Seder Moed · Massechet Moed Katan · Perek Alef · Mishná 2 de 10

Consertar canais de água e sepultar em Chol HaMoed

מְתַקְּנִין אֶת קִלְקוּלֵי הַמַּיִם שֶׁבִּרְשׁוּת הָרַבִּים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná passa dos trabalhos privados aos trabalhos públicos: abrir um canal de irrigação novo é debatido entre Rabi Elazar ben Azaria e os sábios, mas a manutenção de estradas, poços e sepulturas para o bem da comunidade é permitida por consenso.

Rabi Elazar ben Azaria diz: não se abre um canal novo no Chol HaMoed nem no ano sabático. Mas os sábios dizem: abre-se um canal novo no ano sabático, e consertam-se os já estragados no Chol HaMoed.Um canal de irrigação que nunca existiu exige uma obra do zero, e por isso Rabi Elazar ben Azaria a proíbe tanto no Chol HaMoed, por envolver esforço evitável, quanto no ano sabático, por parecer uma melhoria da terra proibida nesse ano. Os sábios discordam quanto ao ano sabático — permitindo abrir um canal novo ali, pois não veem nisso um trabalho agrícola de lavoura — mas concordam que, no Chol HaMoed, apenas consertar um canal já existente é permitido, não abrir um novo.

E consertam-se os estragos nos canais de água pública, e escavam-se; e consertam-se as estradas, as praças e os poços de água, e fazem-se todas as necessidades públicas; e marcam-se as sepulturas; e saem também para arrancar as sementes misturadas proibidas.Tudo o que serve diretamente à comunidade — a manutenção da infraestrutura de água, das vias públicas e da identificação das sepulturas para que os que passam não se contaminem sem saber — é permitido, pois esses trabalhos evitam um prejuízo coletivo. Do mesmo modo, os emissários do tribunal saem no Chol HaMoed para arrancar as sementes plantadas em mistura proibida, já que nesses dias o trabalho é barato e há economia para o fundo comunitário que financia essa tarefa.

רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה אוֹמֵר, אֵין עוֹשִׂין אֶת הָאַמָּה בַתְּחִלָּה בַּמּוֹעֵד וּבַשְּׁבִיעִית, וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, עוֹשִׂין אֶת הָאַמָּה בַּתְּחִלָּה בַּשְּׁבִיעִית, וּמְתַקְּנִין אֶת הַמְּקֻלְקָלוֹת בַּמּוֹעֵד. וּמְתַקְּנִין אֶת קִלְקוּלֵי הַמַּיִם שֶׁבִּרְשׁוּת הָרַבִּים וְחוֹטְטִין אוֹתָן. וּמְתַקְּנִין אֶת הַדְּרָכִים וְאֶת הָרְחוֹבוֹת וְאֶת מִקְווֹת הַמַּיִם, וְעוֹשִׂין כָּל צָרְכֵי הָרַבִּים, וּמְצַיְּנִין אֶת הַקְּבָרוֹת, וְיוֹצְאִין אַף עַל הַכִּלְאָיִם:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikrá (Levítico) 25:2
וְשָׁבְתָה הָאָרֶץ שַׁבָּת לַה׳
E a terra descansará um descanso para o Eterno.

É deste versículo que se deriva a proibição de melhorar a terra durante o ano sabático — e é essa mesma proibição que fundamenta a posição de Rabi Elazar ben Azaria contra abrir um canal de irrigação novo naquele ano. Rambam explica que abrir um canal novo é considerado uma melhoria da terra ao seu redor, pois a umidade do canal fertiliza o solo adjacente e o prepara para produzir — exatamente o tipo de benfeitoria que a shevi'it veio proibir. Os sábios, que permitem a obra nesse caso, entendem que ela não constitui essa espécie de melhoria agrícola vedada pelo versículo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica por que os emissários do tribunal saem para arrancar as sementes misturadas justamente no Chol HaMoed.

