica que sua leniência total decorre do versículo sobre "vinho e bebida forte", entendido pelos sábios como abrangendo até mesmo o vinho de preceito.