Seder Moed · Massechet Moed Katan · Perek Guimel · Mishná 7 de 9

Rasgar as vestes e consolar o enlutado no Chol HaMoed

אֵין קוֹרְעִין וְלֹא חוֹלְצִין וְאֵין מַבְרִין
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná passa das regras de anulação do luto às práticas concretas de luto e consolo no próprio Chol HaMoed: quais gestos de dor pública são restritos, e como a comunidade ainda assim consola o enlutado.

Não se rasgam as vestes, nem se descobre o ombro, nem se recebe a primeira refeição, senão os parentes do falecido; e não se recebe a primeira refeição senão sobre um leito ereto. Não se leva à casa do luto nem em bandeja, nem em travessa, nem em cesto de vime, senão em cestos comuns. E não se diz a bênção dos enlutados no Chol HaMoed, mas os visitantes ficam de pé em fileira, consolam, e depois liberam a multidão.No Chol HaMoed, os gestos públicos mais intensos de luto — rasgar as próprias vestes, descobrir o ombro em sinal de dor — ficam restritos apenas aos parentes mais próximos do falecido, e não a qualquer pessoa comovida. A primeira refeição, que os vizinhos preparam para o enlutado por ele estar proibido de comer da própria comida no primeiro dia, também é reservada aos parentes, e servida com os visitantes sentados em leitos eretos — não nos leitos virados de cabeça para baixo que marcariam visivelmente o luto em dias comuns. A comida levada à casa do luto deve ser transportada em cestos simples, não em recipientes finos de prata ou vidro que ostentariam riqueza diante dos visitantes mais pobres. E a fórmula ritual pública da "bênção dos enlutados" — recitada em dias comuns na praça — é omitida no Chol HaMoed, mas o gesto essencial de consolo permanece: os visitantes formam uma fileira diante do enlutado, oferecem suas palavras de conforto, e então são liberados para seguir seu caminho.

אֵין קוֹרְעִין, וְלֹא חוֹלְצִין, וְאֵין מַבְרִין, אֶלָּא קְרוֹבָיו שֶׁל מֵת, וְאֵין מַבְרִין אֶלָּא עַל מִטָּה זְקוּפָה. אֵין מוֹלִיכִין לְבֵית הָאֵבֶל לֹא בְּטַבְלָא וְלֹא בְאִסְקוּטְלָא וְלֹא בְקָנוֹן, אֶלָּא בְסַלִּים. וְאֵין אוֹמְרִים בִּרְכַּת אֲבֵלִים בַּמּוֹעֵד, אֲבָל עוֹמְדִין בְּשׁוּרָה וּמְנַחֲמִין וּפוֹטְרִין אֶת הָרַבִּים:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikrá (Levítico) 10:6
וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה אֶל אַהֲרֹן וּלְאֶלְעָזָר וּלְאִיתָמָר בָּנָיו, רָאשֵׁיכֶם אַל תִּפְרָעוּ וּבִגְדֵיכֶם לֹא תִפְרֹמוּ, וְלֹא תָמֻתוּ וְעַל כׇּל הָעֵדָה יִקְצֹף
E disse Moisés a Aarão, e a Eleazar e a Itamar, seus filhos: Não descubrais as vossas cabeças, nem rasgueis as vossas vestes, para que não morrais, e para que não se ire contra toda a congregação; mas vossos irmãos, toda a casa de Israel, lamentarão o incêndio que o Senhor acendeu.

A tradição deriva a obrigação de rasgar as vestes precisamente deste versículo: ao proibir Aarão e seus filhos — que, como sacerdotes em serviço, não podiam se contaminar com o luto naquele momento — de rasgar suas próprias vestes, a Torá implica que todo o resto de Israel, "toda a casa de Israel", de fato as rasgou diante da morte de Nadav e Avihu. Esse mesmo versículo é a fonte da regra que a mishná aplica agora: o gesto de kriá pertence, por natureza, apenas aos parentes próximos do falecido — assim como só os parentes de Nadav e Avihu tinham a obrigação de rasgar, enquanto Aarão e Elazar, embora pais e irmão, foram excepcionalmente dispensados por seu papel sacerdotal.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam detalha quem se qualifica como "parente" para efeito da obrigação de rasgar as vestes, e distingue as regras conforme o grau de parentesco.

