A mishná examina uma questão técnica sobre o uso das medidas: por que se usavam colmadas (transbordantes), com exceção da medida do Sumo Sacerdote, e qual o destino do material que transbordava — se permanecia consagrado ou se tornava profano, conforme fosse líquido ou seco.
Todas as medidas que havia no Templo eram colmadas, exceto a do Sumo Sacerdote, que ele a colmava dentro de si mesma. — A mishná explica que, ao usar as medidas oficiais, enchia-se cada recipiente até transbordar, deixando um pequeno excedente sobre a borda — prática padrão para todas as medidas, exceto a do meio décimo usada para a oferenda diária do Sumo Sacerdote, que era tão grande em suas dimensões internas que, mesmo nivelada exatamente na borda, sem transbordar, já continha a quantidade correta.
As medidas de líquido, seu transbordamento é consagrado. E as medidas de seco, seu transbordamento é profano. — A mishná estabelece uma distinção fundamental: o excedente que transborda de uma medida de líquido ao encher-se até a borda permanece consagrado, mas o excedente que cai de uma medida de seco ao encher-se torna-se profano, podendo ser usado livremente.
Rabi Akiva diz: as medidas de líquido são consagradas, por isso seu transbordamento é consagrado; e as medidas de seco são profanas, por isso seu transbordamento é profano. Rabi Yossei diz: não é por essa razão, senão que o líquido se mistura, e o seco não se mistura. — As duas opiniões oferecem explicações distintas para a mesma regra: Rabi Akiva atribui a diferença à santidade do próprio recipiente — as medidas líquidas foram ungidas e consagradas por dentro e por fora, tornando consagrado tudo o que as toca, inclusive o transbordamento, enquanto as medidas secas não foram consagradas dessa forma. Rabi Yossei, por sua vez, explica fisicamente: o líquido, por sua natureza, se mistura e se agita dentro do recipiente antes de transbordar, de modo que o excedente já esteve em contato direto com o conteúdo consagrado dentro da medida; já o seco permanece parado em camadas, sem se misturar, de modo que o que cai por cima nunca chega a entrar de fato no espaço consagrado do recipiente.
Rambam explica que esta mishná segue a opinião de Rabi Meir, já apresentada no início deste perek, de que havia dois décimos no Templo, um colmado e um raso. O sentido de "colmava-a dentro de si mesma" é que se colocava dentro daquele décimo raso, com força, até o ponto de conter a mesma quantidade que o décimo colmado. E o sentido de "se mistura" (nechar) é que, no momento de medir algo líquido que escorre, aquilo que já estava dentro da medida e havia se consagrado se espalha e sai junto com o novo conteúdo, sem dúvida; e a divergência entre estes tanaítas está apenas na ordem de sua consagração — como se davam quando ungidos com o óleo da unção —, mas a conclusão prática que resulta de suas palavras não é objeto de disputa, como se pode observar.
Bartenura explica que a medida do Sumo Sacerdote "colmava dentro de si mesma" porque, mesmo rasa, tinha a capacidade de um décimo colmado comum — sendo esta mishná segundo Rabi Meir, que ensina no início do perek haver dois décimos no Templo, um raso e um colmado, embora a lei não siga sua opinião. A Guemará explica que este tanaíta entende que as medidas de líquido foram ungidas tanto por dentro quanto por fora, por isso a borda do recipiente consagra o transbordamento; as medidas de seco foram ungidas só por dentro, por isso o transbordamento, que não toca a parte interna ungida, não se consagra. Segundo Rabi Akiva, as medidas de líquido são consagradas porque foram ungidas por dentro e por fora; as de seco são profanas porque não foram ungidas de forma alguma — ainda que o que se mede com elas seja consagrado por santidade da boca (a designação verbal), e o transbordamento, que a pessoa não precisa nem pretende, não se consagra dessa forma. Rabi Yossei entende que ambas foram ungidas só por dentro, e explica a distinção pelo fato de que o líquido se mistura — o que está no fundo do recipiente, ao se acrescentar mais líquido, se mescla e sobe à superfície, de modo que o transbordamento já esteve consagrado dentro do recipiente —, enquanto o seco permanece parado em seu lugar, sem se misturar, de modo que o que está dentro permanece consagrado e o que está fora não.
Rashi explica que a medida do Sumo Sacerdote "colmava dentro de si mesma" porque era tão grande que, mesmo rasa (nivelada), já continha um décimo. "O transbordamento das medidas de seco é profano": o que cai do recipiente depois de cheio — isto é, o excedente que transborda. Explicando a opinião de Rabi Yossei, de que "o líquido se mistura e o seco não se mistura": o excedente do líquido entrou no recipiente e ali se consagrou, e depois se deslocou dele ao transbordar para fora — por isso permanece consagrado, já que entrou no recipiente e ali se santificou; já o excedente do seco não se mistura com o que está dentro do recipiente, pois nunca chegou a entrar nele nem ali se consagrou — por isso é profano.