Seder Nashim · Massechet Nazir · Perek Bet · Mishná 7 de 10

"Sou nazireu quando eu tiver um filho": o que a palavra "filho" abrange

לִכְשֶׁיִּהְיֶה לִי בֵן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná abre uma nova série, dedicada ao nazireado condicionado ao nascimento de um filho. O ponto central é lexical: a palavra exata usada pela pessoa — "filho" ou "descendente" — determina se o nascimento de uma filha, de um tumtum ou de um androginos ativa ou não o voto.

"Sou nazireu quando eu tiver um filho" — e nasceu-lhe um filho, eis que este é nazireu. Nasceu-lhe uma filha, um tumtum, ou um androginos, não é nazireu. Se disse "quando eu vir", "quando eu tiver um descendente" — ainda que lhe tenha nascido uma filha, um tumtum, ou um androginos, eis que este é nazireu.Na linguagem comum, a palavra "filho", usada sozinha, refere-se especificamente a um varão nascido; por isso, se apenas essa palavra foi usada, o nascimento de uma filha, de um tumtum — cujo sexo é indefinido por encobrimento físico — ou de um androginos — que apresenta características de ambos os sexos — não ativa o voto, pois nenhum desses casos corresponde ao que a pessoa quis dizer com "filho". Mas se a pessoa usou uma linguagem mais ampla — "quando eu vir" ou "quando eu tiver um descendente" — essas expressões abrangem qualquer nascimento vivo, incluindo filha, tumtum e androginos, pois todos eles são considerados "descendência" no sentido amplo, ainda que não sejam "filho" no sentido estrito.

הֲרֵינִי נָזִיר לִכְשֶׁיִּהְיֶה לִי בֵן, וְנוֹלַד לוֹ בֵן, הֲרֵי זֶה נָזִיר. נוֹלַד לוֹ בַת, טֻמְטוּם, וְאַנְדְּרוֹגִינוֹס, אֵינוֹ נָזִיר. אִם אָמַר, כְּשֶׁאֶרְאֶה, כְּשֶׁיִּהְיֶה לִי וָלָד, אֲפִלּוּ נוֹלַד לוֹ בַת, טֻמְטוּם, וְאַנְדְּרוֹגִינוֹס, הֲרֵי זֶה נָזִיר:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A mishná não deriva de um versículo específico sobre nazireado, mas do princípio geral de que os votos se interpretam segundo a linguagem comum das pessoas — a mesma lógica que rege toda a área de nedarim.

Bemidbar (Números) 30:3
לֹא יַחֵל דְּבָרוֹ, כְּכָל הַיֹּצֵא מִפִּיו יַעֲשֶׂה
Não violará sua palavra; segundo tudo o que saiu de sua boca fará.

O princípio de que os votos se cumprem "segundo tudo o que saiu de sua boca" implica que sua interpretação deve seguir o sentido corrente da linguagem usada pela pessoa no momento em que os fez. Por isso a mishná distingue com tanto cuidado entre "filho" — termo que, na linguagem cotidiana, designa exclusivamente o varão — e "descendente" ou "quando eu vir", expressões mais amplas que abrangem qualquer nascimento vivo, independentemente do sexo ou de sua definição.

Halachot · הֲלָכוֹת

A distinção lexical da mishná é aceita como halachá sem disputa registrada.

Rambam · Perush HaMishná, Nazir 2:7
יעלה על הדעת שענין אמרו בן רוצה לומר שיהיה לו זרע... אבל לא טומטום ואנדרוגינוס לפיכך למדנו שאין הדבר כן אלא שנסמוך על המורגל מהלשונות

Rambam explica que se poderia supor, à primeira vista, que a palavra "filho" refere-se a qualquer descendência, com base em versículos bíblicos onde termos semelhantes aparecem em sentido amplo; ou, inversamente, que "descendente" se restringisse apenas ao que é reconhecido claramente como humano entre as pessoas, excluindo tumtum e androginos. A mishná ensina que nem uma leitura nem a outra está correta: deve-se seguir exclusivamente o uso corrente da linguagem — "filho" é sempre o varão nascido; "descendente" é qualquer nascimento vivo.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi comenta a mishná a partir de "nasceu-lhe uma filha", em Nazir 12b; a cláusula inicial sobre o filho varão não recebeu glosa própria por ser considerada evidente.

Rashi · רש״י
Nazir 12b, s.v. מתני' נולד לו בת או טומטום ואנדרוגינוס הרי זה נזיר
דולד מיהא מיקרי

Rashi resume em poucas palavras a razão da segunda parte da mishná: filha, tumtum e androginos são todos chamados de valad — "descendência" — mesmo que não se enquadrem na palavra específica "filho". Por isso, quando a pessoa usou a linguagem mais ampla ("quando eu tiver um descendente" ou "quando eu vir"), o nascimento de qualquer um deles basta para ativar o nazireado condicional.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nazir 2:7
יעלה על הדעת שענין אמרו בן רוצה לומר שיהיה לו זרע... וכמו כן יעלה על הדעת כשאמר כשיהיה לי ולד ענינו ולד נחשב בין בני אדם אבל לא טומטום ואנדרוגינוס

Rambam esclarece por que a mishná precisou explicitar essa regra: sem ela, poder-se-ia pensar tanto que "filho" tem sentido amplo (incluindo qualquer descendência), quanto que "descendente" tem sentido restrito (excluindo tumtum e androginos, que não são claramente reconhecidos como pessoa completa entre as pessoas comuns). A mishná corrige ambas as suposições possíveis, fixando que cada termo segue estritamente seu uso corrente na fala cotidiana.

Bartenura · רע"ב
Nazir 2:7
ונולד לו בן הרי זה נזיר. דבלשון בני אדם לא מקרי בן אלא זכר, ולא נקבה ולא טומטום ואנדרוגינוס. וולד מקרי אפילו נקבה וטומטום ואנדרוגינוס

Bartenura confirma a leitura de Rashi e Rambam, formulando o critério de modo direto: na linguagem das pessoas, "filho" designa exclusivamente o varão; nenhum outro nascimento se qualifica sob essa palavra. Já "descendente" (valad) é um termo que engloba qualquer nascimento vivo — filha, tumtum ou androginos inclusive —, por isso a mesma condição, formulada com essa palavra mais ampla, se cumpre com qualquer um desses nascimentos.