Sua esposa teve um aborto espontâneo, não é nazireu. Rabi Shimon diz: dirá — "se era um feto viável, eis que sou nazireu de obrigação; e se não, eis que sou nazireu de doação". Voltou e deu à luz, eis que este é nazireu. Rabi Shimon diz: dirá — "se o primeiro era um feto viável, o primeiro é de obrigação e este é de doação; e se não, o primeiro é de doação e este é de obrigação". — Quando a esposa tem um aborto espontâneo antes de completar a gestação, não há como saber com certeza se aquele feto já era viável — um "descendente" no sentido pleno — ou se ainda não tinha atingido esse estágio; por isso, na visão dos sábios anônimos da mishná, o marido permanece na dúvida e não se torna nazireu, pois em caso de dúvida sobre o nazireado a regra é ser mais leniente. Rabi Shimon, que sustenta o princípio oposto — em caso de dúvida sobre o nazireado deve-se ser mais rigoroso —, propõe uma fórmula que resolve a incerteza sem forçar uma decisão impossível: o marido declara que será nazireu de obrigação se aquele feto era viável, e nazireu de doação voluntária se não era, cobrindo ambas as possibilidades e podendo, assim, trazer suas oferendas ao final de trinta dias. Se depois a esposa dá à luz normalmente, o filho nascido ativa, sem dúvida, o voto original — mas resta saber qual dos dois nazireados, o do aborto ou o do nascimento seguinte, é o "de obrigação" e qual é o "de doação", questão que Rabi Shimon resolve com uma segunda fórmula condicional equivalente.
A mishná retoma a regra geral sobre casos de incerteza no nazireado, aplicada aqui ao caso concreto de uma gestação interrompida.
O voto de nazireado precisa recair sobre uma condição real e determinada; quando a própria realidade dos fatos permanece incerta — como no caso de um aborto cuja viabilidade não se pode verificar —, a halachá geral de que "a dúvida sobre o nazireado se resolve para o lado mais leniente" impede que o nazireado se ative automaticamente. Rabi Yehudá já havia estabelecido esse princípio no Perek Alef (mishná 1:5), e a mishná anterior (2:5) da disputa de Rabi Shimon sobre o assunto lhe é paralela: ele sustenta a posição contrária, de que a dúvida se resolve para o lado mais rigoroso, e por isso precisa da fórmula condicional para permitir que a pessoa cumpra seu voto apesar da incerteza.
A halachá segue os sábios anônimos, e não Rabi Shimon: em caso de dúvida sobre a viabilidade do feto abortado, o marido não é nazireu.
Rambam confirma que a posição de Rabi Shimon nesta mishná decorre diretamente de seu princípio geral sobre a dúvida no nazireado — que ele trata com rigor, e não com leniência. E ele conclui explicitamente que a halachá não segue Rabi Shimon: sem a fórmula condicional, o marido do primeiro caso simplesmente não se torna nazireu, permanecendo na dúvida resolvida a favor da leniência.
Perush de Rashi, Rambam e Bartenura sobre a mishná.
Rashi explica a razão pela qual o aborto, por si só, não gera nazireado: talvez o feto expelido ainda não tivesse completado seus meses de gestação e, portanto, nunca tenha sido, tecnicamente, um "descendente" — e em caso de dúvida sobre o nazireado, a regra é ser mais leniente. Já quando a esposa dá à luz normalmente em seguida, não há dúvida alguma: agora ela tem, sem sombra de incerteza, um descendente, e o nazireado condicional se ativa por completo — restando apenas resolver, no caso de quem segue Rabi Shimon, qual dos dois nascimentos conta como "de obrigação".
Rambam resume a lógica da fórmula proposta por Rabi Shimon: como ele trata a dúvida sobre o nazireado com rigor, não pode simplesmente ignorar a possibilidade de que o feto abortado fosse viável — mas também não pode, sem mais, declarar-se nazireu de obrigação plena, pois isso presumiria algo que não se sabe ao certo. A solução é a fórmula dupla e condicional, que cobre logicamente as duas possibilidades e permite ao marido, ainda assim, cumprir seu voto por completo, trazendo as oferendas cabíveis a cada cenário.
Bartenura atribui a posição anônima da mishná a Rabi Yehudá, que sustenta que ninguém se coloca deliberadamente numa situação de dúvida — quando a pessoa disse "quando eu tiver um descendente", ela se referia a um descendente certo, não a um caso duvidoso como o aborto. Sobre a fórmula de Rabi Shimon, Bartenura explica sua utilidade prática: sem o condicionamento explícito, o marido jamais poderia trazer uma oferenda baseada apenas numa dúvida — pois não se sacrifica um animal em caso de incerteza sem essa estrutura formal —, e é exatamente essa fórmula que lhe permite fazê-lo já ao fim de trinta dias.