A mulher que fez voto de nazireado, e estava bebendo vinho e se contaminando por mortos, recebe as quarenta chicotadas. — Se uma mulher assumiu sobre si o voto de nazireado e, sabendo disso, ainda assim bebeu vinho ou entrou em contato com um cadáver, ela é açoitada com as quarenta chicotadas prescritas para quem transgride uma proibição da Torá — pois ela transgrediu conscientemente as restrições de seu próprio voto.
Anulou-lhe seu marido, e ela não sabia que seu marido lhe havia anulado, e estava bebendo vinho e se contaminando por mortos, ela não recebe as quarenta chicotadas. — Se o marido já anulou o voto da esposa, mas ela ainda não foi informada disso, e continua a beber vinho e a se contaminar por um morto, pensando ainda estar sob o voto, ela não recebe as quarenta chicotadas — pois, do ponto de vista objetivo, o voto já não existe mais desde o momento da anulação, ainda que ela não soubesse.
Rabi Yehuda diz: se ela não recebe as quarenta chicotadas, que receba açoites de disciplina. — Rabi Yehuda concorda que ela não recebe a pena bíblica das quarenta chicotadas, pois objetivamente já não havia voto algum. Mas insiste que, como ela agiu com a intenção de transgredir — pensando estar violando seu próprio voto —, os sábios devem açoitá-la com uma pena de disciplina rabínica, para que sua intenção não fique sem consequência alguma.
O caso desta mishná é a aplicação prática de dois princípios bíblicos combinados: o poder do marido de anular o voto da esposa, e a pena geral de açoites para quem transgride uma proibição da Torá.
A anulação do marido, segundo o texto bíblico, opera de modo objetivo, retirando a validade do voto a partir do momento em que ele a formula — e não apenas a partir do momento em que a esposa toma conhecimento dela. É esse princípio que fundamenta a posição da mishná de que, uma vez anulado o voto, a mulher que bebe vinho sem saber da anulação não transgride proibição alguma da Torá, e por isso não incorre nas quarenta chicotadas — pena reservada a quem viola conscientemente uma proibição bíblica.
A halachá não segue Rabi Yehuda; Rambam registra a regra no Mishné Torá, seguindo os sábios anônimos da mishná.
Rambam registra que a mulher cujo marido anulou seu voto sem que ela soubesse, e que bebeu vinho ou se contaminou por um morto, está isenta de qualquer punição, pois agiu como quem tinha permissão para tanto — já que, objetivamente, o voto não existia mais. E precisa que a halachá não segue Rabi Yehuda quanto aos açoites de disciplina.
Perush de Rashi, Rambam e Bartenura.
Rashi explica a razão da posição de Rabi Yehuda: mesmo quando a mulher não se torna objetivamente culpada segundo a lei da Torá — pois o voto já havia sido anulado —, os sábios devem açoitá-la com uma pena disciplinar, para repreendê-la e evitar que ela se acostume a agir de modo displicente quanto às proibições que pensa estarem sobre ela.
A Guemará, explica Rashi, deriva o caso desta mishná do próprio versículo de Bemidbar: a frase "e o Eterno lhe perdoará" só faz sentido se referir a uma mulher que, sem saber da anulação, agiu como se ainda estivesse sob o voto — pois se ela sabia da anulação, não haveria pecado algum a perdoar. É dessa leitura que a Guemará extrai que a mulher que peca sem saber da anulação de seu marido precisa, de algum modo, de expiação, ainda que não das quarenta chicotadas.
Rambam esclarece que, quando a esposa transgride antes de o marido sequer anular o voto, ela recebe as quarenta chicotadas normalmente, pois nesse caso o voto ainda estava plenamente em vigor. E observa que a natureza exata das "chicotadas de disciplina" mencionadas por Rabi Yehuda — em número e forma — fica a critério de cada tribunal, segundo seu próprio juízo, embora aqui a halachá não siga a posição de Rabi Yehuda quanto a impô-las neste caso específico.
Bartenura precisa a sequência temporal do primeiro caso da mishná: a mulher bebeu vinho e se contaminou por um morto enquanto o voto ainda estava plenamente em vigor, e só depois disso o marido veio a anulá-lo — de modo que a transgressão já estava consumada no momento em que ocorreu, e as quarenta chicotadas são plenamente devidas.