Seder Kodashim · Massechet Menachot · Perek Tet · Mishná 5 de 9

Medidas colmadas e o transbordamento: consagrado ou profano?

כָּל הַמִּדּוֹת שֶׁהָיוּ בַמִּקְדָּשׁ הָיוּ נִגְדָּשׁוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná examina uma questão técnica sobre o uso das medidas: por que se usavam colmadas (transbordantes), com exceção da medida do Sumo Sacerdote, e qual o destino do material que transbordava — se permanecia consagrado ou se tornava profano, conforme fosse líquido ou seco.

Todas as medidas eram colmadas, menos a do Sumo Sacerdote, que já continha a medida certa mesmo rasa

Todas as medidas que havia no Templo eram colmadas, exceto a do Sumo Sacerdote, que ele a colmava dentro de si mesma. — A mishná explica que, ao usar as medidas oficiais, enchia-se cada recipiente até transbordar, deixando um pequeno excedente sobre a borda — prática padrão para todas as medidas, exceto a do meio décimo usada para a oferenda diária do Sumo Sacerdote, que era tão grande em suas dimensões internas que, mesmo nivelada exatamente na borda, sem transbordar, já continha a quantidade correta.

כָּל הַמִּדּוֹת שֶׁהָיוּ בַמִּקְדָּשׁ, הָיוּ נִגְדָּשׁוֹת, חוּץ מִשֶּׁל כֹּהֵן גָּדוֹל, שֶׁהָיָה גוֹדְשָׁהּ לְתוֹכָהּ.
O transbordamento das medidas líquidas é consagrado; o das medidas secas é profano

As medidas de líquido, seu transbordamento é consagrado. E as medidas de seco, seu transbordamento é profano. — A mishná estabelece uma distinção fundamental: o excedente que transborda de uma medida de líquido ao encher-se até a borda permanece consagrado, mas o excedente que cai de uma medida de seco ao encher-se torna-se profano, podendo ser usado livremente.

מִדּוֹת הַלַּח, בֵּרוּצֵיהֶן קֹדֶשׁ. וּמִדּוֹת הַיָּבֵשׁ, בֵּרוּצֵיהֶן חֹל.
Duas explicações para a distinção: Rabi Akiva (a santidade do próprio recipiente) e Rabi Yossei (o líquido se mistura, o seco não)

Rabi Akiva diz: as medidas de líquido são consagradas, por isso seu transbordamento é consagrado; e as medidas de seco são profanas, por isso seu transbordamento é profano. Rabi Yossei diz: não é por essa razão, senão que o líquido se mistura, e o seco não se mistura. — As duas opiniões oferecem explicações distintas para a mesma regra: Rabi Akiva atribui a diferença à santidade do próprio recipiente — as medidas líquidas foram ungidas e consagradas por dentro e por fora, tornando consagrado tudo o que as toca, inclusive o transbordamento, enquanto as medidas secas não foram consagradas dessa forma. Rabi Yossei, por sua vez, explica fisicamente: o líquido, por sua natureza, se mistura e se agita dentro do recipiente antes de transbordar, de modo que o excedente já esteve em contato direto com o conteúdo consagrado dentro da medida; já o seco permanece parado em camadas, sem se misturar, de modo que o que cai por cima nunca chega a entrar de fato no espaço consagrado do recipiente.

רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, מִדּוֹת הַלַּח קֹדֶשׁ, לְפִיכָךְ בֵּרוּצֵיהֶן קֹדֶשׁ. וּמִדּוֹת הַיָּבֵשׁ חֹל, לְפִיכָךְ בֵּרוּצֵיהֶן חֹל. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, לֹא מִשּׁוּם זֶה, אֶלָּא שֶׁהַלַּח נֶעְכָּר, וְהַיָּבֵשׁ אֵינוֹ נֶעְכָּר:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Menachot 9:5
כל המדות שהיו במקדש היו נגדשות חוץ משל כו': המשנה הזאת לר' מאיר היא שנתבאר דעתו בתחלת פרק זה... וענין גודשה לתוכו שנותנין לתוך אותו עשרון בחזקה כשהוא מחוק כשיעור שמחזיק העשרון האחד כשהוא גדוש... וענין נעכר שבשעה שמודדין הדבר הניגר יפוץ ויוצא מן המדה מה שכבר היה בתוכה ונתקדש בלי ספק...

