Seder Moed · Massechet Moed Katan · Perek Alef · Mishná 3 de 10

Puxar água de árvore em árvore

מוֹשְׁכִים אֶת הַמַּיִם מֵאִילָן לְאִילָן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná continua o tema da irrigação, agora tratando do campo comum de árvores frutíferas — não sedento — e das sementes que nunca foram regadas antes da festa.

Rabi Eliezer ben Yaakov diz: puxa-se a água de uma árvore a outra, contanto que não se regue o campo todo. As sementes que não beberam antes do Chol HaMoed não se regam no Chol HaMoed. Mas os sábios permitem tanto isto quanto aquilo.Num campo plantado de árvores frutíferas, mesmo que não seja tecnicamente "sedento" a ponto de sofrer prejuízo imediato, é permitido conduzir a água que já está sob uma árvore até a árvore vizinha, pois esse pequeno desvio não representa esforço extra. Mas regar o campo inteiro, quando isso significa apenas conforto e não evita perda real, ultrapassa o que Rabi Eliezer ben Yaakov permite. Pela mesma lógica, sementes que nunca foram irrigadas antes da festa — que já cresciam apenas com a chuva — não sofrem prejuízo real se continuarem sem irrigação adicional durante o Chol HaMoed, e por isso ele as proíbe. Os sábios, porém, permitem regar tanto o campo inteiro quanto essas sementes, pois consideram que até o mero benefício, sem prejuízo iminente, justifica o trabalho nesses dias.

רַבִּי אֱלִיעֶזֶר בֶּן יַעֲקֹב אוֹמֵר, מוֹשְׁכִים אֶת הַמַּיִם מֵאִילָן לְאִילָן, וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יַשְׁקֶה אֶת כָּל הַשָּׂדֶה. זְרָעִים שֶׁלֹּא שָׁתוּ לִפְנֵי הַמּוֹעֵד, לֹא יַשְׁקֵם בַּמּוֹעֵד. וַחֲכָמִים מַתִּירִין בָּזֶה וּבָזֶה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 16:8
שֵׁשֶׁת יָמִים תֹּאכַל מַצּוֹת וּבַיּוֹם הַשְּׁבִיעִי עֲצֶרֶת לַה׳ אֱלֹהֶיךָ
Seis dias comerás pães ázimos, e no sétimo dia haverá assembleia solene para o Eterno, teu Deus.

A mesma raiz que fundamenta a mishná anterior segue operando aqui: os sábios receberam de Devarim 16:8 o critério para distinguir trabalho proibido de trabalho permitido no Chol HaMoed, e aqui esse critério se refina ao nível de detalhe — quanto de esforço, e para qual grau de benefício, é tolerado. Rabi Eliezer ben Yaakov aplica o critério de forma restritiva, limitando a permissão ao que evita prejuízo real; os sábios o aplicam de modo mais amplo, permitindo também a mera melhoria, desde que o esforço em si seja pequeno — puxar água já disponível de uma árvore a outra, sem cavar ou tirar água com esforço.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam fixa a halachá como a opinião de Rabi Eliezer ben Yaakov.

Rambam · Perush HaMishná, Moed Katan 1:3
וּזְרָעִים שֶׁלֹּא שָׁתוּ לִפְנֵי הַמּוֹעֵד לֹא יַשְׁקוּם בַּמּוֹעֵד, לְפִי שֶׁהֵם צְרִיכִים מַיִם רַבִּים... וַהֲלָכָה כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר בֶּן יַעֲקֹב.
Sementes que não beberam água antes do Chol HaMoed não se regam durante o Chol HaMoed, pois elas exigiriam água em grande quantidade, e já dissemos que tudo o que envolve esforço considerável é proibido de se fazer nesses dias. E a halachá segue Rabi Eliezer ben Yaakov, e não os sábios — a posição mais restritiva prevalece aqui, ao contrário de outras disputas do capítulo.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica por que, apesar da halachá seguir a opinião restritiva, um campo já úmido continua sendo exceção; Rashi liga esta mishná à discussão da Guemará sobre quem definiu a mishná anterior.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Moed Katan 1:3
מוֹשְׁכִין אֶת הַמַּיִם מֵאִילָן לְאִילָן הוּא שֶׁמּוֹשְׁכִין אֶת הַמַּיִם מֵעִקַּר אִילָן זֶה לְעִקַּר אִילָן אַחֵר. וְאִם הָיְתָה כָּל הַשָּׂדֶה מְטֻנֶּנֶת מֻתָּר לְהַשְׁקוֹתָהּ, כִּי אוֹתָהּ הַהַשְׁקָיָה אֵינָהּ נִרְאֵית בּוֹ.

"Puxar a água de árvore em árvore" significa conduzir a água que já está junto à raiz de uma árvore até a raiz de outra. E se o campo inteiro já estivesse encharcado — úmido a ponto de a irrigação adicional não se notar como um trabalho novo —, seria permitido regá-lo por completo, pois nesse caso a rega não constitui um esforço perceptível como trabalho proibido.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Moed Katan 1:3
מוּתָר לְהַשְׁקוֹתָהּ בַּמּוֹעֵד אֲפִלּוּ לְרַבִּי אֱלִיעֶזֶר בֶּן יַעֲקֹב, דְּכִזְרָעִים שֶׁשָּׁתוּ לִפְנֵי הַמּוֹעֵד דָּמוּ.

Uma ressalva importante: um campo úmido — cuja terra é praticamente lama — pode ser regado no Chol HaMoed mesmo segundo Rabi Eliezer ben Yaakov, pois esse tipo de solo se assemelha às sementes que já beberam água antes da festa; a irrigação, nesse caso, apenas continua um processo já em curso, e não inicia algo novo. É a continuidade do cuidado já dado ao campo, não um esforço adicional evitável, o que determina a permissão.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Moed Katan 6b
מַתְנִיתִין מוֹשְׁכִין הַמַּיִם מֵאִילָן לְאִילָן - דְּהָוֵי כִּשְׂדֵה בֵּית הַשְּׁלָחִין דְּפְסֵידָא יְתֵרָה אִיכָּא, אֲבָל לֹא יַשְׁקֶה אֶת הַשָּׂדֶה כֻּלָּהּ שְׂדֵה בֵּית הַבַּעַל.

Rashi esclarece que puxar a água de árvore em árvore se assemelha ao caso do campo sedento — onde há prejuízo real evitável —, mas regar o campo por inteiro se assemelha ao campo comum, onde não há esse prejuízo, apenas conforto. E sobre "os sábios permitem tanto isto quanto aquilo", Rashi identifica essa posição como a de Rabi Meir, já mencionada no início do tratado, que permite regar mesmo o campo comum a partir de uma fonte que ainda não jorrava antes — a posição mais permissiva entre as opiniões apresentadas no capítulo.