Seder Moed · Massechet Moed Katan · Perek Alef · Mishná 1 de 10

Regar o campo sedento no Chol HaMoed

מַשְׁקִין בֵּית הַשְּׁלָחִין בַּמּוֹעֵד
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná abre o tratado estabelecendo o princípio geral por trás de todas as leis do Chol HaMoed: apenas o trabalho que evita um prejuízo real é permitido, e mesmo assim só quando não exige esforço excessivo.

Rega-se o campo sedento no Chol HaMoed e no ano sabático, seja de uma fonte que começou a jorrar agora, seja de uma fonte que já jorrava antes. Mas não se rega com água de chuva, nem com água de poço de roda. E não se fazem sulcos para as videiras.O campo sedento — aquele que sofre prejuízo real se não for irrigado continuamente — pode ser regado mesmo nos dias intermediários da festa, porque os sábios permitiram o esforço necessário para evitar uma perda efetiva. Tanto faz se a água vem de uma fonte nova, que só agora começou a jorrar, quanto de uma fonte antiga: em ambos os casos não há esforço extra em aproveitá-la. Já a água de chuva acumulada e a água de poço de roda — que exigem tirar a água com balde, um trabalho considerável — não podem ser usadas, pois ali o esforço ultrapassa o que os sábios permitiram mesmo para evitar prejuízo. Pela mesma razão, não se abrem sulcos novos ao redor das raízes das videiras para reter água, pois essa é uma obra que começa do zero.

מַשְׁקִין בֵּית הַשְּׁלָחִין בַּמּוֹעֵד וּבַשְּׁבִיעִית, בֵּין מִמַּעְיָן שֶׁיָּצָא בַתְּחִלָּה, בֵּין מִמַּעְיָן שֶׁלֹּא יָצָא בַתְּחִלָּה. אֲבָל אֵין מַשְׁקִין לֹא מִמֵּי הַגְּשָׁמִים וְלֹא מִמֵּי הַקִּילוֹן. וְאֵין עוֹשִׂין עוּגִיּוֹת לַגְּפָנִים:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 16:8
שֵׁשֶׁת יָמִים תֹּאכַל מַצּוֹת וּבַיּוֹם הַשְּׁבִיעִי עֲצֶרֶת לַה׳ אֱלֹהֶיךָ
Seis dias comerás pães ázimos, e no sétimo dia haverá assembleia solene para o Eterno, teu Deus.

A Guemará (Chaguigá 18a) deriva do contraste entre o sétimo dia — dia de assembleia solene, plenamente restrito ao trabalho — e os seis dias anteriores, que não recebem essa mesma restrição total, que os sábios receberam autoridade para definir quais trabalhos são permitidos e quais são proibidos nos dias intermediários da festa. Se a Torá restringisse igualmente todos os sete dias, não haveria distinção entre o Chol HaMoed e o próprio dia de festa; se não restringisse nenhum dos seis, tudo seria permitido. A Escritura, portanto, entregou aos sábios o critério: proibiram o trabalho evitável, mas permitiram aquele que evita um prejuízo real, como a irrigação do campo sedento tratada nesta mishná.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica o critério geral por trás da permissão — o prejuízo evitável — e por que a água de poço de roda fica de fora.

