Seder Nashim · Massechet Nazir · Perek Dalet · Mishná 7 de 7

Encerrando o Perek Dalet: o filho que se tosquia pelo nazireado do pai falecido

הָאִישׁ מְגַלֵּחַ עַל נְזִירוּת אָבִיו
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerrando o Perek Dalet, a mishná trata de um poder paralelo ao do pai sobre o filho: o do filho de se tosquiar pelo nazireado do pai falecido — poder que, mais uma vez, é exclusivo do filho, e não da filha.

O homem se tosquia pelo nazireado de seu pai, mas a mulher não se tosquia pelo nazireado de seu pai.Por outra halachá recebida por tradição, quando um pai morre deixando dinheiro reservado, sem designação específica, para completar seu próprio voto de nazireado, um filho pode assumir sobre si um novo voto de nazireado com a condição de usar esse dinheiro para seus próprios sacrifícios finais, "tosquiando-se" assim, em certo sentido, pelo nazireado do pai. Esse poder pertence apenas ao filho homem; uma filha, ainda que herdeira, não pode fazer o mesmo pelo nazireado de seu pai falecido.

הָאִישׁ מְגַלֵּחַ עַל נְזִירוּת אָבִיו וְאֵין הָאִשָּׁה מְגַלַּחַת עַל נְזִירוּת אָבִיהָ.
A mishná então precisa exatamente quem se qualifica para esse ato, distinguindo o caso de um filho que nunca foi nazireu do caso de um filho que era, ele mesmo, nazireu junto com o pai.

Como assim? Quem tinha seu pai nazireu, e ele separou dinheiro indistinto para seu nazireado, e morreu, e ele disse: eis que sou nazireu com a condição de que me tosquiarei com o dinheiro de meu pai — disse Rabi Yosei: eis que este dinheiro cairá como doação, este não se tosquia pelo nazireado de seu pai.Se um homem cujo pai era nazireu, e que separou dinheiro sem designação específica para seus próprios sacrifícios finais, morreu antes de completar seu voto, e o filho — que até então nunca havia sido nazireu — declara agora um novo voto de nazireado próprio, com a condição explícita de usar esse dinheiro do pai para seus sacrifícios, Rabi Yosei sustenta que esse dinheiro simplesmente cai como doação voluntária ao Templo, e o filho não pode usá-lo dessa forma — pois esse filho, que nunca compartilhou o nazireado com o pai, não se qualifica como "tosquiando-se pelo nazireado do pai" no sentido técnico que a halachá exige.

כֵּיצַד. מִי שֶׁהָיָה אָבִיו נָזִיר וְהִפְרִישׁ מָעוֹת סְתוּמִים עַל נְזִירוּתוֹ וּמֵת, וְאָמַר הֲרֵינִי נָזִיר עַל מְנָת שֶׁאֲגַלַּח עַל מְעוֹת אַבָּא, אָמַר רַבִּי יוֹסֵי, הֲרֵי אֵלּוּ יִפְּלוּ לִנְדָבָה, אֵין זֶה מְגַלֵּחַ עַל נְזִירוּת אָבִיו.
A mishná define então o caso oposto — o único que realmente se qualifica —, encerrando o Perek Dalet.

Quem é que se tosquia pelo nazireado de seu pai? Quem tinha ele e seu pai nazireus, e seu pai separou dinheiro indistinto para seu nazireado, e morreu — este é que se tosquia pelo nazireado de seu pai.O único caso que verdadeiramente se qualifica como "tosquiar-se pelo nazireado do pai" é aquele em que o próprio filho já era nazireu simultaneamente com o pai — ambos cumprindo, cada um, seu próprio voto —, e o pai, tendo separado dinheiro sem designação específica para seus sacrifícios finais, morre antes de completá-los. Nesse caso, o filho, que já tinha seu próprio nazireado em curso, pode usar o dinheiro do pai para seus próprios sacrifícios finais, encerrando assim os dois nazireados — o seu e, em certo sentido, o do pai — com o mesmo dinheiro.

אֵיזֶהוּ שֶׁמְּגַלֵּחַ עַל נְזִירוּת אָבִיו, מִי שֶׁהָיָה הוּא וְאָבִיו נְזִירִים וְהִפְרִישׁ אָבִיו מָעוֹת סְתוּמִים לִנְזִירוּתוֹ וּמֵת, זֶהוּ שֶׁמְּגַלֵּחַ עַל נְזִירוּת אָבִיו:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Como no caso do pai que vota o filho ao nazireado, esta halachá também não tem apoio direto em nenhum versículo da Torá — Rambam e Rashi são explícitos quanto a isso.