Rambam · Perush HaMishná, Moed Katan 3:7
וּקְרוֹבָיו הֵם הַחַיָּבִין בַּאֲבֵלוּת, וְהֵם הָאַחִים כֻּלָּם בֵּין זְכָרִים בֵּין נְקֵבוֹת, בֵּין שֶׁבָּאוּ מֵאֵם בֵּין שֶׁבָּאוּ מֵאָב, וְהַבָּנִים בֵּין זְכָרִים בֵּין נְקֵבוֹת, וְהַבַּעַל וְהָאָבוֹת וְהָאִשָּׁה — אֵלּוּ כֻּלָּם חַיָּבִין בַּאֲבֵלוּת קְצָתָם עַל קְצָתָם.
Os "parentes" cuja obrigação de luto autoriza o rasgo das vestes mesmo no Chol HaMoed são: os irmãos, tanto homens quanto mulheres, sejam do mesmo pai ou da mesma mãe; os filhos, homens ou mulheres; o marido; os pais; e a esposa — um círculo definido de sete relações, cada uma obrigada a observar luto pela outra.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha a diferença entre o rasgo por um pai ou mestre e o rasgo por outros parentes, e o motivo dos cestos simples; Rashi confirma o sentido dos leitos eretos e da fórmula de liberação da multidão.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Moed Katan 3:7
וְכׇל הָעוֹמֵד בִּשְׁעַת נְטִילַת נְשָׁמָה חַיָּב לִקְרֹעַ. וּטְבַלָּא וְאִסְקוּטְלָא וְקָנוֹן הֵם כֵּלִים חֲשׁוּבִים כְּמוֹ כְּלֵי כֶסֶף וְדוֹמֵיהֶם, לְפִי שֶׁאֵינָן מְצוּיִין אֵצֶל הָעֲנִיִּים וְיִתְבַּיְּשׁוּ.

Rambam acrescenta uma obrigação independente do grau de parentesco: qualquer pessoa presente no exato momento em que a alma de outro judeu se separa do corpo é obrigada a rasgar suas vestes, mesmo que não seja parente. Sobre os recipientes proibidos para levar comida à casa do luto, explica que "tavla", "iskutla" e "kanon" são todos utensílios refinados como os de prata — e sua proibição visa evitar que os visitantes mais pobres, sem acesso a tais recipientes, se sintam envergonhados diante dos mais ricos.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Moed Katan 3:7
אֲבָל עַל אָבִיו וְעַל אִמּוֹ וְעַל רַבּוֹ שֶׁלִּמְּדוֹ תוֹרָה קוֹרֵעַ וַאֲפִלּוּ לְאַחַר שִׁבְעָה, וְקוֹרֵעַ כׇּל בְּגָדָיו עַד שֶׁיִּתְגַּלֶּה לִבּוֹ... וְאֵינוֹ מְאַחֶה לְעוֹלָם. אֲבָל עַל שְׁאָר קְרוֹבָיו קוֹרֵעַ טֶפַח מִן הַבֶּגֶד הָעֶלְיוֹן לְבַד... וּמְאַחֶה לְאַחַר שְׁלֹשִׁים.

Bartenura traça uma distinção nítida dentro da própria obrigação de rasgar: por um pai, uma mãe, ou um mestre que ensinou Torá, o rasgo é mais profundo — toda a roupa, até expor o coração, feito à mão sem instrumento, nunca costurado de volta — e pode ocorrer mesmo depois dos primeiros sete dias. Por qualquer outro parente da lista, basta rasgar um palmo da veste superior, podendo usar uma ferramenta, e a costura pode ser refeita após trinta dias — refletindo a gravidade proporcionalmente menor desses lutos.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Moed Katan 24b, 27a
עַל מִטָּה זְקוּפָה — יוֹשְׁבִין הַמְּנַחֲמִין. חוֹלְצִין — כְּתֵפֵיהֶן. פּוֹטְרִין אֶת הָרַבִּים — שֶׁאוֹמְרִים לַמְּנַחֲמִין, לְכוּ לְבָתֵּיכֶם.

Rashi esclarece que "leito ereto" refere-se à posição em que os próprios consoladores se sentam durante a refeição de recuperação, e que "descobrir" refere-se especificamente aos ombros, um gesto de dor que a mishná restringe aos parentes. Sobre a fórmula final da mishná, explica que "liberam a multidão" significa que, ao final do momento de consolo, os próprios visitantes dizem uns aos outros para retornarem às suas casas — encerrando formalmente a visita sem a bênção ritual que marcaria dias comuns.