Beit Shammai dizem: consagração por engano é consagração válida. E Beit Hilel dizem: não é consagração. — Quando alguém pretende consagrar um objeto específico, mas por engano acaba designando, com suas próprias palavras, um objeto diferente daquele que tinha em mente, discutem os sábios se essa consagração vale para o objeto que efetivamente foi designado pelas palavras, ainda que não fosse o pretendido, ou se, por ter havido engano, a consagração simplesmente não se realiza.
Como assim? Disse: "o boi preto que sair primeiro de minha casa, eis que é consagrado" — e saiu um branco — Beit Shammai dizem: é consagrado; e Beit Hilel dizem: não é consagrado. — Um homem, tendo vários bois em casa, entre pretos e brancos, declara que consagra o boi preto que sair primeiro pela porta. Contra sua expectativa, o primeiro a sair é um boi branco. Beit Shammai sustentam que esse boi branco se torna consagrado, pois a intenção geral do homem era consagrar o que quer que saísse primeiro; Beit Hilel sustentam que, tendo ele especificado "preto", e tendo saído um "branco", não houve consagração alguma, por se tratar de um engano nas próprias palavras do voto.
A disputa sobre consagração por engano não deriva de um versículo que trate diretamente do tema, mas de uma comparação — aceita por Beit Shammai e rejeitada por Beit Hilel — com o versículo da permuta (temurá), que expressamente inclui o engano.
Beit Shammai aprendem a validade da consagração por engano a partir deste versículo sobre a permuta (temurá): a Torá declara consagrado tanto o animal originalmente separado para sacrifício quanto o animal pelo qual alguém, propositalmente, tenta permutá-lo — e a tradição oral estende essa consagração mesmo a quem se enganou no processo, dizendo "isto no lugar daquilo" pensando tratar-se de outra oferenda. Se mesmo a permuta, que é apenas a etapa final de uma consagração já existente, vale mesmo em caso de engano, tanto mais deveria valer, argumentam Beit Shammai, a consagração original em si mesma, ainda que feita por engano. Beit Hilel, por sua vez, rejeitam essa comparação: a permuta parte de algo que já era consagrado, ao passo que a consagração original — o início do processo — nasce do nada, e por isso não se pode aprender uma da outra.
Rambam resume os fundamentos de cada posição, abrindo o Perek Hei.
Rambam explica que Beit Shammai aprendem a partir da permuta (temurá) que, assim como o animal se torna consagrado por permuta mesmo em caso de engano, também a consagração original deveria valer em caso de engano. Beit Hilel, por sua vez, distinguem: a permuta já parte de algo consagrado, enquanto a consagração original, aqui, ainda não tem nada de consagração — e por isso o engano a impede.
Perush de Rashi, Rambam e Bartenura, abrindo o Perek Hei.
Rashi observa que, para Beit Hilel, como as palavras do homem — "o boi preto que sair primeiro" — não se confirmaram na realidade, sua consagração simplesmente não vale. E aponta uma leitura alternativa: segundo essa leitura, Beit Shammai não consideram consagrado o boi branco que efetivamente saiu primeiro, mas sim o próximo boi preto que sair da casa, interpretando as palavras do homem como referidas ao primeiro boi preto, seja qual for sua posição na fila de saída — o mesmo raciocínio se aplicaria ao dinar de ouro e ao barril de vinho da mishná seguinte.
Rambam esclarece a lógica de cada escola: Beit Shammai comparam a consagração original com a permuta, que é válida mesmo em engano; Beit Hilel recusam a comparação, pois a permuta parte de um objeto já consagrado — "chegou a nós já consagrado" —, ao passo que a consagração original ainda não tem, no momento do engano, nenhuma consagração prévia sobre a qual se apoiar.
Bartenura resume a mesma disputa em termos simples: Beit Shammai aprendem da permuta, que é válida mesmo por engano, conforme o versículo "e se de fato permutar... será consagrado", que inclui expressamente o caso de engano; Beit Hilel recusam a comparação, porque não se pode aprender o início de uma consagração — que não vem por força de nenhuma consagração anterior — a partir da permuta, que é o final de uma consagração, vindo por força de algo que já era consagrado antes dela.