A segunda mishná do Perek Hei detalha o processo de preparo das oferendas de farinha que vêm como matzá: são amassadas com água morna e vigiadas em todas as etapas para que não levedem; se levedarem, mesmo apenas os resíduos, transgride-se um preceito negativo da Torá; e há responsabilidade separada por cada uma das três etapas de preparo em que a levedação pode ocorrer.
Todas as oferendas são amassadas com água morna, e vigiadas para que não levedem. — A mishná explica o processo de preparo das menachot que vêm como matzá: a farinha é amassada com água morna — e não fria, o que facilitaria a fermentação, tampouco quente demais — e, uma vez amassada, é preciso vigiá-la continuamente em cada etapa, para que não comece a fermentar antes de ser oferecida.
E se seus resíduos levedaram, transgride-se um preceito negativo, pois está dito: “Toda oferenda que trouxerdes ao Eterno não será feita levedada.” — A mishná estende a proibição: não apenas a parte principal da menachá que sobe ao altar não pode levedar, mas também os “resíduos” (shiyarim) — a porção que resta após a retirada do punhado (kmitzá) e que é consumida pelos sacerdotes — não pode ser deixada fermentar, sob pena de violar o versículo de Vayikrá 2:11.
E são responsáveis por seu amassar, por seu moldar, e por seu assar. — A mishná fecha estabelecendo que a proibição de levedar não é uma transgressão única, mas se aplica separadamente a cada uma das três etapas em que a fermentação pode ocorrer: quem a leveda ao amassá-la, ao moldá-la, ou ao assá-la, é responsável por cada ação isoladamente, como a Guemará explicará a partir da comparação com o versículo do assar.
Rambam distingue “amassar” (misturar a farinha com água) de “moldar” (o trabalho manual de dar forma à massa), e explica a derivação exegética: a Torá diz “não se assará levedada” além de já ter dito “não se fará levedada”, e essa repetição ensina que, assim como o assar é uma ação isolada pela qual se é responsável separadamente, também o amassar, o moldar e toda ação isolada na preparação da menachá — incluindo o alisar da superfície das fogaças — geram responsabilidade própria. Explica ainda que o versículo “não se assará levedada, sua porção” ensina que mesmo a porção destinada aos sacerdotes (os resíduos) não pode ser levedada, embora seja permitido amassá-la e cozinhá-la com mel — a proibição recai apenas sobre a levedação em si.
Bartenura esclarece que o versículo citado na mishná refere-se à sua primeira cláusula — a vigilância contra a levedação — e trata do período anterior à retirada do punhado; já a proibição sobre os resíduos deriva de um versículo distinto, “não se assará levedada, sua porção”, referindo-se à porção dos sacerdotes que resta do punhado. Especifica que a advertência sobre os resíduos vale apenas quanto à levedação: é permitido amassá-los com mel e fritá-los nele. Sobre “moldar”, explica que é o trabalho manual após o amassar, e que a responsabilidade separada por cada etapa é derivada por analogia: como o versículo já proibia levedar de modo geral, a menção adicional “não se assará” — que já estaria implícita — ensina que, assim como o assar é uma ação isolada com responsabilidade própria, o mesmo vale para o amassar, o moldar, e mesmo o alisar da superfície da massa com água (kitúf), ainda que essa última pareça uma ação pouco significativa.
Rashi esclarece que o versículo citado pela mishná refere-se à sua primeira cláusula — a vigilância contra a levedação, aplicável antes da retirada do punhado — e explica que “moldar” (arichá) é o termo técnico do ofício de padeiro (que traduz por um termo francês antigo). Em outro trecho, explica a razão pela qual as oferendas devem ser amassadas justamente com água morna e vigiadas continuamente: precisamente por serem amassadas com água morna, que acelera a fermentação, há a obrigação especial de vigiá-las sem interrupção, o que significa manusear a massa constantemente ao longo de todo o processo, para que não comece a levedar.