Seder Nashim · Massechet Nazir · Perek Dalet · Mishná 3 de 7

A esposa que bebeu vinho antes de saber que o marido já havia anulado seu voto

הָאִשָּׁה שֶׁנָּדְרָה בְנָזִיר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná passa a tratar das consequências práticas quando a esposa, tendo feito voto de nazireado, bebe vinho ou se contamina por um morto — com ou sem o conhecimento de que o marido já anulou seu voto.

A mulher que fez voto de nazireado, e estava bebendo vinho e se contaminando por mortos, recebe as quarenta chicotadas.Se uma mulher assumiu sobre si o voto de nazireado e, sabendo disso, ainda assim bebeu vinho ou entrou em contato com um cadáver, ela é açoitada com as quarenta chicotadas prescritas para quem transgride uma proibição da Torá — pois ela transgrediu conscientemente as restrições de seu próprio voto.

הָאִשָּׁה שֶׁנָּדְרָה בְנָזִיר, וְהָיְתָה שׁוֹתָה בְיַיִן וּמִטַּמְּאָה לְמֵתִים, הֲרֵי זוֹ סוֹפֶגֶת אֶת הָאַרְבָּעִים.
A mishná contrasta esse caso com aquele em que o marido já havia anulado o voto, mas ela ainda não sabia disso.

Anulou-lhe seu marido, e ela não sabia que seu marido lhe havia anulado, e estava bebendo vinho e se contaminando por mortos, ela não recebe as quarenta chicotadas.Se o marido já anulou o voto da esposa, mas ela ainda não foi informada disso, e continua a beber vinho e a se contaminar por um morto, pensando ainda estar sob o voto, ela não recebe as quarenta chicotadas — pois, do ponto de vista objetivo, o voto já não existe mais desde o momento da anulação, ainda que ela não soubesse.

הֵפֵר לָהּ בַּעְלָהּ וְהִיא לֹא יָדְעָה שֶׁהֵפֵר לָהּ בַּעְלָהּ, וְהָיְתָה שׁוֹתָה בְיַיִן וּמִטַּמְּאָה לְמֵתִים, אֵינָהּ סוֹפֶגֶת אֶת הָאַרְבָּעִים.
Rabi Yehuda discorda, apenas quanto ao grau de punição aplicável.

Rabi Yehuda diz: se ela não recebe as quarenta chicotadas, que receba açoites de disciplina.Rabi Yehuda concorda que ela não recebe a pena bíblica das quarenta chicotadas, pois objetivamente já não havia voto algum. Mas insiste que, como ela agiu com a intenção de transgredir — pensando estar violando seu próprio voto —, os sábios devem açoitá-la com uma pena de disciplina rabínica, para que sua intenção não fique sem consequência alguma.

רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אִם אֵינָהּ סוֹפֶגֶת אֶת הָאַרְבָּעִים, תִּסְפֹּג מַכַּת מַרְדּוּת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

O caso desta mishná é a aplicação prática de dois princípios bíblicos combinados: o poder do marido de anular o voto da esposa, e a pena geral de açoites para quem transgride uma proibição da Torá.

Bemidbar (Números) 30:9
וְאִם בְּיוֹם שְׁמֹעַ אִישָׁהּ יָנִיא אוֹתָהּ וְהֵפֵר אֶת נִדְרָהּ אֲשֶׁר עָלֶיהָ וְאֵת מִבְטָא שְׂפָתֶיהָ אֲשֶׁר אָסְרָה עַל נַפְשָׁהּ וַה' יִסְלַח לָהּ
E se, no dia em que ouvir, seu marido a impedir, e anular seu voto que estava sobre ela e o que saiu de seus lábios, com que ela restringiu sua alma — o Eterno lhe perdoará.
Devarim (Deuteronômio) 25:3
אַרְבָּעִים יַכֶּנּוּ לֹא יֹסִיף
Quarenta ele o açoitará, não acrescentará.

A anulação do marido, segundo o texto bíblico, opera de modo objetivo, retirando a validade do voto a partir do momento em que ele a formula — e não apenas a partir do momento em que a esposa toma conhecimento dela. É esse princípio que fundamenta a posição da mishná de que, uma vez anulado o voto, a mulher que bebe vinho sem saber da anulação não transgride proibição alguma da Torá, e por isso não incorre nas quarenta chicotadas — pena reservada a quem viola conscientemente uma proibição bíblica.