Rambam · Perush HaMishná, Moed Katan 1:2
וְהַמְמֻנִּים יוֹצְאִין לַעֲקֹר הַכִּלְאַיִם בְּחֻלּוֹ שֶׁל מוֹעֵד, כִּי שְׂכִירוּת הָעוֹקְרוֹ חוֹבָה עַל בֵּית דִּין... וּבְנֵי אָדָם בְּחֻלּוֹ שֶׁל מוֹעֵד בְּטֵלִין וְנִשְׂכָּרִין בְּזוֹל, וְיֵשׁ בָּזֶה רֶוַח לִתְרוּמַת הַלִּשְׁכָּה.
Os emissários encarregados saem para arrancar as sementes misturadas no Chol HaMoed, pois contratar quem as arranque é obrigação do tribunal, e o pagamento sai do fundo comunitário do Templo. Como nesses dias as pessoas estão desocupadas de seu trabalho comum, contratam-se por um preço mais baixo — o que representa economia real para esse fundo. Por isso essa tarefa é deliberadamente adiada para o Chol HaMoed, e não é uma simples permissão, mas uma prática vantajosa para a comunidade.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha os termos técnicos do canal de irrigação e da marcação das sepulturas; Rashi funde a mishná com a discussão da Guemará sobre quem, de fato, permite abrir o canal do zero.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Moed Katan 1:2
וְכָל צָרְכֵי הָרַבִּים הֵם כְּגוֹן קְצִיצַת הַקּוֹצִים וְהַשְׁוָאַת הַדְּרָכִים הַמְקֻלְקָלוֹת וּבִנְיַן הַגְּשָׁרִים וְדֻגְמָתָן.

"Todas as necessidades públicas" incluem coisas como cortar espinheiros que atrapalham a passagem, nivelar estradas estragadas, construir pontes e obras semelhantes — qualquer trabalho de infraestrutura que beneficie diretamente a comunidade e cujo adiamento causaria transtorno coletivo real.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Moed Katan 1:2
הָאַמָּה. חֲרִיצִים שֶׁעוֹשִׂים בַּקַּרְקַע שֶׁבָּהֶן הַמַּיִם הוֹלְכִים סְבִיב הַשָּׂדֶה... וּמְצַיְּנִין. עוֹשִׂין צִיּוּנִין עַל הַקְּבָרוֹת, שֶׁהָיוּ מְמַחִין סִיד וְשׁוֹפְכִין עַל הַקֶּבֶר, וְהוּא סִימָן לְהוֹלְכֵי דְּרָכִים שֶׁלֹּא יַעַבְרוּ בִּמְקוֹם טֻמְאָה.

"O canal" (ha'amá) são sulcos escavados na terra pelos quais a água flui ao redor do campo e de um campo a outro; chamam-se "amá" porque medem, em geral, um côvado de largura por um côvado de profundidade. "Marcam-se as sepulturas" — colocam-se sinais visíveis sobre os túmulos, dissolvendo cal e derramando-a sobre a sepultura; esse sinal branco avisa aos viajantes para não passarem por ali, evitando que se contaminem sem saber pela impureza do cadáver.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Moed Katan 2a
קָא מַשְׁמַע לָן מַתְנִיתִין דְּתָנֵי בֵּין מִמַּעְיָן שֶׁלֹּא יָצָא בַתְּחִלָּה. בֵּית הַשְּׁלָחִין אִין, בֵּית הַבַּעַל לֹא, אֲפִלּוּ מִמַּעְיָן שֶׁלֹּא יָצָא בַתְּחִלָּה לֹא.

Rashi conecta a disputa de Rabi Elazar ben Azaria à Guemará, que pergunta quem é a autoridade por trás da primeira parte da mishná: a Guemará conclui que a permissão geral de regar até o campo comum (beit haba'al), e não apenas o campo sedento, é a posição de Rabi Meir, discutida mais adiante na Guemará. Segundo Rashi, a discussão sobre o canal de irrigação novo depende do mesmo princípio de fundo: quanto de melhoria da terra é permitido no ano sabático e quanto de esforço evitável é permitido no Chol HaMoed — o mesmo critério que rege a mishná anterior sobre o campo sedento.