Seder Moed · Massechet Moed Katan · Perek Alef · Mishná 4 de 10

Caçar toupeiras e consertar a brecha do muro

צָדִין אֶת הָאִישׁוּת וְאֶת הָעַכְבָּרִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná passa da irrigação à proteção do campo contra pragas, e à manutenção emergencial de muros — sempre distinguindo o método usual, mais trabalhoso, do método alternativo e mais simples.

Caçam-se as toupeiras e os ratos do campo de árvores e do campo comum, de modo diferente do habitual, no Chol HaMoed e no ano sabático. Mas os sábios dizem: no campo de árvores, do modo habitual; e no campo comum, de modo diferente do habitual. E cobre-se a brecha no Chol HaMoed, e no ano sabático constrói-se do modo habitual.A toupeira e o rato são pragas que destroem raízes e plantações; caçá-los evita um prejuízo real, mas a mishná exige que se use um método diferente do habitual — menos elaborado — tanto no Chol HaMoed, por causa do esforço, quanto no ano sabático, para que não pareça um trabalho de cultivo da terra. Os sábios distinguem: no campo de árvores, onde o prejuízo é maior, permite-se caçar do modo normal, cavando uma cova e armando a armadilha; já no campo comum, onde o prejuízo é menor, exige-se o método alternativo. Quanto à brecha no muro, cobri-la empilhando pedras sem argamassa é permitido no Chol HaMoed, pois evita que estranhos ou animais entrem; mas reconstruí-la por completo, do modo normal, só é permitido no ano sabático — e mesmo assim apenas no muro do quintal, não no do jardim, onde a preocupação de furto é menor.

צָדִין אֶת הָאִישׁוּת וְאֶת הָעַכְבָּרִים מִשְּׂדֵה הָאִילָן וּמִשְּׂדֵה הַלָּבָן, שֶׁלֹּא כְדַרְכּוֹ, בַּמּוֹעֵד וּבַשְּׁבִיעִית. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, מִשְּׂדֵה הָאִילָן כְּדַרְכּוֹ, וּמִשְּׂדֵה הַלָּבָן שֶׁלֹּא כְדַרְכּוֹ. וּמְקָרִין אֶת הַפִּרְצָה בַּמּוֹעֵד, וּבַשְּׁבִיעִית בּוֹנֶה כְדַרְכּוֹ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikrá (Levítico) 11:42
כֹּל הוֹלֵךְ עַל גָּחוֹן וְכֹל הוֹלֵךְ עַל אַרְבַּע עַד כָּל מַרְבֵּה רַגְלַיִם לְכָל הַשֶּׁרֶץ הַשֹּׁרֵץ עַל הָאָרֶץ
Todo o que anda sobre o ventre, e todo o que anda sobre quatro, até todo o que tem muitos pés, entre todo réptil que se arrasta sobre a terra.

A Guemará (Moed Katan 6b) busca a fonte bíblica da própria natureza da "ishut" — a praga sem olhos mencionada na mishná — no verso de Jó 24:20, "o verme a saboreará", derivando dali que ela se decompõe assim que exposta à luz. Independentemente da identificação zoológica exata, a mishná trata essa criatura como uma ameaça real às raízes das árvores e à plantação — prejuízo suficiente para justificar a caça mesmo nos dias restritos do Chol HaMoed, dentro do mesmo princípio geral que rege todo o capítulo: o trabalho que evita perda é permitido, o que apenas melhora não é.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica os dois métodos de caça e por que o muro do jardim recebe tratamento mais leniente que o do quintal.

