O pigul e o nótar não se juntam um com o outro, porque são dois nomes. O réptil e a carcaça, e assim a carcaça e a carne do morto, não se juntam um com o outro para impurificar, mesmo no mais leve dos dois. O alimento que se impurificou por fonte primária de impureza e o que se impurificou por descendente da impureza juntam-se um com o outro para impurificar no mais leve dos dois.
Embora a mishná anterior tenha ensinado que pigulim se somam entre si e notarim se somam entre si, esta mishná esclarece que pigul e nótar não se somam um com o outro: meio cazáit de carne pigul mais meio cazáit de carne nótar não completam o cazáit que gera carét, porque são dois nomes — duas proibições distintas na Torá, ainda que ambas recaiam sobre carne sacrificial. Da mesma forma, o réptil e a carcaça, e a carcaça e a carne do morto, não se somam para impurificar, mesmo no mais leve dos dois — isto é, nem mesmo para atingir a medida menor e mais fácil de completar (a lentilha do réptil, por exemplo), pois cada categoria de impureza tem seu próprio conjunto de leis, e uma não reforça a outra. A mishná fecha, porém, com um caso em que a soma volta a valer: o alimento que se impurificou por contato com uma fonte primária de impureza (av hatumá, tornando-se impureza de primeiro grau) e o que se impurificou por contato com um descendente da impureza (valad hatumá, impureza de segundo grau) somam-se entre si para completar a medida de um ovo — mas apenas para produzir o efeito mais leve dos dois, ou seja, para que o conjunto resultante impurifique como impureza de segundo grau, o efeito mais fraco entre os dois tipos somados.
Rambam recorda que já explicamos, em diversas ocasiões, que alimentos impuros não impurificam outros até que completem a medida de um ovo; e já explicamos, no início de Pessachim, que o alimento que se impurificou por uma fonte primária de impureza chama-se “primeiro”, e o que se impurificou por um descendente da impureza chama-se “segundo”; e lá explicamos que o segundo, se tocar em outro alimento, o impurifica, tornando-o “terceiro” — e o primeiro também impurifica esse alimento, ainda que o torne apenas “segundo”, pois a impureza dos alimentos é de origem rabínica, como já explicamos ali. Dissemos, então, que o primeiro e o segundo se somam, e que, ao completarem juntos a medida de um ovo, e chegando a eles outro alimento, este se impurifica e se torna “terceiro” quanto à impureza — entenda isso bem.
Bartenura explica, sobre “dois nomes”: duas proibições distintas. Sobre “no mais leve dos dois”: quer dizer que não se soma para a impureza mesmo na medida leve — por exemplo, que se some menos de uma medida de lentilha de réptil para completar o cazáit de carcaça — e com muito mais razão não se soma para a medida severa. E, do mesmo modo, meio cazáit de morto não se soma a meio cazáit de carcaça para impurificar nem mesmo com a impureza de até a noite. Sobre “o alimento que se impurificou por fonte primária”: este é o descendente de primeiro grau. Sobre “e que se impurificou por descendente da impureza”: este é o descendente de segundo grau. Sobre “juntam-se um com o outro”: para a medida de um ovo, que é a medida da impureza de alimentos. Sobre “para impurificar no mais leve dos dois”: para tornar terceiro do mesmo modo que o segundo torna terceiro, e isso é o mais leve dos dois; mas não se somam para que se tornem segundo, do modo que o primeiro torna segundo, pois isso seria o mais severo dos dois.
Rashi explica que a Guemará (17b) restringe o ensino de que pigul e nótar não se somam apenas à impureza das mãos — um decreto rabínico que impede que se somem, pois seria “decreto sobre decreto”. Mas, para efeito de comer — isto é, para responsabilizar quem come um cazáit somado de pigul e nótar juntos pela transgressão de comer alimento sacrificial desqualificado — eles se somam, segundo Rabi Eliezer, que deriva do versículo “não se comerá, pois é santo” um princípio amplo: tudo que, no âmbito do sagrado, está desqualificado, o versículo estabelece um proibitivo sobre seu consumo, unificando pigul e nótar sob essa mesma proibição geral para fins de soma.
Sobre a soma entre o alimento impurificado por fonte primária e o impurificado por descendente da impureza, Rashi traz a explicação de Rabi Shimon citada na Guemará (17b): a razão pela qual se somam é que, em certo sentido, “é possível ao segundo tornar-se primeiro”. Como essa afirmação literal não se sustenta (o segundo grau nunca retrocede a primeiro), Rava reinterpreta: o verdadeiro sentido é perguntar quem causou o segundo grau de impureza — não foi o primeiro? Por essa relação de causalidade entre os dois graus, eles se somam para produzir, juntos, o efeito mais leve entre ambos. Rav Ashi acrescenta, com outras palavras, que primeiro e segundo, em relação ao terceiro grau que juntos produzem, “são de uma mesma casa” — unidos pela mesma origem causal.