Seder Moed · Massechet Moed Katan · Perek Guimel · Mishná 6 de 9

Shavuot é como Shabat ou como as festas?

מִשֶּׁחָרַב בֵּית הַמִּקְדָּשׁ, עֲצֶרֶת כְּשַׁבָּת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná estende a regra anterior a Shavuot, Rosh HaShaná e Yom Kipur, com uma disputa de três posições sobre se cada um funciona, para efeito de luto, como Shabat — que soma sem interromper — ou como uma festa de peregrinação — que interrompe sem somar.

Rabi Eliezer diz: desde que o Templo foi destruído, Atzeret [Shavuot] é como Shabat. Rabán Gamliel diz: Rosh HaShaná e Yom Kipur são como as festas de peregrinação. E os Sábios dizem: nem como as palavras deste, nem como as palavras daquele, mas Atzeret é como as festas de peregrinação, e Rosh HaShaná e Yom Kipur são como Shabat.Enquanto o Templo existia, quem não conseguia trazer sua oferenda de Chagigá no primeiro dia de Shavuot podia compensar durante os sete dias seguintes, tornando a festa, para efeitos práticos, semelhante em duração às festas de sete dias de Pessach e Sucot. Rabi Eliezer sustenta que, com a destruição do Templo e o fim dessa compensação, Shavuot voltou a ser, na prática, um único dia — e por isso, quanto ao luto, funciona apenas como o Shabat, somando um dia à contagem sem interromper o restante. Rabán Gamliel argumenta na direção oposta quanto a Rosh HaShaná e Yom Kipur: por serem dias de tamanha santidade e transformação espiritual, equiparam-se às festas de peregrinação também para efeito de interromper o luto. Os Sábios rejeitam ambas as posições extremas e propõem uma distinção diferente: Shavuot, por ser uma festa de peregrinação genuína mesmo com um único dia, interrompe o luto como Pessach e Sucot; já Rosh HaShaná e Yom Kipur, que não são festas de peregrinação, equiparam-se apenas ao Shabat.

רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, מִשֶּׁחָרַב בֵּית הַמִּקְדָּשׁ, עֲצֶרֶת כְּשַׁבָּת. רַבָּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר, רֹאשׁ הַשָּׁנָה וְיוֹם הַכִּפּוּרִים, כָּרְגָלִים. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, לֹא כְדִבְרֵי זֶה וְלֹא כְדִבְרֵי זֶה, אֶלָּא עֲצֶרֶת כָּרְגָלִים, רֹאשׁ הַשָּׁנָה וְיוֹם הַכִּפּוּרִים כְּשַׁבָּת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 16:10
וְעָשִׂיתָ חַג שָׁבֻעֹת לַה׳ אֱלֹהֶיךָ, מִסַּת נִדְבַת יָדְךָ אֲשֶׁר תִּתֵּן כַּאֲשֶׁר יְבָרֶכְךָ ה׳ אֱלֹהֶיךָ
E celebrarás a festa das Semanas ao Senhor teu Deus, com a contribuição voluntária da tua mão, que darás conforme o Senhor teu Deus te tiver abençoado.

A Torá chama Shavuot de "chag" — a mesma palavra usada para Pessach e Sucot —, colocando-a formalmente entre as três festas de peregrinação, apesar de sua duração de um único dia diferir da semana inteira das outras duas. É exatamente essa tensão entre a categoria de "festa de peregrinação" e a duração de apenas um dia que gera a disputa da mishná: enquanto havia compensação no Templo ao longo de sete dias, essa diferença de duração era irrelevante para o luto; sem ela, Rabi Eliezer sustenta que a duração real prevalece, os Sábios sustentam que a categoria bíblica de "chag" prevalece — e a halachá segue os Sábios.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam confirma que a halachá segue a posição intermediária dos Sábios, aplicada tanto a Rosh HaShaná e Yom Kipur quanto a Sucot.

