Seder Nashim · Massechet Nazir · Perek Hei · Mishná 3 de 7

O nazireu que consultou um sábio, e o debate sobre o dízimo do gado

מִי שֶׁנָּדַר בְּנָזִיר וְנִשְׁאַל לְחָכָם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná volta agora ao tema central do tratado — o nazireado — e trata do caso de quem duvida da validade de seu próprio voto e consulta um sábio a respeito.

Quem fez voto de nazireado e consultou um sábio, que confirmou o voto — conta a partir do momento em que fez o voto.Se alguém tem dúvida se suas palavras efetivamente constituíram um voto válido de nazireado, e um sábio, ao ser consultado, confirma que sim, o voto é válido desde o início — e a contagem dos trinta dias do nazireado começa a partir do momento original do voto, e não a partir da consulta ao sábio, ainda que a pessoa não tenha se comportado como nazireu durante o intervalo.

מִי שֶׁנָּדַר בְּנָזִיר וְנִשְׁאַל לְחָכָם וַאֲסָרוֹ, מוֹנֶה מִשָּׁעָה שֶׁנָּדַר.
A mishná apresenta o caso oposto: quando o sábio anula o voto por não o considerar válido.

Consultou um sábio, que anulou o voto — se tinha um animal separado para seus sacrifícios, este sai e pasta no rebanho.Se, ao contrário, o sábio determina que as palavras da pessoa não constituíram voto algum de nazireado, então qualquer animal que ela já tivesse separado, com a intenção de oferecê-lo como sacrifício ao final do nazireado, perde toda consagração e retorna à condição de animal comum, podendo pastar livremente junto com o resto do rebanho.

נִשְׁאַל לְחָכָם וְהִתִּירוֹ, הָיְתָה לוֹ בְהֵמָה מֻפְרֶשֶׁת, תֵּצֵא וְתִרְעֶה בָעֵדֶר.
A mishná então relata o debate entre Beit Hilel e Beit Shammai que se desenrola a partir desse segundo caso, retomando a disputa sobre consagração por engano das mishnayot anteriores.

Disseram Beit Hilel a Beit Shammai: não reconhecem vocês que este é um caso de consagração por engano, de modo que o animal sai e pasta no rebanho? Disseram-lhes Beit Shammai: não reconhecem vocês que quem se enganou e chamou ao nono "décimo", e ao décimo "nono", e ao décimo primeiro "décimo", que este é consagrado?Beit Hilel argumentam que, se mesmo Beit Shammai concordam que o animal separado por um voto de nazireado inválido sai para pastar livremente — reconhecendo, assim, que uma consagração baseada em engano não vale —, então eles deveriam admitir a mesma lógica no caso do boi, do dinar e do barril das mishnayot anteriores. Beit Shammai respondem com um contra-argumento: no processo de separar o dízimo do gado, quando o dono passa os animais um a um sob uma vara e, por engano, chama o nono animal de "décimo", o décimo de "nono", e o décimo primeiro de "décimo", a halachá reconhece como consagrados justamente os três animais nomeados por engano — provando que a consagração por engano pode, sim, valer.

אָמְרוּ בֵית הִלֵּל לְבֵית שַׁמַּאי, אִי אַתֶּם מוֹדִים בָּזֶה שֶׁהוּא הֶקְדֵּשׁ טָעוּת שֶׁתֵּצֵא וְתִרְעֶה בָעֵדֶר. אָמְרוּ לָהֶן בֵּית שַׁמַּאי, אִי אַתֶּם מוֹדִים בְּמִי שֶׁטָּעָה וְקָרָא לַתְּשִׁיעִי עֲשִׂירִי וְלָעֲשִׂירִי תְשִׁיעִי וְלָאַחַד עָשָׂר עֲשִׂירִי שֶׁהוּא מְקֻדָּשׁ.
A mishná conclui com a réplica de Beit Hilel, que distingue a natureza do dízimo do gado — regido por uma decisão bíblica particular — da consagração comum discutida nas mishnayot anteriores.

