Seder Kodashim · Massechet Meilá · Perek Dalet · Mishná 6 de 6

Orlá e kilei hacerem, veste e saco, saco e couro: fecho do capítulo

הָעָרְלָה וְכִלְאֵי הַכֶּרֶם מִצְטָרְפִין
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Fechando o capítulo, a mishná traz dois últimos casos de soma: a orlá com as diversidades do vinhedo, matéria de disputa entre os sábios e Rabi Shimon; e quatro materiais têxteis de medidas distintas de impureza de assento, que somam-se entre si apesar da diferença de medida

A orlá e as diversidades do vinhedo juntam-se uma com a outra. Rabi Shimon diz: não se juntam. A veste e o saco, o saco e o couro, o couro e a esteira, juntam-se um com o outro. Rabi Shimon diz: porque são aptos para impurificar-se por assento.

A orlá (o fruto dos primeiros três anos de uma árvore, proibido) e as diversidades do vinhedo (kilei hakerem, grãos plantados junto às videiras, também proibidos) são duas proibições distintas que, segundo o primeiro sábio da mishná, somam-se entre si: se caíram misturadas numa quantidade de comida permitida, a soma das duas basta para proibir a mistura toda, quando o permitido não chega a duzentas vezes o proibido. Rabi Shimon discorda e sustenta que não se somam, precisamente porque são dois nomes distintos — segundo o princípio já visto na mishná anterior. A segunda parte trata de quatro materiais têxteis usados para remendar roupas e objetos, cada qual com sua própria medida mínima para tornar-se impuro por assento de zav (a impureza transmitida por quem sofre fluxo, ao sentar): a veste comum, em três por três dedos; o saco de pelo de cabra, em quatro por quatro; o couro, em cinco por cinco; e a esteira, em seis por seis. Apesar dessas medidas serem diferentes entre si, a mishná ensina que se somam — um pedaço de cada material, somados, atingem a medida do material mais exigente entre eles. Rabi Shimon explica a razão dessa soma, apesar da diferença de medidas: todos os quatro materiais são igualmente aptos a impurificar-se por assento, servindo de remendo numa sela ou numa cobertura de montaria — e, sendo iguais nesse critério de fundo, somam-se apesar da diferença nas medidas específicas de cada um.

הָעָרְלָה וְכִלְאֵי הַכֶּרֶם מִצְטָרְפִין זֶה עִם זֶה. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, אֵינָן מִצְטָרְפִין. הַבֶּגֶד וְהַשַּׂק, הַשַּׂק וְהָעוֹר, הָעוֹר וְהַמַּפָּץ, מִצְטָרְפִין זֶה עִם זֶה. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, מִפְּנֵי שֶׁהֵן רְאוּיִין לִטַּמֵּא מוֹשָׁב:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Meilá 4:6

Rambam explica que a orlá e as diversidades do vinhedo anulam-se em uma parte para duzentas; e, quando se soma delas uma porção qualquer, e ela cai na proporção de uma para duzentas, a mistura é permitida, e em quantidade menor que essa, tudo se proíbe, como já explicamos no segundo capítulo de Orlá — e ali também explicamos a disputa de Rabi Shimon, cujas palavras são rejeitadas. E ainda, no tratado de Kelim, que a veste, se tiver três dedos por três dedos ou mais, torna-se impura por pisadela do zav; e o saco, que é tecido de pelo, precisa ter quatro por quatro ou mais; e o couro, cinco por cinco; e a esteira, que é o tecido grosso de lã do qual se fazem as coberturas de carga, precisa ter seis por seis. Depois diz que se somam umas às outras, mas do modo já explicado ali: que haja cinco da esteira e um do couro, ou quatro do couro e um do saco, ou três do saco e um da veste. E, uma vez que encontramos que esses materiais se somam para impurificar-se por assento de zav, embora suas medidas não sejam iguais — o que contraria a regra geral já mencionada — Rabi Shimon explicou essa razão, dizendo que o motivo pelo qual se somam é que há neles todos um mesmo elemento que os une: todos eles se tornam impuros por assento de zav; e, como cada um por si torna-se impuro por assento, somam-se para a impureza de assento. E este assunto, em resumo, é que nos preocupamos em igualar a medida da impureza nas coisas que impurificam, não nas coisas que se tornam impuras; e para esse propósito se dirige aqui, ao mencionar a veste, o saco e o couro, com essa intenção — para que não te enganes e penses que a regra dita por Rabi Yehoshua não abrange este caso; ela o abrange, como já explicamos.

