Seder Nashim · Massechet Nazir · Perek Hei · Mishná 2 de 7

Mais dois casos de consagração por engano: o dinar e o barril

דִּינַר זָהָב וְחָבִית שֶׁל יַיִן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná continua a série de exemplos da disputa sobre consagração por engano, agora com um objeto de consagração de valor monetário — um dinar de ouro — e não mais um animal específico.

"Um dinar de ouro que subir primeiro em minha mão, eis que é consagrado" — e subiu um de prata — Beit Shammai dizem: é consagrado; e Beit Hilel dizem: não é consagrado.Um homem, tendo tanto moedas de ouro quanto de prata à sua disposição, declara consagrado o primeiro dinar de ouro que lhe cair nas mãos. Contra sua expectativa, o primeiro a lhe cair nas mãos é um dinar de prata. Novamente, Beit Shammai consideram essa moeda de prata consagrada, e Beit Hilel não.

דִּינַר זָהָב שֶׁיַּעֲלֶה בְיָדִי רִאשׁוֹן הֲרֵי הוּא הֶקְדֵּשׁ, וְעָלָה שֶׁל כֶּסֶף, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים הֶקְדֵּשׁ, וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים אֵינוֹ הֶקְדֵּשׁ.
A mishná acrescenta um terceiro exemplo, agora com um líquido consagrado por seu recipiente, encerrando a série de casos paralelos que ilustram a mesma disputa.

"Um barril de vinho que subir primeiro em minha mão, eis que é consagrado" — e subiu um de azeite — Beit Shammai dizem: é consagrado; e Beit Hilel dizem: não é consagrado.O mesmo padrão se repete com um barril: o homem pretendia consagrar o primeiro barril de vinho que lhe chegasse às mãos, mas o primeiro a chegar foi um barril de azeite. A disputa entre as duas escolas permanece idêntica em todos os três casos apresentados neste e no mishná anterior.

חָבִית שֶׁל יַיִן שֶׁתַּעֲלֶה בְיָדִי רִאשׁוֹנָה הֲרֵי הִיא הֶקְדֵּשׁ, וְעָלְתָה שֶׁל שֶׁמֶן, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים הֶקְדֵּשׁ, וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים אֵינוֹ הֶקְדֵּשׁ.

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Como no caso do boi da mishná anterior, esta disputa também se apoia na comparação com o versículo da permuta (temurá) — mas agora aplicada a objetos de consagração de valor monetário (kedushat damim), e não de consagração do próprio corpo do animal (kedushat haguf).

Vaicrá (Levítico) 27:10
לֹא יַחֲלִיפֶנּוּ וְלֹא יָמִיר אֹתוֹ טוֹב בְּרָע אוֹ רַע בְּטוֹב, וְאִם הָמֵר יָמִיר בְּהֵמָה בִּבְהֵמָה וְהָיָה הוּא וּתְמוּרָתוֹ יִהְיֶה קֹדֶשׁ
Não o trocará nem o permutará, bom por mau ou mau por bom; e se de fato permutar animal por animal, tanto ele quanto sua permuta serão consagrados.

O dinar de ouro e o barril de vinho desta mishná têm, segundo Rambam, a mesma fonte e a mesma lógica da mishná anterior — a comparação com a permuta —, mas ilustram uma categoria distinta de consagração: enquanto o boi consagrado tinha "consagração do próprio corpo" (kedushat haguf), destinado ele mesmo ao altar, o dinar e o barril têm apenas "consagração de valor" (kedushat damim), destinados a ser vendidos ou usados em prol do Templo. A mishná ensina que a mesma disputa entre Beit Shammai e Beit Hilel sobre consagração por engano se estende igualmente a essa segunda categoria, sem distinção entre os dois tipos de consagração.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam nota o propósito didático da mishná em trazer casos de ambas as categorias de consagração.

Rambam · Perush HaMishná, Nazir 5:2
כבר בארנו שזה המאמר ואפילו במקום שהיין שם ביוקר יותר מן השמן שיהיו דמי מה שעלה בידו פחותים מדמי הדבר שנדר אינו הקדש לדעת בית הלל לפי שהוא טעות, והביא דמיון משור שהוא קדושת הגוף ומן הדינר והחבית שהם קדושת דמים

Rambam esclarece que, para Beit Hilel, mesmo se o vinho valesse mais do que o azeite — de modo que o barril que efetivamente chegou às mãos do homem tivesse valor superior ao que ele pretendia consagrar — ainda assim não haveria consagração, pois o critério não é o valor, mas a identidade exata do objeto pretendido: houve engano, e o engano invalida a consagração. E explica que a mishná trouxe tanto o exemplo do boi, que é consagração do próprio corpo, quanto os exemplos do dinar e do barril, que são consagração de valor, para mostrar que a disputa se aplica igualmente a ambas as categorias.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi, Rambam e Bartenura sobre os dois novos exemplos da mishná.

Rashi · רש״י
Nazir 31b, s.v. תני שעלה
תני שעלה - ואח"כ נזכר לדבר שהיה של כסף או חבית של שמן

Rashi observa, sobre uma variante textual da baraita paralela, que o homem primeiro percebeu que a moeda ou o barril que lhe chegara às mãos não era o que pretendia consagrar, e só depois se recordou exatamente do que havia dito — detalhe que a Guemará usa para discutir se a ordem dos acontecimentos afeta a validade da consagração.

Rashi · רש״י
Nazir 31b, s.v. תנן שור שחור שיצא מביתי ראשון
תנן שור שחור שיצא מביתי ראשון - ה"ג: כי מקדיש בעין רעה מקדיש, וקאמרי ב"ש דלבן הוי הקדש, ש"מ דלבן הוה גרוע טפי

Rashi relata a discussão da Guemará sobre se uma pessoa, ao consagrar algo de modo condicional como nesta mishná, tende a consagrar o objeto de menor valor ("com olhar mesquinho") ou o de maior valor ("com olhar generoso") — questão que a Guemará tenta resolver comparando os valores relativos de bois pretos e brancos, dinares de ouro e prata, e barris de vinho e azeite, sem chegar a uma conclusão decisiva, de modo que a mishná é entendida como aplicável independentemente de qual objeto valha mais.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nazir 5:2
כבר בארנו שזה המאמר ואפילו במקום שהיין שם ביוקר יותר מן השמן שיהיו דמי מה שעלה בידו פחותים מדמי הדבר שנדר אינו הקדש לדעת בית הלל לפי שהוא טעות, והביא דמיון משור שהוא קדושת הגוף ומן הדינר והחבית שהם קדושת דמים

Rambam reafirma que o critério da disputa não é o valor relativo dos objetos, mas a exatidão entre o que foi pretendido e o que efetivamente ocorreu, e explica que a mishná trouxe deliberadamente um exemplo de cada categoria de consagração — do corpo do animal e do valor monetário — para abranger todos os casos possíveis.

Bartenura · רע"ב
Nazir 5:2
דִּינַר זָהָב. רֵישָׁא אַשְׁמוֹעִינַן בְּמִידֵי דְּקָדוֹשׁ קְדֻשַּׁת הַגּוּף, וְהָכָא אַשְׁמוֹעִינַן בְּמִידֵי דְּקָדוֹשׁ קְדֻשַּׁת דָּמִים

Bartenura resume em poucas palavras o propósito didático da sequência: a primeira mishná, com o exemplo do boi, ensina o caso de algo com consagração do próprio corpo, enquanto esta mishná, com o dinar e o barril, ensina o caso de algo com consagração de valor — mostrando que a disputa entre Beit Shammai e Beit Hilel abrange as duas categorias por igual.