Seder Moed · Massechet Moed Katan · Perek Guimel · Mishná 8 de 9

O leito na rua e o bater de palmas das mulheres

אֵין מַנִּיחִין אֶת הַמִּטָּה בָּרְחוֹב
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná restringe dois costumes de luto público que poderiam se tornar excessivos ou impróprios se praticados livremente: o leito do falecido exposto na rua, e o bater de palmas das mulheres carpideiras.

Não se deixa o leito na rua, para que não se torne costumeiro o elogio fúnebre; e nunca o leito de uma mulher, por respeito. As mulheres cantam lamentos no Chol HaMoed, mas não batem palmas. Rabi Ishmael diz: as que estão próximas do leito batem palmas.Deixar o leito com o corpo do falecido parado na rua por tempo prolongado atrairia multidões para o elogio fúnebre público, um gesto que a mishná já identificou, no capítulo anterior, como incompatível com a alegria do Chol HaMoed — por isso a prática é proibida, para que não se torne hábito recorrente. No caso de uma mulher falecida, a proibição é ainda mais absoluta, sem exceção, por respeito à sua dignidade, evitando a exposição pública prolongada do corpo. Quanto às carpideiras, o canto de lamentos — uma prática vocal, mais discreta — permanece permitido mesmo no Chol HaMoed, mas o gesto físico de bater palmas, mais chamativo e associado ao elogio fúnebre formal, é proibido. Rabi Ishmael suaviza essa proibição para as mulheres que já estão fisicamente próximas ao leito no momento do enterro, permitindo-lhes esse gesto de dor mais imediata.

אֵין מַנִּיחִין אֶת הַמִּטָּה בָּרְחוֹב, שֶׁלֹּא לְהַרְגִּיל אֶת הַהֶסְפֵּד, וְלֹא שֶׁל נָשִׁים לְעוֹלָם, מִפְּנֵי הַכָּבוֹד. נָשִׁים בַּמּוֹעֵד מְעַנּוֹת, אֲבָל לֹא מְטַפְּחוֹת. רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר, הַסְּמוּכוֹת לַמִּטָּה, מְטַפְּחוֹת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Bamidbar (Números) 20:1
וַתָּמׇת שָׁם מִרְיָם, וַתִּקָּבֵר שָׁם
E morreu ali Miriam, e ali foi sepultada.

A tradição observa que a Torá relata a morte e o sepultamento de Miriam quase na mesma respiração — "morreu ali... e ali foi sepultada" —, sem qualquer intervalo narrativo entre os dois eventos, e dessa justaposição deriva o princípio geral de que a sepultura deve seguir a morte o mais rapidamente possível, sem demora desnecessária. É esse mesmo princípio que fundamenta a proibição de deixar o leito do falecido exposto na rua por tempo prolongado: quanto mais o corpo permanece à vista pública, mais se distancia do ideal bíblico de sepultamento imediato, e mais se aproxima do espetáculo público que a mishná deseja evitar no Chol HaMoed.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam esclarece o alcance da proibição sobre o leito de uma mulher, e confirma que a halachá não segue Rabi Ishmael.

Rambam · Perush HaMishná, Moed Katan 3:8
וְלֹא שֶׁל נָשִׁים לְעוֹלָם — רְצוֹנוֹ לוֹמַר לֹא בַּמּוֹעֵד וְלֹא בְּחֹל. וְשֶׁל אִישׁ אָסְרוּ אוֹתוֹ בַּמּוֹעֵד בִּלְבַד, שֶׁלֹּא לְהַרְגִּיל אֶת הַהֶסְפֵּד בַּמּוֹעֵד, וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יִשְׁמָעֵאל.
A palavra "nunca", aplicada ao leito de uma mulher, significa literalmente em qualquer época — tanto no Chol HaMoed quanto em dia comum —, ao passo que a proibição do leito de um homem vale apenas no Chol HaMoed, por causa do risco específico de banalizar o elogio fúnebre durante a festa. E a halachá não acompanha a posição mais permissiva de Rabi Ishmael quanto ao bater de palmas.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica o motivo do respeito devido à mulher falecida e o verbo técnico do bater de palmas; Rashi confirma a leitura da Guemará sobre o costume histórico dos leitos de prata e ouro.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Moed Katan 3:8
וְשֶׁל אִישׁ אָסְרוּ אוֹתוֹ בַּמּוֹעֵד בִּלְבַד, עַל דֶּרֶךְ שֶׁאָמַרְנוּ בְּפֶרֶק רִאשׁוֹן.

Rambam remete de volta ao Perek Alef, onde o princípio de não banalizar o elogio fúnebre durante os dias intermediários da festa já havia sido estabelecido — mostrando que esta mishná, ao final do tratado, retoma e aplica um fio condutor que percorre toda a obra desde seu início.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Moed Katan 3:8
אֵין מַנִּיחִין אֶת הַמִּטָּה. שֶׁל מֵת, בָּרְחוֹב, בַּמּוֹעֵד. לְעוֹלָם. אֲפִלּוּ בְּחֹל, דִּכְתִיב וַתָּמׇת שָׁם מִרְיָם וַתִּקָּבֵר שָׁם, סָמוּךְ לְמִיתָה קְבוּרָה. מְטַפְּחוֹת. מְסַפְּקוֹת כַּף אֶל כַּף.

Bartenura conecta diretamente a proibição ao versículo sobre Miriam, confirmando que o princípio de sepultar logo após a morte é o que fundamenta a proibição de deixar qualquer leito parado na rua. E define o verbo técnico "metapchot" com precisão: significa bater uma palma contra a outra — o gesto físico visível que se distingue do simples canto vocal do lamento, permitido mesmo às demais mulheres.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Moed Katan 27a
אֵין מַנִּיחִין מִטָּה בַּמּוֹעֵד בָּרְחוֹב — לְהַסְפִּידוֹ. וְלֹא שֶׁל נָשִׁים לְעוֹלָם — שֶׁשּׁוֹפְעוֹת זִיבָה.

Rashi acrescenta um motivo adicional e prático para a proibição absoluta sobre o leito de uma mulher: além do respeito geral devido a ela, há a preocupação específica com o fluxo de sangue que pode ocorrer no corpo após a morte — uma consideração de dignidade que reforça, e não substitui, o princípio geral já estabelecido a partir do versículo de Miriam.