Rambam explica que esta mishná segue a opinião de Rabi Meir, já apresentada no início deste perek, de que havia dois décimos no Templo, um colmado e um raso. O sentido de "colmava-a dentro de si mesma" é que se colocava dentro daquele décimo raso, com força, até o ponto de conter a mesma quantidade que o décimo colmado. E o sentido de "se mistura" (nechar) é que, no momento de medir algo líquido que escorre, aquilo que já estava dentro da medida e havia se consagrado se espalha e sai junto com o novo conteúdo, sem dúvida; e a divergência entre estes tanaítas está apenas na ordem de sua consagração — como se davam quando ungidos com o óleo da unção —, mas a conclusão prática que resulta de suas palavras não é objeto de disputa, como se pode observar.

Bartenura · Menachot 9:5
שֶׁהָיָה גוֹדְשָׁהּ בְּתוֹכָהּ. כְּשֶׁהָיָה מָחוּק הָיָה מַחֲזִיק כִּשְׁאָר עִשָּׂרוֹן גָּדוּשׁ... מִדּוֹת הַלַּח בֵּרוּצֵיהֶן קֹדֶשׁ וּמִדּוֹת הַיָּבֵשׁ בֵּרוּצֵיהֶן חֹל. בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ דְּהַאי תַּנָּא סָבַר מִדּוֹת הַלַּח נִמְשְׁחוּ בֵּין מִבִּפְנִים בֵּין מִבַּחוּץ... וְהַיָּבֵשׁ אֵינוֹ נֶעְכָּר. אֶלָּא בִּמְקוֹמוֹ עוֹמֵד, הִלְכָּךְ מַה שֶּׁבִּפְנִים קָדוֹשׁ וּמַה שֶּׁבַּחוּץ אֵינוֹ קָדוֹשׁ.

Bartenura explica que a medida do Sumo Sacerdote "colmava dentro de si mesma" porque, mesmo rasa, tinha a capacidade de um décimo colmado comum — sendo esta mishná segundo Rabi Meir, que ensina no início do perek haver dois décimos no Templo, um raso e um colmado, embora a lei não siga sua opinião. A Guemará explica que este tanaíta entende que as medidas de líquido foram ungidas tanto por dentro quanto por fora, por isso a borda do recipiente consagra o transbordamento; as medidas de seco foram ungidas só por dentro, por isso o transbordamento, que não toca a parte interna ungida, não se consagra. Segundo Rabi Akiva, as medidas de líquido são consagradas porque foram ungidas por dentro e por fora; as de seco são profanas porque não foram ungidas de forma alguma — ainda que o que se mede com elas seja consagrado por santidade da boca (a designação verbal), e o transbordamento, que a pessoa não precisa nem pretende, não se consagra dessa forma. Rabi Yossei entende que ambas foram ungidas só por dentro, e explica a distinção pelo fato de que o líquido se mistura — o que está no fundo do recipiente, ao se acrescentar mais líquido, se mescla e sobe à superfície, de modo que o transbordamento já esteve consagrado dentro do recipiente —, enquanto o seco permanece parado em seu lugar, sem se misturar, de modo que o que está dentro permanece consagrado e o que está fora não.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Menachot 90a, sobre a Guemará desta mishná
מתני' שהיה גודשה בתוכה - שהיתה גדולה כל כך שכשהיתה נמחקת היה בה עשרון:
מדת היבש בירוצין חול - מה שנופל מן הכלי לאחר שנתמלא היינו בירוצין:
אלא שהלח נעכר - שהבירוצין נכנסו בכלי ונתקדשו בו ושוב נעכרו ממנו כשנפלו חוץ לפיכך הן קדש דנכנסו בכלי ונתקדשו בו: ובירוצין של יבש אינו נעכר - מתוכו של כלי שלא נכנס בתוך הכלי ולא נתקדש בו לפיכך הוא חול:

Rashi explica que a medida do Sumo Sacerdote "colmava dentro de si mesma" porque era tão grande que, mesmo rasa (nivelada), já continha um décimo. "O transbordamento das medidas de seco é profano": o que cai do recipiente depois de cheio — isto é, o excedente que transborda. Explicando a opinião de Rabi Yossei, de que "o líquido se mistura e o seco não se mistura": o excedente do líquido entrou no recipiente e ali se consagrou, e depois se deslocou dele ao transbordar para fora — por isso permanece consagrado, já que entrou no recipiente e ali se santificou; já o excedente do seco não se mistura com o que está dentro do recipiente, pois nunca chegou a entrar nele nem ali se consagrou — por isso é profano.