Seder Nashim · Massechet Nazir · Perek Bet · Mishná 4 de 10

Nazireado com condição contra a Torá, e o erro sobre o alcance da proibição

עַל מְנָת שֶׁאֱהֵא שׁוֹתֶה יַיִן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná traz três casos de nazireado formulado com uma condição ou uma crença equivocada: a condição explicitamente contrária às leis do nazireado é nula, mas o voto permanece; e há uma disputa entre os sábios e Rabi Shimon sobre quem ignorava, total ou parcialmente, o que o nazireado proíbe.

"Sou nazireu sob a condição de que eu beba vinho e me impurifique por mortos" — eis que este é nazireu, e proibido em tudo. "Sei que há nazireado, mas não sei que o nazireu é proibido em vinho" — eis que este é proibido; e Rabi Shimon permite. "Sei que o nazireu é proibido em vinho, mas pensava eu que os sábios me permitiriam, porque não posso viver senão com vinho, ou porque enterro os mortos" — eis que este é permitido; e Rabi Shimon proíbe.No primeiro caso, a pessoa tenta condicionar seu próprio nazireado a poder continuar bebendo vinho e se impurificando — precisamente as duas proibições centrais do voto —; como toda condição contrária ao que está escrito na Torá é nula, o nazireado permanece pleno e a pessoa fica proibida em tudo, exatamente como qualquer outro nazireu. No segundo caso, a pessoa sabia que existe a instituição do nazireado, mas ignorava especificamente que ele proíbe vinho — segundo os sábios, mesmo esse conhecimento parcial basta para que o voto gere a proibição completa; Rabi Shimon discorda, sustentando que só se torna nazireu pleno quem assumiu conscientemente todas as proibições. No terceiro caso, a pessoa sabia perfeitamente que o nazireu não pode beber vinho, mas supunha, erroneamente, que os sábios abririam uma exceção para ela, por depender do vinho para viver ou por sua profissão exigir contato com mortos — aqui os sábios permitem, pois seu voto foi feito sob um engano evidente sobre uma condição implícita; Rabi Shimon, ao contrário, proíbe.

הֲרֵינִי נָזִיר עַל מְנָת שֶׁאֱהֵא שׁוֹתֶה יַיִן וּמִטַּמֵּא לְמֵתִים, הֲרֵי זֶה נָזִיר וְאָסוּר בְּכֻלָּן. יוֹדֵעַ אֲנִי שֶׁיֵּשׁ נְזִירוּת אֲבָל אֵינִי יוֹדֵעַ שֶׁהַנָּזִיר אָסוּר בְּיַּיִן, הֲרֵי זֶה אָסוּר. וְרַבִּי שִׁמְעוֹן מַתִּיר. יוֹדֵעַ אֲנִי שֶׁהַנָּזִיר אָסוּר בְּיַּיִן אֲבָל סָבוּר הָיִיתִי שֶׁחֲכָמִים מַתִּירִים לִי מִפְּנֵי שֶׁאֵין אֲנִי יָכוֹל לִחְיוֹת אֶלָּא בְיַּיִן, אוֹ מִפְּנֵי שֶׁאֲנִי קוֹבֵר אֶת הַמֵּתִים, הֲרֵי זֶה מֻתָּר. וְרַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹסֵר:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

O princípio de que nenhuma condição pode anular o que está explicitamente escrito na Torá é o que sustenta o primeiro caso da mishná; os dois casos seguintes derivam do sistema dos "quatro votos" que os sábios dispensam de anulação formal.

Bemidbar (Números) 6:3-6
מִיַּיִן וְשֵׁכָר יַזִּיר... כֹּל יְמֵי הִזִּירוֹ לַה׳ עַל נֶפֶשׁ מֵת לֹא יָבֹא
De vinho e de bebida forte se abster... por todos os dias em que se consagrar ao Eterno, não se aproximará de pessoa morta.

A proibição do vinho e da impureza por contato com os mortos está escrita de modo explícito e absoluto na Torá; por isso ninguém pode, ao assumir o nazireado, condicionar seu voto a poder violá-las. A halachá geral de que "todo aquele que estabelece uma condição contrária ao que está escrito na Torá, sua condição é nula" — mas o ato principal permanece válido — explica por que a pessoa do primeiro caso se torna nazireu pleno, apesar de sua tentativa frustrada de se isentar das duas proibições centrais do voto.

