Seder Kodashim · Massechet Menachot · Perek Yud · Mishná 4 de 9

O preparo do Ómer: tostar, moer, peneirar e oferecer a farinha

מְהַבְהְבִין אוֹתוֹ בָאוּר, כְּדֵי לְקַיֵּם בּוֹ מִצְוַת קָלִי
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Após a colheita cerimonial descrita na mishná anterior, esta mishná detalha todo o processamento da cevada para a oferenda do Ómer: como tostar os grãos, como moê-los e peneirá-los até chegar ao issarón exato, o destino do excedente, e o rito completo da oferenda no altar.

A colheita chega ao pátio: a disputa sobre como tostar o grão

Colheram-na e a puseram em cestos, trouxeram-na ao pátio, e a chamuscavam ao fogo, para nela cumprir o preceito do tostado — palavras de Rabi Meir. E os Sábios dizem: com canas e com talos de couve a debulham, para que não se esmague. Punham-na no abuv, e o abuv era perfurado, para que o fogo agisse sobre ela por inteiro. — Há uma disputa sobre a técnica de preparo: para Rabi Meir, chamuscava-se a cevada ainda nas espigas diretamente ao fogo, cumprindo o preceito bíblico do grão “tostado ao fogo”; os Sábios, porém, primeiro debulhavam os grãos com canas úmidas e talos de couve — não com um bastão, para não esmagá-los —, e só depois os tostavam num recipiente perfurado chamado abuv, que deixava o fogo alcançar todo o grão.

קְצָרוּהוּ וּנְתָנוּהוּ בְקֻפּוֹת, הֱבִיאוּהוּ לָעֲזָרָה, הָיוּ מְהַבְהְבִין אוֹתוֹ בָאוּר, כְּדֵי לְקַיֵּם בּוֹ מִצְוַת קָלִי, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, בְּקָנִים וּבִקְלִיחוֹת חוֹבְטִים אוֹתוֹ, כְּדֵי שֶׁלֹּא יִתְמָעֵךְ. נְתָנוּהוּ לָאַבּוּב, וְאַבּוּב הָיָה מְנֻקָּב, כְּדֵי שֶׁיְּהֵא הָאוּר שׁוֹלֵט בְּכֻלּוֹ.
Secagem, moagem, peneiração até o issarón: a disputa sobre chalá e dízimos

Espalhavam-na no pátio, e o vento soprava sobre ela. Punham-na num moinho de grãos grossos, e dela extraíam um issarón peneirado por treze peneiras, e o restante era resgatado e comido por qualquer pessoa. E é obrigado na chalá, e isento dos dízimos. Rabi Akiva o obriga tanto na chalá quanto nos dízimos. — Depois de tostada, a cevada era espalhada ao vento para secar, moída num moinho próprio para grãos grossos — de modo a não moer a casca junto com a farinha — e peneirada treze vezes até render exatamente um issarón para a oferenda; o excedente era resgatado do estatuto sagrado e podia ser comido por qualquer pessoa, ficando sujeito à separação da chalá mas isento dos dízimos, já que fora processado enquanto ainda pertencia ao Templo — opinião da qual Rabi Akiva discorda, obrigando-o também aos dízimos.

שְׁטָחוּהוּ בָעֲזָרָה, וְהָרוּחַ מְנַשֶּׁבֶת בּוֹ. נְתָנוּהוּ בְרֵחַיִם שֶׁל גָּרוֹסוֹת, וְהוֹצִיאוּ מִמֶּנּוּ עִשָּׂרוֹן שֶׁהוּא מְנֻפֶּה מִשְּׁלשׁ עֶשְׂרֵה נָפָה, וְהַשְּׁאָר נִפְדֶּה וְנֶאֱכָל לְכָל אָדָם. וְחַיָּב בַּחַלָּה, וּפָטוּר מִן הַמַּעַשְׂרוֹת. רַבִּי עֲקִיבָא מְחַיֵּב בַּחַלָּה וּבַמַּעַשְׂרוֹת.
O rito completo da oferenda: óleo, incenso, elevação e queima do punhado

Vinha ao issarón, e punha nele o seu óleo e o seu incenso; derramava, misturava, elevava, aproximava, tomava o punhado e o queimava — e o restante era comido pelos sacerdotes. — Descreve-se, por fim, o rito completo da oferenda: o sacerdote acrescentava o óleo e o incenso ao issarón de farinha, derramava mais óleo e misturava tudo, elevava a oferenda, aproximava-a do canto do altar, retirava o punhado e o queimava sobre o altar — e o restante da farinha era alimento reservado aos sacerdotes.

