Seder Nashim · Massechet Nazir · Perek Dalet · Mishná 2 de 7

O voto de nazireado formulado como pergunta ao cônjuge, e a resposta "amém"

הֲרֵינִי נָזִיר וָאַתְּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná retoma o tema do casal, agora tratando de uma fórmula distinta: o voto lançado na forma de uma pergunta direta ao cônjuge, respondida com "amém".

Eis que sou nazireu, e tu? — e ela disse amém, ele anula o dela, e o dele permanece. Eis que sou nazireia, e tu? — e ele disse amém, ele não pode anular.Quando o marido, ao assumir seu próprio voto de nazireado, dirige-se à esposa perguntando "e tu, o que dizes?" — deixando claro que se trata de uma pergunta, não de uma afirmação em nome dela —, e ela responde "amém", isto é, concorda e assume o voto sobre si mesma, o voto dela permanece sujeito ao poder de anulação do marido, exatamente como qualquer outro voto que ela assuma, enquanto o voto dele permanece firme. Mas quando é a esposa quem pergunta ao marido "e tu?", e ele responde "amém", ele já manifestou, com essa mesma resposta, sua concordância com o voto dela, e por isso perde o poder de depois anulá-lo — pois quem confirma um voto expressamente não pode mais desfazê-lo.

הֲרֵינִי נָזִיר, וָאַתְּ, וְאָמְרָה אָמֵן, מֵפֵר אֶת שֶׁלָּהּ, וְשֶׁלּוֹ קַיָּם. הֲרֵינִי נְזִירָה, וָאָתָּה, וְאָמַר אָמֵן, אֵינוֹ יָכוֹל לְהָפֵר:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

O mesmo versículo de Bemidbar que fundamenta a mishná anterior segue sendo a base desta: o poder do marido de confirmar ou anular o voto da esposa, e a perda desse poder quando ele já manifestou concordância.

Bemidbar (Números) 30:14
כׇּל־נֵדֶר וְכׇל־שְׁבֻעַת אִסָּר לְעַנֹּת נָפֶשׁ אִישָׁהּ יְקִימֶנּוּ וְאִישָׁהּ יְפֵרֶנּוּ
Todo voto e todo juramento de abstenção para afligir a alma, seu marido pode confirmá-lo e seu marido pode anulá-lo.

A distinção entre "eis que sou nazireu, e tu?" — dito como pergunta — e "eis que sou nazireu e tu", dito como afirmação categórica, é o eixo halachico central desta mishná. Quando a fórmula do marido tem caráter de pergunta genuína, ele não vinculou o próprio voto ao dela, e por isso, se ela responder "amém", ele conserva o poder de anular o voto dela, como qualquer voto seu. Mas se a fórmula for dita como afirmação, sem deixar espaço real de escolha, e ela responder "amém" apenas confirmando o que ele já declarou, o voto dele mesmo passa a depender do dela — hipótese que a mishná seguinte discute com outra formulação.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Mishné Torá, precisa a diferença prática entre a pergunta e a afirmação nesta fórmula.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Nezirut 3:6
האומר לאשתו הריני נזיר ואת מהו אומרת, ואמרה אמן, הרי זו נזירה ויכול הוא להפר לה שהרי ברשותו הדבר תלוי ולא קיים לה כלום, אבל אם אמר לה הריני נזיר ואת, בפסק ובחלט, ואמרה אמן, הרי זה קיים נדרה ואינו יכול להפר

Rambam confirma a distinção: quando o marido formula sua fala como pergunta genuína — "e tu, o que dizes?" — e ela responde "amém", ele conserva o poder de anular, pois nada foi ainda decidido por ele quanto a ela. Mas quando ele fala de modo categórico e decidido, e ela responde "amém" apenas confirmando, ele já confirmou o voto dela com sua própria fala inicial, e perde o poder de anular.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi, Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Nazir 22b, s.v. הריני נזיר ואת ואמרה אמן מיפר את שלה
הריני נזיר ואת ואמרה אמן מיפר את שלה - והאי דאמר לה ואת לא הוי קיום לפי שאין אדם יכול להזיר את אשתו בנזיר. מפני שתלה נדרו בנדרה

Rashi explica por que a fala "e tu" do marido, seguida de "amém" da esposa, não constitui uma confirmação do voto dela por parte dele: um homem não tem poder de fazer sua esposa nazireia por sua própria fala, apenas ela mesma pode assumir o voto sobre si. Por isso, mesmo quando ele diz "e tu" de modo categórico, a fórmula da Guemará (que a mishná resume) é entendida como quem vincula o próprio voto ao dela — de modo que, se ela não disser "amém", nem o voto dele se firma sozinho.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nazir 4:2
כשאמר אדם לאשתו הריני נזיר ואת על דרך הפסק והחלוטין ואמרה אמן אינו יכול להפר לה. אבל אם היה אומר לה על התימה כגון שיאמר ואת מה תאמרי התחייבת במה שחייבתי על עצמי או לא ואמרה אמן אז רוצה לומר אני מחוייבת ה"ז אפשר לו שיפר לה

Rambam contrasta as duas leituras possíveis da fórmula "e tu": quando dita como afirmação categórica, decidida, o marido já assumiu que a esposa está incluída, e sua resposta "amém" apenas confirma o que ele decidiu — por isso ele perde o poder de anular. Quando dita como uma pergunta genuína de espanto ou dúvida — "e tu, o que dizes, estás obrigada ao que assumi ou não?" —, a resposta "amém" da esposa significa apenas "estou obrigada", uma declaração independente dela, sobre a qual o marido conserva o poder normal de anulação.

Bartenura · רע"ב
Nazir 4:2
הֲרֵינִי נָזִיר וָאַתְּ וְאָמְרָה אָמֵן מֵפֵר אֶת שֶׁלָּהּ. וְדַוְקָא כִּי אָמַר לָהּ בִּלְשׁוֹן שְׁאֵלָה, כְּלוֹמַר וָאָתְּ מַה תֹּאמְרִי, תֶהֱוִי נְזִירָה כָּמוֹנִי אִם לָאו, אָז יָכוֹל לְהָפֵר. אֲבָל אִם אָמַר הֲרֵינִי נָזִיר וָאָתְּ, בְּנִחוּתָא, וְעָנְתָה אָמֵן, אֵינוֹ יָכוֹל לְהָפֵר, שֶׁהֲרֵי קִיֵּם לָהּ

Bartenura resume a regra prática: o marido só conserva o poder de anular o voto da esposa quando falou em tom de pergunta — "e tu, o que dizes, serás nazireia como eu ou não?" Mas se falou em tom afirmativo e tranquilo, como quem já decide por ela, e ela apenas respondeu "amém", ele já confirmou o voto dela com sua própria fala, e por isso não pode mais anulá-lo.