Halachot · הֲלָכוֹת

A halachá segue os sábios (e não Rabi Shimon) em ambos os casos de disputa registrados na mishná.

Rambam · Perush HaMishná, Nazir 2:4
הבבא הראשונה אין חולק עליה לפי שהעיקר אצלנו כל המתנה על מה שכתוב בתורה תנאו בטל... ואין הלכה כרבי שמעון בשני המאמרים כולם

Rambam confirma que ninguém discorda do primeiro caso, pois o princípio de que toda condição contrária à Torá é nula é aceito por unanimidade. Nos dois casos seguintes, Rambam explica que os sábios sustentam que quem se torna nazireu por qualquer uma das três proibições — vinho, corte de cabelo ou impureza — assume automaticamente todas elas; Rabi Shimon exige conhecimento consciente de todas as proibições para que o nazireado seja pleno. No terceiro caso, tratando-se de um voto feito sob engano sobre uma isenção que a pessoa supunha existir — um dos "quatro votos" que os sábios dispensaram de anulação formal —, Rambam esclarece que, segundo Rabi Shimon, mesmo esses votos exigem consulta a um sábio para que se tornem permitidos; a lei não segue Rabi Shimon em nenhum dos dois pontos.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi, Rambam e Bartenura sobre a mishná.

Rashi · רש״י
Nazir 11a, s.v. מתני' הריני נזיר על מנת שאהא שותה יין; אבל אם אמר יודע אני...
וקיבל עליו את השאר... והיינו רבנן דאמרי אפילו לא נדר אלא מחד מינייהו הוי נזיר בכולם... ור' שמעון לטעמיה דאמר אינו אסור עד שיזיר מכולן

Rashi observa, sobre o primeiro caso, que a pessoa "assumiu o restante" — isto é, embora sua tentativa de se isentar do vinho e da impureza seja nula, ela continua obrigada a todas as demais restrições do nazireado, e por extensão, obrigada também às duas que tentou excluir, já que a condição inteira cai por terra. Sobre o segundo caso, Rashi explica a posição dos sábios: mesmo quem faz o voto conhecendo apenas uma das proibições — como o vinho — torna-se nazireu obrigado em todas elas, pois a essência do voto, uma vez pronunciada a palavra "nazireu", já traz consigo o pacote completo das restrições bíblicas, independentemente do que a pessoa sabia ou deixou de saber a respeito de seus detalhes. Rabi Shimon discorda: para ele, só se assume genuinamente aquilo que se conhece, e por isso a pessoa permanece nazireia apenas do que sabia — no caso, nada, pois nem sabia que o vinho era proibido.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nazir 2:4
טעם מחלוקת בבא השלישית מפני שהוא נדרי אונסין בלא ספק וההוא מכלל ארבעה נדרים שהתירו חכמים לפיכך אינו צריך הפרה

Rambam explica que o terceiro caso pertence à categoria dos "votos de coação" — nidrei ones — um dos quatro tipos de voto que os sábios dispensaram de qualquer processo formal de anulação, porque a pessoa nunca teve, desde o início, a intenção genuína de assumir um voto que a impediria de viver ou de exercer sua profissão; seu erro sobre a permissão dos sábios já invalida o voto por dentro. Rabi Shimon discorda dessa categoria simplificada: para ele, mesmo os quatro votos de coação exigem, na prática, uma consulta formal a um sábio antes de se tornarem permitidos, e por isso ele proíbe até que isso aconteça.

Bartenura · רע"ב
Nazir 2:4
הרי זה נזיר ואסור בכולם. ובהא כולי עלמא מודו, מפני שהתנה על מה שכתוב בתורה וכל המתנה על מה שכתוב בתורה תנאו בטל

Bartenura confirma que o primeiro caso é consensual: a condição de continuar bebendo vinho e se impurificando é nula por contrariar explicitamente a Torá, mas o voto de nazireado em si permanece de pé, e a pessoa fica proibida em tudo — como qualquer nazireu comum. Sobre a disputa dos dois casos seguintes, Bartenura resume que os sábios consideram nazireu pleno quem se vota a partir de qualquer uma das três proibições, mesmo ignorando as demais, enquanto Rabi Shimon exige a ciência de todas elas; e que a lei segue os sábios em ambos os pontos, contra Rabi Shimon.