Seder Moed · Massechet Moed Katan · Perek Guimel · Mishná 9 de 9 (última do tratado)

O lamento, a canção e a promessa do fim da morte

בְּרָאשֵׁי חֳדָשִׁים בַּחֲנֻכָּה וּבְפוּרִים מְעַנּוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná final do tratado distingue as duas formas do canto fúnebre feminino, define com precisão cada uma, e termina — encerrando não apenas o capítulo, mas todo o tratado — com a promessa profética de que a própria morte um dia deixará de existir.

Em Rosh Chodesh, em Chanucá e em Purim, cantam-se lamentos e batem-se palmas, em ambos os casos, mas não se entoam elegias. Se o morto já foi sepultado, não se cantam lamentos nem se batem palmas. O que é "inui"? Quando todas respondem juntas. "Kiná" é quando uma fala e todas respondem depois dela, como está dito: "E ensinai vossas filhas o lamento, e cada mulher à sua próxima a elegia." Mas, para o futuro, está dito: "Ele consumirá a morte para sempre, e o Senhor Deus enxugará as lágrimas de todos os rostos."Diferente do Chol HaMoed, os dias de meia-festividade como Rosh Chodesh, Chanucá e Purim permitem tanto o canto quanto o bater de palmas — as duas formas de luto que a mishná anterior havia distinguido —, mas ainda proíbem a elegia formal e estruturada, o gênero literário mais elaborado do lamento fúnebre. E, uma vez que o morto já foi sepultado, cessa toda expressão pública de luto, pois seu propósito — homenagear o corpo antes do sepultamento — já se cumpriu. A mishná então define tecnicamente os dois gêneros vocais: o "inui" é um lamento coletivo, em que todas as mulheres cantam juntas em uníssono; a "kiná" é um lamento antifonal e mais elaborado, em que uma mulher canta os versos e as demais respondem em coro — a estrutura que o profeta Yirmiyahu descreve ao convocar as mulheres a ensinar essa arte às suas filhas. E o tratado inteiro, dedicado em tantas de suas páginas às leis do luto, escolhe encerrar-se com a promessa oposta e definitiva do profeta Yeshayahu: que chegará um tempo em que a própria morte será eliminada para sempre, e não haverá mais lágrima alguma a enxugar.

בְּרָאשֵׁי חֳדָשִׁים, בַּחֲנֻכָּה וּבְפוּרִים, מְעַנּוֹת, וּמְטַפְּחוֹת בָּזֶה וּבָזֶה, אֲבָל לֹא מְקוֹנְנוֹת. נִקְבַּר הַמֵּת, לֹא מְעַנּוֹת וְלֹא מְטַפְּחוֹת. אֵיזֶהוּ עִנּוּי, שֶׁכֻּלָּן עוֹנוֹת כְּאֶחָת. קִינָה, שֶׁאַחַת מְדַבֶּרֶת וְכֻלָּן עוֹנוֹת אַחֲרֶיהָ, שֶׁנֶּאֱמַר, וְלַמֵּדְנָה בְנֹתֵיכֶם נֶהִי, וְאִשָּׁה רְעוּתָהּ קִינָה. אֲבָל לֶעָתִיד לָבֹא הוּא אוֹמֵר, בִּלַּע הַמָּוֶת לָנֶצַח, וּמָחָה ה׳ אֱלֹהִים דִּמְעָה מֵעַל כׇּל פָּנִים וְגוֹ׳:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Yeshayahu (Isaías) 25:8
בִּלַּע הַמָּוֶת לָנֶצַח, וּמָחָה אֲדֹנָי ה׳ דִּמְעָה מֵעַל כׇּל פָּנִים, וְחֶרְפַּת עַמּוֹ יָסִיר מֵעַל כׇּל הָאָרֶץ, כִּי ה׳ דִּבֵּר
Ele consumirá a morte para sempre, e o Senhor Deus enxugará as lágrimas de todos os rostos; e tirará de toda a terra a humilhação do seu povo; porque o Senhor o disse.

A mishná, e com ela todo o tratado, escolhe fechar com este versículo de Yeshayahu — não uma lei adicional, mas uma promessa escatológica que inverte tudo o que veio antes. Depois de tantas páginas dedicadas às leis do luto, do rasgo das vestes ao lamento cantado, a última palavra do tratado aponta para além da lei: um tempo futuro em que a própria morte, origem de todo o luto que a mishná regulamentou com tanto detalhe, será definitivamente eliminada — e as lágrimas que o inui e a kiná expressam hoje não terão mais razão de ser.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam não acrescenta comentário independente a esta mishná final em seu Perush HaMishná — a explicação técnica já está completa nas mishnayot anteriores. Bartenura fecha o tratado explicando a citação de Yirmiyahu e o motivo de encerrar com a promessa de Yeshayahu.