Rambam · Perush HaMishná, Moed Katan 3:6
הֲלָכָה כַּחֲכָמִים בְּאׇמְרָם עֲצֶרֶת כָּרְגָלִים, וּכְרַבָּן גַּמְלִיאֵל בְּאׇמְרוֹ רֹאשׁ הַשָּׁנָה וְיוֹם הַכִּפּוּרִים כָּרְגָלִים — פֵּרוּשׁ, כְּשַׁבָּת.
A halachá segue os Sábios, que consideram Atzeret (Shavuot) como as festas de peregrinação para efeito de interromper o luto — e, quanto a Rosh HaShaná e Yom Kipur, também segue essencialmente a posição dos Sábios, que os equipara ao Shabat, apenas somando dias à contagem sem interrompê-la por completo.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica o raciocínio histórico de Rabi Eliezer sobre a compensação no Templo; Rashi confirma a mesma leitura a partir da Guemará.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Moed Katan 3:6
וּכְשֶׁקּוֹבֵר אָדָם מֵתוֹ אֲפִלּוּ שָׁעָה אַחַת קֹדֶם חַג הַמַּצּוֹת, בָּטְלָה מִמֶּנּוּ גְּזֵרַת שִׁבְעָה, וְשִׁבְעַת יְמֵי הֶחָג נֶחְשָׁבִין, וְיֶחְשֹׁב אַחַר הָרֶגֶל שִׁשָּׁה עָשָׂר יוֹם לְהַשְׁלִים שְׁלֹשִׁים יוֹם.

Rambam ilustra a aplicação prática da regra com um cálculo detalhado: se alguém enterra seu morto mesmo uma hora antes de Pessach, o luto intenso já se anula, e os sete dias da própria festa contam como se fossem os sete dias de luto — restando apenas dezesseis dias adicionais depois da festa para completar os trinta. O mesmo raciocínio, ajustado à duração de cada ocasião, aplica-se a Shavuot, Sucot, Rosh HaShaná e Yom Kipur, segundo a categoria que a halachá atribui a cada uma.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Moed Katan 3:6
מִשֶּׁחָרַב בֵּית הַמִּקְדָּשׁ. דְּאֵין לַעֲצֶרֶת תַּשְׁלוּמִין כׇּל שִׁבְעָה לְקׇרְבָּן, בָּטְלָה לֵיהּ תּוֹרַת הָרֶגֶל וְהָוֵי כְּשַׁבָּת שֶׁאֵינָהּ מַפְסֶקֶת. אֲבָל בִּזְמַן הַמִּקְדָּשׁ, שֶׁמִּי שֶׁלֹּא חָג בְּיוֹם רִאשׁוֹן שֶׁל עֲצֶרֶת הָיָה חוֹגֵג וְהוֹלֵךְ כׇּל שִׁבְעָה כְּחַג הַמַּצּוֹת, הָיָה עֲצֶרֶת כְּחַג הַמַּצּוֹת אַף לְעִנְיַן אֲבֵלוּת.

Bartenura explica a lógica histórica por trás da posição de Rabi Eliezer: enquanto o Templo existia, quem não conseguia oferecer sua Chagigá no primeiro dia de Shavuot tinha até sete dias para compensar — assim como em Pessach — o que dava a Shavuot, na prática, o status pleno de uma festa de sete dias, inclusive para efeito de interromper o luto. Com a destruição do Templo e o fim dessa possibilidade de compensação, Rabi Eliezer sustenta que a lei de festa de peregrinação se perdeu, e Shavuot passou a valer, quanto ao luto, apenas como o Shabat, que soma seu único dia à contagem sem interromper o restante.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Moed Katan 19a
יוֹם אֶחָד לִפְנֵי עֲצֶרֶת וַעֲצֶרֶת — הֲרֵי כָּאן אַרְבָּעָה עָשָׂר, דְּעֲצֶרֶת חָשׁוּב כְּשִׁבְעָה, וְזֶהוּ יוֹם שֶׁלִּפְנֵי עֲצֶרֶת חָשׁוּב שִׁבְעָה, דְּסָבַר כִּי הַאי תַּנָּא דִּלְעֵיל דְּאָמַר אֲפִלּוּ יוֹם אֶחָד, אֲפִלּוּ שָׁעָה אַחַת.

Rashi cita um cálculo da Guemará que ilustra o alcance prático da posição de que Atzeret conta como as festas de peregrinação: se alguém enterra seu morto mesmo um único dia antes de Shavuot, esse dia sozinho já é considerado equivalente a sete dias de luto — pois a própria festa que se segue, contando como sete, some-se a ele —, totalizando quatorze dias de luto anulados de uma só vez, exatamente como qualquer outra festa de peregrinação.