Bemidbar (Números) 6:2
אִישׁ אוֹ אִשָּׁה כִּי יַפְלִא לִנְדֹּר נֶדֶר נָזִיר לְהַזִּיר לַה'
Um homem ou uma mulher, quando fizer um voto extraordinário, o voto de nazireu, para se consagrar ao Eterno.

Assim como o poder do pai de votar o filho ao nazireado, este poder do filho de completar, em certo sentido, o nazireado inacabado do pai falecido não deriva de nenhum versículo bíblico, mas de uma halachá recebida por tradição oral. A Torá descreve apenas o nazireado de quem faz o voto por si mesmo; a ideia de um filho usar o dinheiro reservado pelo pai para encerrar, com seu próprio voto simultâneo, algo do nazireado paterno interrompido pela morte, é reconhecida pelos sábios como parte da mesma cadeia de tradições orais que regula as relações entre pai e filho no nazireado, sem apoio direto no texto escrito.

Halachot · הֲלָכוֹת

A halachá não segue Rabi Yosei quanto ao primeiro caso da mishná; Rambam confirma a regra final, encerrando o Perek Dalet.

Rambam · Perush HaMishná, Nazir 4:7
זה שאומר רבי יוסי שהוא מגלח על נזירות אביו הוא ג"כ דרך אמיתי, וכשהניח בנים רבים וקדם אחד מהם וגלח על נזירות אביו זכה, וכמו כן אם נדר על תנאי שיביא קרבנות אביו אם גלח, וזה הדין ג"כ אין לו סמך מן התורה אלא קבלה בלבד, והוא מה שאמר הלכה הוא בנזיר. ואין הלכה כרבי יוסי

Rambam confirma que quando há vários filhos, cada um já nazireu junto com o pai, o primeiro que se antecipa e usa o dinheiro do pai para se tosquiar adquire esse direito, excluindo os demais. E reafirma que toda essa halachá vem por tradição oral, sem apoio no texto da Torá, e que a lei prática não segue Rabi Yosei quanto ao caso do filho que nunca compartilhou o nazireado com o pai.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi, Rambam e Bartenura, encerrando o Perek Dalet.

Rashi · רש״י
Nazir 30a, s.v. גמ' הלכה היא בנזיר
הלכה היא בנזיר - שהבן מגלח, ואין לנו ללמוד הימנו אלא מה שמסורת הוא בידינו, בן ולא בת

Rashi confirma que essa halachá também é uma tradição recebida, restrita exatamente ao que foi transmitido: o poder pertence ao filho, e não se pode estender por analogia a nenhuma outra relação familiar além da que a própria tradição especifica — filho, e não filha.

Rashi · רש״י
Nazir 30a, s.v. מהו דתימא יורשין גמירי לה
מהו דתימא יורשין גמירי לה - שמגלחין על נזירות האב, ולא שנא בן לא שנא בת במקום שאין בן

Rashi explica por que a mishná precisou tornar explícito que o poder é do filho e não da filha: poder-se-ia pensar que a tradição recebida se refere a todo herdeiro em geral, de modo que, na ausência de um filho homem, uma filha herdeira pudesse exercer o mesmo poder. A mishná esclarece que não é esse o caso: a tradição especifica o filho, e apenas o filho.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nazir 4:7
זה שאומר רבי יוסי שהוא מגלח על נזירות אביו הוא ג"כ דרך אמיתי, וכשהניח בנים רבים וקדם אחד מהם וגלח על נזירות אביו זכה, וכמו כן אם נדר על תנאי שיביא קרבנות אביו אם גלח, וזה הדין ג"כ אין לו סמך מן התורה אלא קבלה בלבד

Rambam esclarece que a opinião de Rabi Yosei, embora não seja a halachá final quanto ao primeiro caso da mishná, expressa de todo modo uma via reconhecida: quando há vários filhos, todos já nazireus junto com o pai falecido, aquele que primeiro assume a condição de se tosquiar com o dinheiro paterno adquire esse direito antes dos irmãos, tornando-se o único a completar, dessa forma, o nazireado interrompido do pai.

Bartenura · רע"ב
Nazir 4:7
הָאִישׁ מְגַלֵּחַ עַל נְזִירוּת אָבִיו וְאֵין הָאִשָּׁה מְגַלַּחַת עַל נְזִירוּת אָבִיהָ. וַאֲפִלּוּ הִיא בַּת יוֹרֶשֶׁת. וְדָבָר זֶה הֲלָכָה מִפִּי הַקַּבָּלָה

Bartenura reafirma, para encerrar o Perek Dalet, que o poder do filho de se tosquiar pelo nazireado do pai falecido pertence exclusivamente a ele, mesmo quando a filha é a única herdeira dos bens do pai — pois essa exclusividade não decorre do direito de herança, mas é, ela mesma, uma halachá recebida por tradição oral, independente de qualquer outra consideração jurídica.