Halachot · הֲלָכוֹת

A halachá não segue Rabi Yehuda; Rambam registra a regra no Mishné Torá, seguindo os sábios anônimos da mishná.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Nezirut 3:9
האשה שהפר לה בעלה נדרה ולא ידעה, ושתת יין או נטמאת למתים, הרי זו פטורה, שהרי ברשות שתתה. ואין הלכה כרבי יהודה

Rambam registra que a mulher cujo marido anulou seu voto sem que ela soubesse, e que bebeu vinho ou se contaminou por um morto, está isenta de qualquer punição, pois agiu como quem tinha permissão para tanto — já que, objetivamente, o voto não existia mais. E precisa que a halachá não segue Rabi Yehuda quanto aos açoites de disciplina.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi, Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Nazir 23a, s.v. מתני' הרי זו סופגת את הארבעים
מתני' הרי זו סופגת את הארבעים - מפרש לה לעיל (נזיר כא:). רבי יהודה אומר תספוג מכת מרדות - אם לא נתחייבה במלקות מן התורה תהא לוקה מכות מדרבנן כדי להוכיחה שלא תהא מזידה

Rashi explica a razão da posição de Rabi Yehuda: mesmo quando a mulher não se torna objetivamente culpada segundo a lei da Torá — pois o voto já havia sido anulado —, os sábios devem açoitá-la com uma pena disciplinar, para repreendê-la e evitar que ela se acostume a agir de modo displicente quanto às proibições que pensa estarem sobre ela.

Rashi · רש״י
Nazir 23a, s.v. גמ' ת"ר אישה הפרם וה' יסלח לה
ת"ר אישה הפרם וה' יסלח לה - במה הכתוב מדבר, אם באשה שנדרה והפר לה בעלה, סליחה זו למה? אלא כו' ע"כ באשה שהפר לה בעלה והיא לא ידעה הכתוב מדבר, דהא כבר כתיב ואם ביום שמוע אישה יניא אותה, דהיינו שהפר לה בידיעתה

A Guemará, explica Rashi, deriva o caso desta mishná do próprio versículo de Bemidbar: a frase "e o Eterno lhe perdoará" só faz sentido se referir a uma mulher que, sem saber da anulação, agiu como se ainda estivesse sob o voto — pois se ela sabia da anulação, não haveria pecado algum a perdoar. É dessa leitura que a Guemará extrai que a mulher que peca sem saber da anulação de seu marido precisa, de algum modo, de expiação, ainda que não das quarenta chicotadas.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nazir 4:3
אומר אם נדרה בנזיר ועברה והיתה שותה ביין או מיטמאה למתים אח"כ שמע בעלה נדרה והיפר לה היו מכין אותה מלקות ארבעים על מה שעברה קודם ההפרה. אמנם מכות מרדות בזה המקום וזולתו עניינם תלוי לב"ד יעשו כפי השתדלותם. ומה שאמר ר' יהודה הלכה כמותו

Rambam esclarece que, quando a esposa transgride antes de o marido sequer anular o voto, ela recebe as quarenta chicotadas normalmente, pois nesse caso o voto ainda estava plenamente em vigor. E observa que a natureza exata das "chicotadas de disciplina" mencionadas por Rabi Yehuda — em número e forma — fica a critério de cada tribunal, segundo seu próprio juízo, embora aqui a halachá não siga a posição de Rabi Yehuda quanto a impô-las neste caso específico.

Bartenura · רע"ב
Nazir 4:3
וְהָיְתָה שׁוֹתָה יַיִן וּמִטַּמְּאָה לְמֵתִים. וְאַחַר כָּךְ הֵפֵר לָהּ בַּעְלָהּ

Bartenura precisa a sequência temporal do primeiro caso da mishná: a mulher bebeu vinho e se contaminou por um morto enquanto o voto ainda estava plenamente em vigor, e só depois disso o marido veio a anulá-lo — de modo que a transgressão já estava consumada no momento em que ocorreu, e as quarenta chicotadas são plenamente devidas.