Disseram-lhes Beit Hilel: não foi a vara que o consagrou! E se ele tivesse se enganado e pousado a vara sobre o oitavo e sobre o décimo segundo, teria feito algo? Mas é o texto que consagrou o décimo — ele mesmo consagrou o nono e o décimo primeiro.Beit Hilel rejeitam a comparação: a consagração do nono e do décimo primeiro, quando chamados por engano de "décimo", não decorre do ato de colocar a vara sobre eles, pois se o dono tivesse se enganado ainda mais e pousado a vara sobre o oitavo ou o décimo segundo animais, chamando-os de "décimo", isso não os teria consagrado — a distância é grande demais. O que realmente consagra o nono e o décimo primeiro é uma decisão explícita do próprio versículo bíblico, que consagra o décimo animal e, por extensão textual, os dois animais adjacentes a ele quando há engano na contagem — um caso especial e limitado, que nada prova sobre a validade geral da consagração por engano nos demais casos.

אָמְרוּ לָהֶם בֵּית הִלֵּל, לֹא הַשֵּׁבֶט קִדְּשׁוֹ. וּמָה אִלּוּ טָעָה וְהִנִּיחַ אֶת הַשֵּׁבֶט עַל שְׁמִינִי וְעַל שְׁנֵים עָשָׂר, שֶׁמָּא עָשָׂה כְלוּם. אֶלָּא כָּתוּב שֶׁקִּדֵּשׁ אֶת הָעֲשִׂירִי, הוּא קִדֵּשׁ אֶת הַתְּשִׁיעִי וְאֶת אַחַד עָשָׂר:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

O argumento final de Beit Shammai, e a réplica de Beit Hilel, giram em torno do versículo que institui o dízimo do gado, contado sob a vara do pastor.

Vaicrá (Levítico) 27:32-33
וְכָל מַעְשַׂר בָּקָר וָצֹאן כֹּל אֲשֶׁר יַעֲבֹר תַּחַת הַשֵּׁבֶט, הָעֲשִׂירִי יִהְיֶה קֹדֶשׁ לַה'. לֹא יְבַקֵּר בֵּין טוֹב לָרַע וְלֹא יְמִירֶנּוּ, וְאִם הָמֵר יְמִירֶנּוּ וְהָיָה הוּא וּתְמוּרָתוֹ יִהְיֶה קֹדֶשׁ לֹא יִגָּאֵל
E todo dízimo de gado ou rebanho, tudo o que passar sob a vara, o décimo será consagrado ao Eterno. Não examinará entre o bom e o mau, nem o trocará; e se de fato o trocar, tanto ele quanto sua troca serão consagrados, não será resgatado.

A halachá recebida por tradição, apoiada em uma leitura amplificada deste versículo, ensina que quando o dono, ao contar seus animais sob a vara, se engana e chama o nono animal de "décimo" — ou o décimo de "nono", ou o décimo primeiro de "décimo" —, todos os três se tornam consagrados como dízimo, e não apenas o efetivamente décimo na contagem correta. Rambam explica, no Perush HaMishná, que essa consagração do nono e do décimo primeiro não depende da intenção do dono, mas exclusivamente da contagem verbal — mesmo que ele soubesse tratar-se do nono, e ainda assim o chamasse "décimo" por brincadeira ou distração, a consagração se aplicaria, pois "o texto é quem consagra", e não a intenção do dono, ao contrário da consagração comum, que depende inteiramente da vontade de quem consagra.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica o mecanismo prático da contagem regressiva imposta ao nazireu cujo voto foi confirmado após um período de dúvida.

Rambam · Perush HaMishná, Nazir 5:3
מה שאמר מונה משעה שנדר שינהוג איסור כימים שנהג בהם היתר, רוצה לומר שישאר אחר הנזירות שמנה משעה שנדר כמו הימים שבין נדרו ושאלתו לחכם שנהג בהם היתר ולא נהג הנזירות בהם, וכאילו מנה משעה שנשאל, ואמנם זה מדרבנן על דרך חומרא, אבל החיוב הוא מה שזכר שמנה משעה שנדר

Rambam explica que, embora a mishná diga que a pessoa "conta desde o momento em que fez o voto", na prática ela deve, por decreto rabínico e como medida de rigor adicional, prolongar seu nazireado por tantos dias quanto durou o período em que se comportou como se estivesse livre, sem observar as restrições — de modo que o resultado prático se aproxima de contar apenas a partir do momento da consulta ao sábio. Mas a obrigação de base, segundo a Torá, é a que a mishná enuncia explicitamente: os dias de nazireado contam desde o próprio momento do voto.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi, Rambam e Bartenura sobre o debate entre Beit Shammai e Beit Hilel.