Rambam · Perush HaMishná, Moed Katan 1:1
וּמִן הַדְּבָרִים שֶׁמֻּתָּר לַעֲשׂוֹתָם הֵם כָּל דָּבָר שֶׁאִם מַנִּיחִים אוֹתוֹ לַעֲשׂוֹתוֹ עַד לְאַחַר הַמּוֹעֵד יִהְיֶה לוֹ הֶפְסֵד גָּדוֹל... וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יִהְיֶה בְּהַשְׁקָיָתָהּ טֹרַח הַרְבֵּה, אֲבָל אִם יֵשׁ בּוֹ עָמָל הַרְבֵּה אָסוּר לַעֲשׂוֹתוֹ בַּמּוֹעֵד.
Entre as coisas permitidas está tudo aquilo que, se deixado para depois do Chol HaMoed, causaria grande prejuízo — como regar a terra sedenta, chamada pelos sábios "beit hashelachin", termo aramaico para "a exausta, a fatigada", pois sofre sede constante; se ficar sem água, todas as suas árvores se estragam. Mas isso vale apenas quando a irrigação não exige esforço excessivo; se exige muito trabalho, é proibido fazê-la no Chol HaMoed. Por isso é proibido regar a terra sedenta no Chol HaMoed com água de poço de roda e semelhantes — água acumulada em lugar fundo, que precisa ser tirada com balde, um esforço considerável.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura precisa quando um campo é considerado "sedento" o bastante para permitir a irrigação; Rashi explica por que a água de chuva acumulada também é proibida.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Moed Katan 1:1
וְעוּגִיּוֹת הוּא שֶׁיַּחְפֹּר סְבִיב עִקְּרֵי הָאִילָנוֹת חֲפִירוֹת קְטַנּוֹת יִתְקַבְּצוּ שָׁם הַמַּיִם.

"Sulcos" (ugiyot) são pequenas escavações feitas ao redor das raízes das árvores, nas quais a água se acumula. Como se trata de abrir uma obra nova — não apenas manter algo já existente —, essa prática fica fora da permissão concedida ao Chol HaMoed, ainda que sirva, em última análise, para evitar prejuízo às plantas.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Moed Katan 1:1
מַשְׁקִין בֵּית הַשְּׁלָחִין. אֶרֶץ עֲיֵפָה וּצְמֵאָה לְמַיִם... וְדַוְקָא שְׂדֵה לָבָן שֶׁל תְּבוּאָה שֶׁהוּא שְׁלָחִין מַשְׁקִין בַּמּוֹעֵד, אֲבָל שְׂדֵה שְׁלָחִין שֶׁל אִילָן לֹא שָׁרֵי בַּמּוֹעֵד, דְּלֹא פָּסְדֵי.

"Regar o campo sedento" — terra exausta e sedenta de água; em aramaico, "meshalhei", a fatigada. E é especificamente o campo de cereais que, por ser sedento, é regado no Chol HaMoed — pois desde o momento em que se começa a irrigá-lo, se não continuar recebendo água a cada intervalo, ele imediatamente se perde. Já um campo de árvores frutíferas, ainda que classificado como "sedento", não recebe essa permissão no Chol HaMoed, pois não sofre a mesma perda imediata. No ano sabático, porém, é permitido regar tanto o campo de cereais sedento quanto o campo comum, pois ali a restrição não é sobre o esforço, mas sobre lavrar e semear a terra.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Moed Katan 2a
מַשְׁקִין בֵּית הַשְּׁלָחִין בַּמּוֹעֵד - שָׂדֶה שֶׁהִיא עוֹמֶדֶת בָּהָר וְצָרִיךְ לְהַשְׁקוֹתָהּ תָּמִיד, מַשְׁקִין אוֹתָהּ אֲפִלּוּ בְּחֻלּוֹ שֶׁל מוֹעֵד, לְפִי שֶׁהוּא לוֹ הֶפְסֵד גָּדוֹל אִם אֵינוֹ מַשְׁקֶה אוֹתָהּ.

"Rega-se o campo sedento no Chol HaMoed" — trata-se de um campo situado em terreno elevado, que precisa ser regado continuamente; ele é regado mesmo no Chol HaMoed, porque deixar de fazê-lo lhe causaria grande prejuízo, e os sábios permitiram esforçar-se no Chol HaMoed justamente para evitar uma perda — como se aprende de Chaguigá (18a), onde se deriva do versículo que a Torá deixou aos sábios o critério de qual trabalho é proibido nesses dias e qual é permitido.

Sobre "água de chuva" — Rashi explica que essa água é proibida por envolver esforço excessivo, conforme a Guemará detalha mais adiante: trata-se de água acumulada em poços fundos, que exige o trabalho considerável de tirá-la com balde, o mesmo motivo pelo qual a água de poço de roda também é vedada.