Bartenura · Comentário à Mishná, Moed Katan 3:9
וְאִשָּׁה רְעוּתָהּ קִינָה. וּמִדִּכְתִיב וְלַמֵּדְנָה, אַלְמָא קִינָה אַחַת אוֹמֶרֶת וַחֲבֶרְתָּהּ עוֹנָה. אֲבָל לֶעָתִיד לָבֹא אוֹמֵר בִּלַּע הַמָּוֶת לָנֶצַח, שֶׁיְּבַלַּע הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֶת הַמָּוֶת, וְכֻלָּן עוֹנוֹת שִׁירָה, שֶׁאֵין מִיתָה וְאֵין דִּמְעָה.
Bartenura extrai a estrutura técnica da kiná da própria palavra "ולמדנה" (ensinai) no versículo de Yirmiyahu — dela se aprende que uma mulher canta o verso principal e sua companheira responde, um formato de ensino que pressupõe uma estrutura de chamada e resposta. E, ao explicar o versículo final de Yeshayahu, esclarece o motivo de terminar exatamente aqui: no futuro, o Santo, bendito seja, eliminará a própria morte, e todas as vozes que hoje entoam lamento passarão a entoar canção, pois não haverá mais morte nem lágrima alguma.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha a distinção técnica entre inui e kiná; Rashi, que considera esta mishná autoexplicativa e não a comenta palavra por palavra, preserva na Guemará seguinte os próprios versos de lamento cantados pelas mulheres de Shachnetziv — testemunho vivo da arte que a mishná acabou de descrever.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Moed Katan 3:9
אֵיזֶהוּ עִנּוּי, שֶׁכֻּלָּן עוֹנוֹת כְּאֶחָת. קִינָה, שֶׁאַחַת מְדַבֶּרֶת וְכֻלָּן עוֹנוֹת אַחֲרֶיהָ.

Bartenura confirma a definição literal da própria mishná: o "inui" é um canto uníssono, em que todas as vozes femininas se unem na mesma frase ao mesmo tempo — uma expressão coletiva e simultânea de dor. A "kiná", por sua vez, é estruturalmente mais complexa: uma única voz principal canta o verso, e o coro de mulheres responde depois dela, verso após verso, num padrão de chamada e resposta que permite composições mais longas e elaboradas, como as que a Guemará preserva na sequência.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Moed Katan 28b
נְשֵׁי דְשַׁכְנְצִיב אֲמַרַן הָכִי: וַיי לְאָזְלָא, וַיי לַחֲבִילָא.

Rashi não julga necessário glosar palavra por palavra esta mishná final, cujo sentido considera suficientemente claro — mas, na Guemará que se segue imediatamente, registra e explica os próprios versos de lamento que as mulheres da cidade de Shachnetziv costumavam cantar, preservando um fragmento vivo e concreto exatamente da prática que a mishná acabou de descrever em termos técnicos: a voz que canta, e as vozes que respondem.

סְלִיק מַסֶּכְתָּא דְּמוֹעֵד קָטָן
Aqui se conclui Massechet Moed Katan — o décimo primeiro tratado de Seder Moed, dedicado aos trabalhos permitidos e proibidos nos dias intermediários da festa e às leis do luto. O Perek Guimel, último do tratado, com nove mishnayot, tratou das regras finais que fecham o tratado: a lista de quem pode cortar o cabelo no Chol HaMoed por não ter tido oportunidade antes da festa (3:1); a mesma lista aplicada à lavagem de roupas, com o acréscimo das toalhas de uso constante e de quem sai da impureza para a pureza (3:2); os documentos que se escrevem no Chol HaMoed por urgência genuína, do casamento ao prosbul (3:3); a nota promissória proibida por padrão, e a disputa sobre copiar textos sagrados para uso próprio (3:4); a regra de como a proximidade de uma festa anula os períodos de luto em curso (3:5); a disputa sobre se Shavuot, Rosh HaShaná e Yom Kipur interrompem o luto como as festas de peregrinação ou apenas somam a ele como o Shabat (3:6); as práticas de luto e consolo restritas aos parentes próximos no Chol HaMoed (3:7); as restrições ao leito na rua e ao bater de palmas das carpideiras (3:8); e, nesta última mishná, a distinção entre inui e kiná, encerrando com a promessa profética do fim da morte (3:9).

Massechet Moed Katan percorreu, ao longo de seus três capítulos e vinte e quatro mishnayot, o equilíbrio delicado entre o repouso da festa e as necessidades reais da vida: o Perek Alef estabeleceu os trabalhos agrícolos e domésticos permitidos por evitarem prejuízo genuíno, e introduziu os temas do luto e da alegria; o Perek Bet examinou os prejuízos inesperados às vésperas da festa — azeite, vinho, frutos, linho, compras e comércio — sempre sob a condição de que ninguém planeje deliberadamente o trabalho para o Chol HaMoed; e este Perek Guimel, por fim, reuniu as leis do corpo — cabelo e roupa —, dos documentos escritos, e sobretudo do luto, culminando na promessa de que a própria morte, um dia, deixará de existir. Por possuir Guemará no Talmud Bavli, cada mishná deste tratado reuniu, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva folha do Talmud.

Com o encerramento deste tratado, o estudo da Mishná prossegue para o restante de Seder Moed e para as demais ordens, somando-se aos tratados já concluídos de Shabat, Eruvin, Pessachim, Shekalim, Yoma, Sucá, Beitzá, Rosh Hashaná, Taanit, Meguilá e agora Moed Katan.