Rashi · רש״י
Nazir 31b, s.v. מתני' מי שנדר בנזיר
מתני' מי שנדר בנזיר - ונזכר שטעה בנזירותו והתחיל להתחרט בו והלך ועבר על נזירותו ושתה יין ונטמא למתים, ואח"כ הלך ונשאל לחכמים להתיר נזירותו

Rashi descreve o cenário concreto por trás da mishná: alguém que, tendo feito voto de nazireado, passou a duvidar de sua validade, e nesse ínterim descumpriu as restrições — bebeu vinho e se contaminou por contato com um morto —, e somente depois foi consultar os sábios para saber se estava de fato ligado ao voto.

Rashi · רש״י
Nazir 31b, s.v. אמרו להם בית שמאי
אמרו להם בית שמאי אי אתם מודים במי שטעה וקרא לתשיעי עשירי כו', אמרו להם בית הלל לא השבט קדשו - כלומר לא לכך מקודש תשיעי ואחד עשר שיהא מתקדש בשבט שעבר עליהן בטעות וקורא לו עשירי... אלא מה טעם מקודשין תשיעי ואחד עשר, שאותו כתוב שקידש את העשירי קידש את התשיעי ואחד עשר, אבל לא שמיני ושנים עשר

Rashi esclarece a lógica precisa da resposta de Beit Hilel: a consagração do nono e do décimo primeiro animais não decorre simplesmente do fato de a vara ter passado sobre eles com a palavra errônea "décimo" — pois, se fosse assim, o mesmo deveria valer para o oitavo e o décimo segundo, caso o erro fosse ainda maior, o que não é o caso. A verdadeira causa é uma decisão do próprio texto bíblico, que consagra especificamente os dois animais adjacentes ao décimo real quando há engano na contagem, e nada além disso — tratando-se, portanto, de uma lei totalmente particular ao dízimo do gado.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nazir 5:3
והטעם בזה שהמעשר אינו מתקדש בכוונה, ואמנם הדבר תלוי בקריאת החשבון, לפי שנאמר העשירי יהיה קדש לה', ואינו כהקדש אבל הוא תלוי בכוונת מי שהקדיש; וכל זמן שאמר עשירי, בין שנתכוון לקדושה או לא נתכוון... ואמנם אמר שמיני לפי שהתשיעי והעשירי ואחד עשר טעה בחשבונם

Rambam explica a diferença fundamental entre o dízimo do gado e a consagração comum: enquanto a consagração comum depende inteiramente da intenção de quem consagra, o dízimo do gado depende apenas da contagem verbal — sempre que o dono diz "décimo" ao animal correspondente, sejam quais forem suas intenções internas, este se torna consagrado. Por isso a Torá estende essa consagração ao nono e ao décimo primeiro quando o dono se enganou na contagem e os chamou de "décimo", mas não ao oitavo e ao décimo segundo, que estão fora do alcance do erro plausível na contagem.

Bartenura · רע"ב
Nazir 5:3
תֵּצֵא וְתִרְעֶה בָעֵדֶר. דְּהַפְרָשָׁה בְטָעוּת הֲוַאי וְתֵצֵא לְחֻלִּין, וּבְהָא מוֹדוּ בֵּית שַׁמַּאי, דְּכֵיוָן דְּאֵינוֹ נָזִיר כִּי קָאָמַר לְקָרְבְּנוֹת נְזִירוּתוֹ וְלֹא מִידֵי קָאָמַר, כְּאָדָם שֶׁאֵינוֹ חַיָּב חַטָּאת וְאָמַר הֲרֵי זוֹ לְחַטָּאתִי

Bartenura explica por que, neste caso específico, até mesmo Beit Shammai concordam que o animal separado sai para pastar livremente: uma vez que o sábio determinou que a pessoa nunca foi de fato nazireu, suas palavras designando um animal "para meus sacrifícios de nazireado" não têm efeito algum, pois é como alguém que não deve trazer uma oferenda pelo pecado e mesmo assim diz "este animal é para minha oferenda pelo pecado" — a designação, nesse caso, simplesmente não se aplica a nada, e não se trata propriamente de um caso de "consagração por engano" no sentido debatido nas mishnayot anteriores.