Seder Tehorot · Massechet Mikvaot · Perek Alef · Mishná 5 de 8

Desde quando as águas se purificam: a disputa entre Bet Shamai e Bet Hilel

מֵאֵימָתַי טָהֳרָתָן. בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, מִשֶּׁיִּרְבּוּ וְיִשְׁטֹפוּ. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, רַבּוּ אַף עַל פִּי שֶׁלֹּא שָׁטְפוּ. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, שָׁטְפוּ אַף עַל פִּי שֶׁלֹּא רַבּוּ. כְּשֵׁרִין לַחַלָּה וְלִטֹּל מֵהֶן לַיָּדָיִם:
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Desde quando as águas contaminadas se purificam pela chuva — Bet Shamai, Bet Hilel e Rabi Shimon

Desde quando é sua purificação? Bet Shamai diz: desde que (as águas da chuva) se tornem maioria e transbordem. E Bet Hilel diz: tornaram-se maioria, ainda que não tenham transbordado. Rabi Shimon diz: transbordaram, ainda que não se tenham tornado maioria. São válidas para a chalá e para lavar delas as mãos.

A quinta mishná retorna às águas de poça e às demais águas semelhantes já contaminadas segundo os casos das primeiras quatro mishnayot, e pergunta: uma vez impuras, como voltam a ser puras? A resposta está na chuva subsequente, mas os sábios discordam sobre a condição exata. Bet Shamai exige as duas coisas simultaneamente — que a água da chuva se torne maioria sobre a água impura que já havia na poça, e que, além disso, a poça transborde, com água saindo por cima de suas margens. Bet Hilel exige apenas a maioria, sem necessidade de transbordamento. E Rabi Shimon inverte a exigência de Bet Hilel: basta o transbordamento, mesmo que a água da chuva não tenha se tornado maioria.

Uma vez purificadas segundo qualquer dessas condições, encerra-se aqui a descrição do primeiro e mais básico grau de água de imersão: águas de poça purificadas são válidas para preparar e cozer a massa da chalá, e para lavar as mãos antes de comer — mas, como se verá nas próximas mishnayot, ainda não são válidas para usos mais exigentes, como a teruma ou a imersão de pessoas e utensílios.

מֵאֵימָתַי טָהֳרָתָן. בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, מִשֶּׁיִּרְבּוּ וְיִשְׁטֹפוּ. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, רַבּוּ אַף עַל פִּי שֶׁלֹּא שָׁטְפוּ. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, שָׁטְפוּ אַף עַל פִּי שֶׁלֹּא רַבּוּ. כְּשֵׁרִין לַחַלָּה וְלִטֹּל מֵהֶן לַיָּדָיִם:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Mikvaot 1:5
כוונת ישטופו שיפוצו המים על פני הגבא ויגבר חוצה לה בית שמאי …

A intenção de “transbordaram” (yishtofu) é que as águas se espalhem sobre a superfície da poça e predominem para fora dela. Bet Shamai diz: é necessário que a poça seja funda, e que desça nela mais água de chuva do que a água que já havia nela, e que também se espalhe para fora. E o exemplo disto, como se explica na Tosefta: que a poça tenha capacidade de vinte seá, e havia nela nove seá, e tornaram-se impuras por um homem impuro ou por um utensílio impuro, conforme o que precedeu; e depois desceu nesta poça água de chuva na medida de dez seá — segundo a opinião de Bet Hilel, ela se purifica, pois a água da chuva se tornou maioria; mas segundo a opinião de Bet Shamai, não se purifica até que se encha e alcance onze seá. E se havia nela dezenove seá de água de poça e se tornaram impuras como precedeu, e depois chegou nela uma seá de água de chuva — segundo a opinião de Rabi Shimon, é pura, pois as águas da chuva transbordaram e se espalharam sobre a terra em sua margem; mas segundo a opinião de Bet Shamai, ainda não se purificou na poça, pois, embora as águas da chuva tenham transbordado, não se tornaram maioria.

E, tendo completado as regras destas poças quanto à sua impureza e sua purificação, e quando estão em presunção de pureza e quando em presunção de impureza, e como voltam a ser puras depois de se tornarem impuras, começou a mencionar o que convém a este grau — o grau da mikvê de águas. E disse que estas águas de poças são válidas para a chalá — isto é, para usá-las no cozimento da chalá, para amassar sua massa e lavar seus utensílios, e coisas semelhantes. E também é permitido, com estas águas, lavar as mãos para as coisas que necessitam de lavagem das mãos. E já se explicou no segundo (capítulo) de Chaguigá (18b) que se lava as mãos para o chulin, para a teruma e para o maasser. E este é o primeiro grau.

Bartenura · Mikvaot 1:5
מֵאֵימָתַי טָהֳרָתָן. שֶׁל קְרוֹבִים וּרְחוֹקִין:

“Desde quando é sua purificação?”: (fala) das (águas) próximas e das distantes.

“Desde que se tornem maioria e transbordem”: desde que caíam as chuvas e as águas da chuva se tornem maioria sobre as águas que já havia nelas antes que o impuro bebesse delas, ou que ele encheu delas um utensílio impuro, e também que transbordem, passando sobre a margem das águas paradas e saindo para fora; e a medida do transbordamento é qualquer quantidade.

“Tornaram-se maioria”: não como Bet Shamai, que exigia ambas as coisas — que se tornassem maioria e transbordassem —, mas, uma vez que as águas da chuva que vieram depois se tornaram maioria sobre as águas que já havia nelas no momento de sua impureza, purificaram-se, ainda que não tenham transbordado e saído para fora.

“Rabi Shimon diz: transbordaram”: as águas da chuva (transbordando) sobre as margens da poça e saindo para fora, purifica-se a poça.

“Ainda que não se tenham tornado maioria”: as águas da chuva que vieram depois sobre as águas que estavam na poça no momento de sua impureza.

“São válidas para a chalá”: estas águas de poças, como ensinamos em nossa mishná, são válidas para usá-las na chalá, para amassar e cozer com elas a chalá.

“E para lavar delas as mãos”: para toda coisa que necessita de lavagem das mãos.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Mikvaot não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido em todas as mishnayot deste tratado.