Bartenura · Meilá 4:6
הָעָרְלָה וְכִלְאֵי הַכֶּרֶם מִצְטָרְפִין. שֶׁאִם אָכַל חֲצִי שִׁעוּר מִזֶּה וַחֲצִי שִׁעוּר מִזֶּה, מִצְטָרְפִין לִלְקוֹת אֶת הָאַרְבָּעִים. אִי נַמִּי, עָרְלָה וְכִלְאֵי הַכֶּרֶם מְעֹרָבִים יַחַד שֶׁנָּפְלוּ לְתוֹךְ הֶתֵּר, מִצְטָרְפִים לֶאֱסֹר בַּיָּבֵשׁ בְּמָאתַיִם, וּבַלַּח בְּנוֹתֵן טַעַם: אֵינָן מִצְטָרְפִין. כֵּיוָן דִּשְׁנֵי שֵׁמוֹת נִינְהוּ. אֶלָּא אִם יֵשׁ בַּקְּדֵרָה לְבַטֵּל טַעַם הָעָרְלָה בִפְנֵי עַצְמָהּ וְטַעַם כִּלְאֵי הַכֶּרֶם בִּפְנֵי עַצְמוֹ, הַכֹּל מֻתָּר. וְאֵין הֲלָכָה כְרַבִּי שִׁמְעוֹן: הַבֶּגֶד. שֶׁהוּא מִטַּמֵּא שְׁלֹשָׁה עַל שְׁלֹשָׁה: וְהַשַּׂק. שֶׁהוּא מִטַּמֵּא אַרְבָּעָה עַל אַרְבָּעָה: וְהָעוֹר. חֲמִשָּׁה עַל חֲמִשָּׁה: וְהַמַּפָּץ. שִׁשָּׁה עַל שִׁשָּׁה. הַבֶּגֶד מִצְטָרֵף לַשַּׂק שֶׁקַּל הֵימֶנּוּ, לִטַּמֵּא בְאַרְבָּעָה עַל אַרְבָּעָה. וְכֵן כָּל אֶחָד מִצְטָרֵף לַקַּל. וְכֻלָּן מִצְטָרְפִים זֶה עִם זֶה לִטַּמֵּא כְשִׁעוּר הַטֻּמְאָה הַקַּלָּה, אֲבָל לֹא הַקַּל עִם הֶחָמוּר: מִפְּנֵי שֶׁהֵן רְאוּיִים לִטַּמֵּא מוֹשָׁב. כְּלוֹמַר אַף עַל גַּב דַּאֲמַרַן לְעֵיל דְּכָל שֶׁאֵין שִׁעוּרָן שָׁוֶה אֵינָן מִצְטָרְפִין, הָכָא מִצְטָרְפִין אַף עַל פִּי שֶׁאֵין שִׁעוּרָן שָׁוֶה, הוֹאִיל וְהֵן שָׁוִין לְדָבָר זֶה שֶׁכָּל אֶחָד מֵהֶן רָאוּי לִטַּמֵּא בְּמוֹשַׁב הַזָּב הִלְכָּךְ מִצְטָרְפִין לְטֻמְאַת מוֹשָׁב:

Bartenura explica, sobre “a orlá e as diversidades do vinhedo juntam-se”: se alguém comeu metade da medida de uma e metade da medida da outra, somam-se para os quarenta açoites; ou ainda, se orlá e kilei hakerem, misturados juntos, caíram em quantidade permitida, somam-se para proibir, no seco na proporção de duzentos, e no líquido, se dão sabor. Sobre “não se juntam”: pois são dois nomes distintos; a menos que haja na panela como anular o sabor da orlá por si e o sabor das diversidades do vinhedo por si, caso em que tudo é permitido; e a lei não segue Rabi Shimon. Sobre “a veste”: que impurifica em três por três. Sobre “e o saco”: que impurifica em quatro por quatro. Sobre “e o couro”: cinco por cinco. Sobre “e a esteira”: seis por seis. A veste soma-se ao saco, que é mais leve que ela, para impurificar em quatro por quatro; e assim cada um soma-se ao mais leve; e todos se somam entre si para impurificar na medida da impureza mais leve, mas não o leve com o severo. Sobre “porque são aptos para impurificar-se por assento”: quer dizer que, embora tenhamos dito acima que tudo cuja medida não é igual não se soma, aqui se somam apesar de suas medidas não serem iguais, pois são iguais neste ponto — que cada um deles é apto a tornar-se impuro por assento de zav; por isso se somam para a impureza de assento.

