"Sou nazireu quando eu tiver um filho" — e nasceu-lhe um filho, eis que este é nazireu. Nasceu-lhe uma filha, um tumtum, ou um androginos, não é nazireu. Se disse "quando eu vir", "quando eu tiver um descendente" — ainda que lhe tenha nascido uma filha, um tumtum, ou um androginos, eis que este é nazireu. — Na linguagem comum, a palavra "filho", usada sozinha, refere-se especificamente a um varão nascido; por isso, se apenas essa palavra foi usada, o nascimento de uma filha, de um tumtum — cujo sexo é indefinido por encobrimento físico — ou de um androginos — que apresenta características de ambos os sexos — não ativa o voto, pois nenhum desses casos corresponde ao que a pessoa quis dizer com "filho". Mas se a pessoa usou uma linguagem mais ampla — "quando eu vir" ou "quando eu tiver um descendente" — essas expressões abrangem qualquer nascimento vivo, incluindo filha, tumtum e androginos, pois todos eles são considerados "descendência" no sentido amplo, ainda que não sejam "filho" no sentido estrito.
A mishná não deriva de um versículo específico sobre nazireado, mas do princípio geral de que os votos se interpretam segundo a linguagem comum das pessoas — a mesma lógica que rege toda a área de nedarim.
O princípio de que os votos se cumprem "segundo tudo o que saiu de sua boca" implica que sua interpretação deve seguir o sentido corrente da linguagem usada pela pessoa no momento em que os fez. Por isso a mishná distingue com tanto cuidado entre "filho" — termo que, na linguagem cotidiana, designa exclusivamente o varão — e "descendente" ou "quando eu vir", expressões mais amplas que abrangem qualquer nascimento vivo, independentemente do sexo ou de sua definição.
A distinção lexical da mishná é aceita como halachá sem disputa registrada.
Rambam explica que se poderia supor, à primeira vista, que a palavra "filho" refere-se a qualquer descendência, com base em versículos bíblicos onde termos semelhantes aparecem em sentido amplo; ou, inversamente, que "descendente" se restringisse apenas ao que é reconhecido claramente como humano entre as pessoas, excluindo tumtum e androginos. A mishná ensina que nem uma leitura nem a outra está correta: deve-se seguir exclusivamente o uso corrente da linguagem — "filho" é sempre o varão nascido; "descendente" é qualquer nascimento vivo.
Rashi comenta a mishná a partir de "nasceu-lhe uma filha", em Nazir 12b; a cláusula inicial sobre o filho varão não recebeu glosa própria por ser considerada evidente.
Rashi resume em poucas palavras a razão da segunda parte da mishná: filha, tumtum e androginos são todos chamados de valad — "descendência" — mesmo que não se enquadrem na palavra específica "filho". Por isso, quando a pessoa usou a linguagem mais ampla ("quando eu tiver um descendente" ou "quando eu vir"), o nascimento de qualquer um deles basta para ativar o nazireado condicional.
Rambam esclarece por que a mishná precisou explicitar essa regra: sem ela, poder-se-ia pensar tanto que "filho" tem sentido amplo (incluindo qualquer descendência), quanto que "descendente" tem sentido restrito (excluindo tumtum e androginos, que não são claramente reconhecidos como pessoa completa entre as pessoas comuns). A mishná corrige ambas as suposições possíveis, fixando que cada termo segue estritamente seu uso corrente na fala cotidiana.
Bartenura confirma a leitura de Rashi e Rambam, formulando o critério de modo direto: na linguagem das pessoas, "filho" designa exclusivamente o varão; nenhum outro nascimento se qualifica sob essa palavra. Já "descendente" (valad) é um termo que engloba qualquer nascimento vivo — filha, tumtum ou androginos inclusive —, por isso a mesma condição, formulada com essa palavra mais ampla, se cumpre com qualquer um desses nascimentos.