Misturaram para ele o cálice, e ele disse "sou nazireu a partir dele", eis que este é nazireu. Aconteceu com uma mulher que estava embriagada, e misturaram para ela o cálice, e ela disse "sou nazireia a partir dele"; disseram os sábios: ela não teve outra intenção senão dizer "eis que ele é para mim oferenda". — No primeiro caso, uma pessoa comum, com pleno domínio de suas faculdades, vê diante de si um cálice de vinho já pronto para beber e declara "sou nazireu a partir dele": aqui não há ambiguidade nenhuma — ela está, sem dúvida, se referindo ao vinho, a fonte central de proibição do nazireado, e o voto recai sobre ela por completo, tornando-a nazireia genuína. O segundo caso relata um episódio real: uma mulher embriagada, a quem serviram um cálice, disse a mesma frase — "sou nazireia a partir dele". Os sábios, avaliando a situação concreta, concluíram que sua verdadeira intenção não era assumir o nazireado completo, mas apenas evitar que lhe servissem mais vinho: temendo o excesso, ela quis dizer, na prática, que aquele cálice ficaria proibido para si como se fosse uma oferenda — um voto de proibição de alimento, e não de nazireado.
Diferentemente dos casos anteriores, aqui não há disputa entre Bet Shamai e Bet Hilel: a linguagem do voto corresponde exatamente à substância que a Torá identifica como o núcleo do nazireado — o vinho.
Quando a pessoa aponta diretamente para o vinho e diz "sou nazireu a partir dele", ela está usando exatamente a linguagem que a Torá reconhece como voto de nazireado — por isso todos concordam que ela se torna nazireia de fato. O caso da mulher embriagada não contradiz esse princípio; ele apenas mostra que a mesma frase pode ter outro sentido quando o contexto revela que a intenção real da pessoa era diferente — evitar mais vinho, e não consagrar-se como nazireia.
Quem diz "sou nazireu a partir do vinho" diante de um cálice já servido torna-se nazireu; mas se disser isso em estado de embriaguez, avalia-se sua real intenção, que pode ser apenas proibir aquele cálice sobre si, e não assumir o nazireado.
Bartenura explica que a mishná está incompleta em sua formulação literal e deve ser lida com uma cláusula implícita: se a pessoa que fez a declaração estava embriagada, ela não se torna nazireia, pois sua intenção não era assumir o nazireado, mas apenas proibir aquele cálice específico sobre si — evitando, com essa linguagem, que lhe servissem outro. O caso da mulher embriagada relatado na mishná vem exemplificar exatamente essa regra.
Perush de Rashi, Rambam e Bartenura sobre a mishná.
Rashi explica o raciocínio dos sábios: como a mulher estava embriagada e, portanto, não precisava de mais bebida, é razoável concluir que ela não pretendia, com sua declaração, assumir o nazireado propriamente dito, mas apenas evitar que continuassem a servir-lhe vinho. A situação concreta — uma pessoa embriagada, temerosa de beber mais — reinterpreta a linguagem do voto, que em circunstâncias normais geraria nazireado pleno.
Rambam distingue dois planos: a regra de que "sou nazireu a partir do vinho" gera nazireado pleno vale para uma pessoa em plena saúde e domínio de si; mas para quem está aflito, angustiado ou, como no caso da mishná, embriagado, a mesma frase não tem essa força, pois sua real intenção é apenas evitar aquele cálice específico que o preocupa — não consagrar-se como nazireu. Rambam recorre a essa mesma lógica para explicar por que a embriaguez, especificamente, altera a leitura da declaração.
Bartenura reforça a leitura de que a mishná pressupõe uma cláusula implícita sobre a embriaguez, e explica o mecanismo psicológico por trás do caso: a pessoa embriagada, temendo continuar bebendo, usa a linguagem do nazireado apenas como um recurso retórico para impedir que lhe sirvam mais vinho — sua intenção real é proibir aquele cálice específico sobre si mesma, como uma oferenda, e não consagrar-se ao nazireado bíblico completo, com todas as suas restrições de corte de cabelo e impureza.