בָא לוֹ לָעִשָּׂרוֹן, וְנָתַן שַׁמְנוֹ וּלְבוֹנָתוֹ, יָצַק, וּבָלַל, הֵנִיף, וְהִגִּישׁ, וְקָמַץ, וְהִקְטִיר, וְהַשְּׁאָר נֶאֱכָל לַכֹּהֲנִים:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Menachot 10:4
קצרוהו ונתנוהו בקופות הביאוהו לעזרה היו כו': בא לו לעשרון ונתן שמנו ולבונתו יצק ובלל כו': הפירוש המקובל שאין עליו מחלוקת כי מה שנא' ואם תקריב מנחת בכורים לה' ירמוז למנחת העומר... ור' מאיר אומר שלא יהא קלוי אלא שיגע באש וע"כ חייב לחרך אותן בשבלים: וחכמים אומרים שלא יגישו אותן באש קודם שידוש אותן לפי שהוא מתלחלח ובשעת הדישה יתפרד ויפסד אבל קולין אותן אחר דישתו בכלי שקולין בו ויהא הכלי נקוב והוא הנקרא אבוב... ור"ע [אומר] אע"פ שקוצר הכל אין כוונתו אלא בעומר וע"כ חייב הנותר לפי דעתו במעשר וחכמים אומרים כי מאחר שנגמרה מלאכתן והוא נדון כהקדש אינו חייב במעשרות... ואין הלכה כר"מ ולא כרבי עקיבא:

Rambam explica que a interpretação recebida, sobre a qual não há controvérsia, é que o versículo “e se trouxeres oferenda de primícias ao Eterno” alude à oferenda do Ómer, e a palavra “se” ali não é opcional, mas conjuntiva — significando “e quando trouxeres a oferenda de primícias, essa oferenda será de espiga tostada ao fogo”. Rabi Meir entende que não é preciso tostar por completo, bastando que toque o fogo, por isso obriga a chamuscar os grãos ainda nas espigas; os Sábios dizem que não se deve aproximá-los do fogo antes de debulhá-los, pois estando úmidos se desfariam e se estragariam na debulha — por isso os tostam depois de debulhados, num recipiente perfurado chamado abuv. Rabi Akiva sustenta que, embora se colha toda a quantidade, a intenção do colhedor é apenas para o Ómer, e por isso o excedente, a seu ver, é obrigado nos dízimos; os Sábios dizem que, uma vez concluído o processamento e tratado como coisa sagrada, o excedente não é obrigado nos dízimos. E a halachá não é como Rabi Meir nem como Rabi Akiva.

Bartenura · Menachot 10:4
מְהַבְהְבִין אוֹתוֹ בָאוּר. בְּעוֹדוֹ בַּשִּׁבֳּלִין, כְּדֵי לְקַיֵּם בּוֹ מִצְוַת קָלִי... וּבִקְלִיחוֹת. בְּקֶלַח שֶׁל כְּרוּב, כְּדֵי שֶׁלֹּא יִתְמָעֵךְ. וְאַחַר כָּךְ מְקַיְּמִין בּוֹ מִצְוַת קָלִי:
נְתָנוּהוּ לָאַבּוּב. דִּסְבִירָא לְהוּ לְרַבָּנָן שֶׁאִם מְהַבְהְבִים אוֹתוֹ בָּאוּר מַמָּשׁ אֵין נִקְרָא קָלִי... וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים:
בְּרֵחַיִם שֶׁל גָּרוֹסוֹת. שֶׁאֵין טוֹחֲנוֹת דַּק אֶלָּא עָבֶה, שֶׁאִם יִטְחֲנוּ יָפֶה יַעַבְרוּ הַסֻּבִּין שֶׁל קְלִפָּה בַּנָּפָה עִם הַסֹּלֶת...
וְחַיָּב בַּחַלָּה. דְּחִיּוּב חַלָּה הַיְנוּ גִּלְגּוּל הָעִסָּה, וְגִלְגּוּל עִסָּה זוֹ בְּיַד הֶדְיוֹט הִיא לְאַחַר שֶׁנִּפְדָּה:
וּפָטוּר מִן הַמַּעַשְׂרוֹת. דְּמֵרוּחוֹ בְּיַד הֶקְדֵּשׁ הוּא, וּמֵרוּחַ הֶקְדֵּשׁ פּוֹטֵר מִן הַמַּעַשְׂרוֹת:
רַבִּי עֲקִיבָא מְחַיֵּב. הַאי קֶמַח הַנּוֹתָר מֵעִשָּׂרוֹן שֶׁל עֹמֶר... וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא:
בָּא לוֹ לָעִשָּׂרוֹן. נוֹתֵן תְּחִלָּה שַׁמְנוֹ וּלְבוֹנָתוֹ קֹדֶם נְתִינַת הַסֹּלֶת:
יָצַק וּבָלַל. לְאַחַר נְתִינַת הַסֹּלֶת, כְּדֶרֶךְ כָּל הַמְּנָחוֹת:
הֵנִיף וְהִגִּישׁ. דְּמִנְחַת הָעֹמֶר טְעוּנָה הֲנָפָה וְהַגָּשָׁה:

Bartenura explica que “chamuscavam-na ao fogo” se fazia ainda nas espigas, para nela cumprir o preceito do tostado; e que os Sábios primeiro debulhavam — não como se debulha o grão seco, com um bastão, mas com canas úmidas e talo de couve, para não esmagá-lo — e só depois cumpriam nele o preceito do tostado. “Punham-na no abuv”, pois os Sábios entendem que, se a chamuscassem diretamente ao fogo, não se chamaria “tostada” — e a halachá segue os Sábios. “Num moinho de grãos grossos”, que não mói fino, mas grosso, pois, se moessem fino, o farelo da casca passaria pela peneira junto com a farinha. “É obrigado na chalá”, pois a obrigação da chalá depende de a massa ser amassada, e essa massa só é amassada por particular depois de resgatada; “e isento dos dízimos”, porque seu processamento foi feito em posse sagrada. “Rabi Akiva o obriga” refere-se à farinha que sobra do issarón do Ómer, na chalá e nos dízimos — e a halachá não é como Rabi Akiva. “Vinha ao issarón”: primeiro punha o óleo e o incenso, antes de pôr a farinha; “derramava e misturava”: depois de pôr a farinha, como se faz em todas as oferendas; “elevava e aproximava”, pois a oferenda do Ómer requer elevação e aproximação.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Menachot 66a:17–18, sobre a Guemará desta mishná
מתני' ומהבהבין - בעזרה בשבלים: וחכמים אומרים - בתחילה חובטין אותו ולא כדרך תבואה יבשה שחובטין אותן במקל... אלא בקנים לחים ובקולחות בקלח של כרוב כדי שלא יתמעך ואח"כ מקיימין בו מצות קלי:
נותנין אותו באבוב - כלי של נחשת וזה שמו: של גרוסות - שלא היו טוחנות דק אלא עבה שכן דרך הסולת... ועל שם כך נקראת גרש כרמל: שלש עשרה נפה - מפרש באלו מנחות: וחייב בחלה - דחיוב חלה היינו גלגול דעיסה וגלגול של זו ביד הדיוט הוא לאחר שנפדה: ופטור מן המעשרות - דמירוח הוא ביד הקדש ומירוח הקדש פוטר מן המעשר:

Rashi explica que “chamuscavam” se fazia no pátio, ainda nas espigas; e que os Sábios entendem que primeiro debulhavam — não como se debulha o grão seco, com um bastão, mas com canas úmidas e talo de couve, para não esmagá-lo. “Punham-no no abuv” — um utensílio de cobre, esse é seu nome. “De grãos grossos”, pois não moíam fino, mas grosso, como convém à farinha fina. “Treze peneiras” se explica adiante. “É obrigado na chalá”, pois a obrigação da chalá depende do amassar da massa, e o amassar desta é feito por particular depois de resgatada; “e isento dos dízimos”, pois seu processamento foi feito em posse sagrada, e o processamento em posse sagrada isenta dos dízimos.

Rashi רש״י
Menachot 67b:4, sobre o rito da oferenda
מתני' בא לו לעשרון נותן תחילה שמנו ולבונתו יצק ובלל - שכן דרך כל המנחות שנותן שמן תחילה בכלי ואחר כך נותן סולת וחוזר ויוצק עליה שמן ובולל:
הניף והגיש - דאמרינן בפרק כל המנחות דמנחת העומר טעונה תנופה והגשה:

Rashi explica que, ao chegar ao issarón, primeiro se punha o óleo e o incenso, e depois se derramava e misturava — pois assim é o costume de todas as oferendas: põe-se o óleo primeiro no recipiente, depois a farinha, e torna-se a derramar óleo sobre ela e mistura-se. “Elevava e aproximava”, pois se ensina que a oferenda do Ómer requer elevação e aproximação.