Seder Nashim · Massechet Nazir · Perek Bet · Mishná 3 de 10

O cálice já misturado e o caso da mulher embriagada

מָזְגוּ לוֹ אֶת הַכּוֹס
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná passa de casos duvidosos a um caso simples e inequívoco: quem já tem um cálice de vinho misturado diante de si e diz "sou nazireu a partir dele" torna-se nazireu de fato. Um caso real, envolvendo uma mulher embriagada, mostra os sábios reinterpretando essa mesma linguagem à luz da situação concreta.

Misturaram para ele o cálice, e ele disse "sou nazireu a partir dele", eis que este é nazireu. Aconteceu com uma mulher que estava embriagada, e misturaram para ela o cálice, e ela disse "sou nazireia a partir dele"; disseram os sábios: ela não teve outra intenção senão dizer "eis que ele é para mim oferenda".No primeiro caso, uma pessoa comum, com pleno domínio de suas faculdades, vê diante de si um cálice de vinho já pronto para beber e declara "sou nazireu a partir dele": aqui não há ambiguidade nenhuma — ela está, sem dúvida, se referindo ao vinho, a fonte central de proibição do nazireado, e o voto recai sobre ela por completo, tornando-a nazireia genuína. O segundo caso relata um episódio real: uma mulher embriagada, a quem serviram um cálice, disse a mesma frase — "sou nazireia a partir dele". Os sábios, avaliando a situação concreta, concluíram que sua verdadeira intenção não era assumir o nazireado completo, mas apenas evitar que lhe servissem mais vinho: temendo o excesso, ela quis dizer, na prática, que aquele cálice ficaria proibido para si como se fosse uma oferenda — um voto de proibição de alimento, e não de nazireado.

מָזְגוּ לוֹ אֶת הַכּוֹס, וְאָמַר הֲרֵינִי נָזִיר מִמֶּנוּ, הֲרֵי זֶה נָזִיר. מַעֲשֶׂה בְאִשָּׁה אַחַת שֶׁהָיְתָה שִׁכּוֹרָה וּמָזְגוּ לָהּ אֶת הַכּוֹס, וְאָמְרָה הֲרֵינִי נְזִירָה מִמֶּנּוּ, אָמְרוּ חֲכָמִים, לֹא נִתְכַּוְּנָה אֶלָּא לוֹמַר הֲרֵי הוּא עָלַי קָרְבָּן:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Diferentemente dos casos anteriores, aqui não há disputa entre Bet Shamai e Bet Hilel: a linguagem do voto corresponde exatamente à substância que a Torá identifica como o núcleo do nazireado — o vinho.

Bemidbar (Números) 6:3
מִיַּיִן וְשֵׁכָר יַזִּיר, חֹמֶץ יַיִן וְחֹמֶץ שֵׁכָר לֹא יִשְׁתֶּה
De vinho e de bebida forte se abster; vinagre de vinho e vinagre de bebida forte não beberá.

Quando a pessoa aponta diretamente para o vinho e diz "sou nazireu a partir dele", ela está usando exatamente a linguagem que a Torá reconhece como voto de nazireado — por isso todos concordam que ela se torna nazireia de fato. O caso da mulher embriagada não contradiz esse princípio; ele apenas mostra que a mesma frase pode ter outro sentido quando o contexto revela que a intenção real da pessoa era diferente — evitar mais vinho, e não consagrar-se como nazireia.

Halachot · הֲלָכוֹת

Quem diz "sou nazireu a partir do vinho" diante de um cálice já servido torna-se nazireu; mas se disser isso em estado de embriaguez, avalia-se sua real intenção, que pode ser apenas proibir aquele cálice sobre si, e não assumir o nazireado.

Bartenura · Nazir 2:3
מתניתין חסורי מחסרא והכי קתני, אם היה שכור ואמר הריני נזיר ממנו, אינו נזיר, שלא היה דעתו אלא לאסור אותו הכוס עליו בלבד

Bartenura explica que a mishná está incompleta em sua formulação literal e deve ser lida com uma cláusula implícita: se a pessoa que fez a declaração estava embriagada, ela não se torna nazireia, pois sua intenção não era assumir o nazireado, mas apenas proibir aquele cálice específico sobre si — evitando, com essa linguagem, que lhe servissem outro. O caso da mulher embriagada relatado na mishná vem exemplificar exatamente essa regra.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi, Rambam e Bartenura sobre a mishná.

Rashi · רש״י
Nazir 11a, s.v. מתני' אמרו חכמים
כיון דשיכורה היא ואינה זקוקה לשתיה נראין הדברים שלא נתכוונה זו לקבל עליה זה לשם נזירות אלא כדי שלא ישקוה עוד

Rashi explica o raciocínio dos sábios: como a mulher estava embriagada e, portanto, não precisava de mais bebida, é razoável concluir que ela não pretendia, com sua declaração, assumir o nazireado propriamente dito, mas apenas evitar que continuassem a servir-lhe vinho. A situação concreta — uma pessoa embriagada, temerosa de beber mais — reinterpreta a linguagem do voto, que em circunstâncias normais geraria nazireado pleno.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nazir 2:3
אין הדין במה שקדם אלא באדם בריא אבל במי שנאנח ודואג לא לפי שהוא לא כוון אלא שלא ישתה זה שאנו נזקקין עליו כדי שתסיר אנחתו

Rambam distingue dois planos: a regra de que "sou nazireu a partir do vinho" gera nazireado pleno vale para uma pessoa em plena saúde e domínio de si; mas para quem está aflito, angustiado ou, como no caso da mishná, embriagado, a mesma frase não tem essa força, pois sua real intenção é apenas evitar aquele cálice específico que o preocupa — não consagrar-se como nazireu. Rambam recorre a essa mesma lógica para explicar por que a embriaguez, especificamente, altera a leitura da declaração.

Bartenura · רע"ב
Nazir 2:3
אם היה שכור ואמר הריני נזיר ממנו, אינו נזיר, שלא היה דעתו אלא לאסור אותו הכוס עליו בלבד, וכי היכי דלא ליתי ליה כוס אחרינא אמר הריני נזיר

Bartenura reforça a leitura de que a mishná pressupõe uma cláusula implícita sobre a embriaguez, e explica o mecanismo psicológico por trás do caso: a pessoa embriagada, temendo continuar bebendo, usa a linguagem do nazireado apenas como um recurso retórico para impedir que lhe sirvam mais vinho — sua intenção real é proibir aquele cálice específico sobre si mesma, como uma oferenda, e não consagrar-se ao nazireado bíblico completo, com todas as suas restrições de corte de cabelo e impureza.