Rambam · Perush HaMishná, Moed Katan 1:4
וְאָמְרָם כְּדַרְכּוֹ הוּא שֶׁיַּחְפֹּר חֲפִירָה בַּקַּרְקַע וְתוֹלֶה בָּהּ מְצוּדָה. וְשֶׁלֹּא כְדַרְכּוֹ הוּא שֶׁיַּחְפֹּר אוֹתָהּ חֲפִירָה שֶׁלֹּא כְדֶרֶךְ חֲפִירָה, וְהוּא שֶׁתּוֹקְעִין יְתֵדוֹת בַּקַּרְקַע וְעוֹקְרִין אוֹתָן וְיִשָּׁאֵר הַקַּרְקַע חָפוּר.
"Do modo habitual" é cavar uma cova na terra e pendurar nela uma armadilha. "De modo diferente do habitual" é abrir essa mesma cova sem cavar propriamente — fincando estacas na terra e depois as arrancando, de modo que o buraco se forma sozinho, como subproduto, e não como um ato direto de escavação. E "cobrir a brecha" é empilhar pedras ou tijolos uns sobre os outros sem rebocar com argamassa nem cal; isso vale para o muro do jardim, mas o muro do quintal, se rompido, reconstrói-se do modo normal, por causa do risco de furto.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica por que o campo de árvores recebe o método mais eficiente; Rashi detalha, a partir da Guemará, a natureza da própria "ishut" e como se identifica os limites da brecha permitida.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Moed Katan 1:4
אִישׁוּת הוּא מִין שֶׁרֶץ שֶׁאֵין לוֹ עֵינַיִם, וְזוֹ הַבְּרִיָּה מַפְסֶדֶת הָאִילָנוֹת. וּשְׂדֵה הַלָּבָן הָיוּ חוֹרְשִׁים וְזוֹרְעִין אוֹתוֹ וְאֵין בּוֹ אִילָנוֹת, וְאָסוּר לָצוּד אוֹתָן בִּשְׂדֵה הַלָּבָן אֶלָּא אִם כֵּן הוּא בְּקָרוֹב לִשְׂדֵה הָאִילָן.

A "ishut" é um tipo de réptil sem olhos que destrói as raízes das árvores. O campo comum (sedeh lavan) é o que se lavra e semeia para cereais, sem árvores. Em geral não é permitido caçar essas pragas ali — não haveria prejuízo suficiente —, a não ser que esse campo esteja próximo de um campo de árvores, pois então há o risco real de que a praga migre e destrua as árvores vizinhas.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Moed Katan 1:4
בִּשְׂדֵה הָאִילָן כְּדַרְכּוֹ. דְּמַפְסְדֵי טְפֵי, וּלְהֶפְסֵד מְרֻבֶּה חָשְׁשׁוּ... וּבִשְׂדֵה לָבָן הַסְּמוּכָה לִשְׂדֵה אִילָן, חוֹפֵר כְּדַרְכּוֹ, שֶׁמָּא יֵצְאוּ מִשְּׂדֵה לָבָן וְיַחְרִיבוּ הָאִילָנוֹת.

No campo de árvores permite-se o método normal, porque o prejuízo ali é maior, e os sábios se preocuparam com a perda mais significativa das árvores frutíferas — permitindo, portanto, o método mais eficaz de caça. Já num campo comum que faz divisa com um campo de árvores, também se cava do modo normal, pois há receio de que as pragas migrem do campo comum e destruam as árvores vizinhas — a proximidade transforma o risco menor em risco real.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Moed Katan 6b-7a
בְּרִיָּה שֶׁאֵין לָהּ עֵינַיִם וְחוֹפֶרֶת בַּקַּרְקַע... בָּעֵת שֶׁתֵּצֵא מִנַּרְתִּיקוֹ נוֹפְלוֹת רִירוֹת מִמֶּנּוּ עַד שֶׁהוּא נִמּוֹחַ וּמֵת.

Rashi identifica a "ishut" da mishná como uma criatura sem olhos que vive escavando sob a terra, e traz a fonte bíblica de sua natureza frágil: assim como o caracol (shablul) se derrete ao sair de sua concha, deixando um rastro de baba até morrer exposto — "que não vejam o sol", em alusão a Salmos 58:9 — assim também essa praga, que vive sob a terra, morre subitamente ao ser exposta à luz.

Sobre o muro, Rashi confirma que "cobrir a brecha" significa apenas empilhar pedra sobre pedra, sem argamassa — e que essa leniência vale apenas onde não há risco maior de invasão, como no muro do jardim; onde há risco de furto, como no quintal, permite-se reconstruir do modo normal mesmo no Chol HaMoed, se a brecha representar perigo real e iminente aos bens ali guardados.