Perush · os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Sobre a Guemará, Meilá 18a
גְּמָ׳ וּמִי צָרִיךְ רַבִּי שִׁמְעוֹן לְצֵרוּפֵי? וְהָתַנְיָא, רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר: כָּל שֶׁהוּא לְמַכּוֹת? תְּנִי: אֵין צְרִיכִין לְצָרֵף.

Rashi observa que a Guemará (18a) questiona a própria formulação da disputa: por que a mishná precisaria dizer que Rabi Shimon rejeita a soma entre orlá e kilei hakerem, se uma baraita ensina que, na opinião de Rabi Shimon, basta qualquer quantidade (kol shehú) de orlá ou de kilei hakerem para receber os açoites — tornando a questão da soma irrelevante para ele? A Guemará resolve a dificuldade emendando o texto da baraita: em vez de “não precisam se somar”, o correto é entender que, mesmo para Rabi Shimon, a exigência de soma existe para outros efeitos práticos, harmonizando as duas fontes.

Rashi רַשִׁ״י
Sobre a Guemará, Meilá 18a
גְּמָ׳ תָּנָא: קִצֵּעַ מִכֻּלָּן שְׁלֹשָׁה, וְעָשָׂה מֵהֶן בֶּגֶד לְמִשְׁכָּב — שְׁלֹשָׁה, לְמוֹשָׁב — טֶפַח, לַאֲחִיזָה — כָּל שֶׁהוּא.

A Guemará (18a) acrescenta, numa baraita, que quem recorta pequenos pedaços de cada um desses quatro materiais e faz deles um único remendo, a medida que o torna impuro depende da finalidade para a qual foi destinado: três dedos quadrados, se destinado a remendar roupa de cama; um palmo, se destinado a remendar assento; e qualquer quantidade, por menor que seja, se destinado apenas a segurar algo com a mão — como o pano que os tecelões enrolam no dedo para proteger a linha, ou o pano usado por quem colhe figos para não sujar as mãos com o mel da fruta. Rashi explica que essa flexibilidade de medida, conforme o uso pretendido, é o pano de fundo para compreender por que os quatro materiais da mishná, apesar de suas medidas distintas, podem somar-se: a soma acompanha sempre a finalidade e o critério comum de impurificação, não a medida física isolada de cada material.

הֲדַרַן עֲלָךְ “קָדְשֵׁי מִזְבֵּחַ”

Com esta mishná, encerra-se o Perek Dalet, quarto capítulo de Massechet Meilá. A Guemará do Talmud Bavli fecha o capítulo em Meilá 18a com a fórmula tradicional acima — “Retornaremos a ti, 'Os Consagrados do Altar'” —, o hadran que cita as palavras de abertura do próprio capítulo.

Este quarto capítulo, distribuído por Meilá 15a–18a, dedicou-se inteiramente ao princípio da soma (tzeruf): os consagrados do altar e os da manutenção do Templo, que se somam para meilá (4:1); os cinco e os seis componentes das oferendas de subida e de agradecimento, e a família de doações chamadas teruma (4:2); pigulim, notarim, carcaças e répteis, fechando com a regra geral de Rabi Yehoshua sobre impureza e medida iguais (4:3); o caso invertido de pigul e nótar, que não se somam por serem dois nomes, e o alimento impuro por fonte primária e por descendente, que se somam no grau mais leve (4:4); as cinco medidas de alimentos e as duas de bebidas que se somam entre si (4:5); e, por fim, a orlá com as diversidades do vinhedo, e os quatro materiais têxteis de medidas distintas que se somam para a impureza de assento, fechando o capítulo com a explicação de Rabi Shimon sobre o critério verdadeiro da soma (4:6).

Segue-se o Perek Hei de Massechet Meilá, que já está publicado e dá continuidade ao estudo deste tratado dedicado às leis do uso indevido de bens consagrados ao Templo; o Perek Vav, sexto e último capítulo, será publicado em breve.