Todos os pigulim juntam-se uns aos outros. Todos os notarim juntam-se uns aos outros. Todas as carcaças juntam-se umas às outras. Todos os répteis juntam-se uns aos outros. O sangue do réptil e sua carne juntam-se. Regra geral disse Rabi Yehoshua: tudo cuja impureza e medida são iguais, juntam-se uns aos outros. Sua impureza mas não sua medida, sua medida mas não sua impureza, nem sua impureza nem sua medida — não se juntam uns aos outros.
Diferentemente da mishná anterior, que somava elementos de um único sacrifício ou de doações com nome comum, esta mishná soma porções de sacrifícios diferentes: um pedaço de carne pigul de uma oferenda de subida com um pedaço pigul de uma oferenda de pecado, por exemplo, somam-se para completar o cazáit que gera a pena de carét (extirpação). O mesmo vale para porções nótar de sacrifícios distintos. Passando das ofertas às impurezas alimentares comuns, a mishná ensina que pedaços de carcaças (nevelot) de animais diferentes — mesmo de espécies distintas, puras e impuras — somam-se para completar o cazáit que torna impuro por contato e transporte; e que os oito répteis (shratzim) enumerados na Torá somam-se entre si para completar a medida de uma lentilha (adashá), que torna impuro por contato. O sangue do réptil soma-se à carne do mesmo réptil para completar essa medida de lentilha, por extensão do próprio versículo que declara o réptil impuro. Fecha a mishná a regra geral de Rabi Yehoshua, que rege todas essas somas: dois itens só se juntam quando compartilham tanto o grau de impureza (a duração e a força com que impurificam) quanto a medida mínima exigida. Se compartilham apenas um dos dois critérios — a impureza mas não a medida, a medida mas não a impureza — ou nenhum dos dois, não se somam.
Rambam explica que, ao completar-se a medida de cazáit a partir de muitos pigulim — ou seja, de oferenda de subida, de chatat, de asham e dos demais consagrados de santidade leve — tudo se soma, e há responsabilidade de carét; e assim também o nótar. E, do mesmo modo, se completou um cazáit de carne de carcaça, ainda que de espécies diferentes, ela torna impuro com impureza de carcaça; mas, quanto à proibição de comer carcaça, não se soma a carcaça de animal puro com a de animal impuro, até que se coma de uma delas sozinha um cazáit, e então recebe açoites por comer carcaça. E assim os oito répteis, quando se soma deles uma medida de lentilha, tornam impuro com impureza de réptil. E é princípio estabelecido entre nós que o sangue do réptil é como sua carne, e já mencionamos isso algumas vezes, apoiado no Sifra sobre o versículo “e isto vos será impuro entre os répteis que se arrastam sobre a terra”, do qual se aprende a incluir o sangue do réptil para que torne impuro como sua carne. E convém que saibas que a carne dos répteis, quando alguém come dela depois de sua morte na medida de uma lentilha, recebe açoites — é o que se ensina: assim como a impureza se dá na medida de lentilha, também a proibição de comer se dá na medida de lentilha. Regra geral, disse Rabi Yehoshua: tudo cuja impureza e medida são iguais, juntam-se uns aos outros; a impureza mas não a medida, a medida mas não a impureza, nem a impureza nem a medida, não se juntam uns aos outros. Esta regra é verdadeira.
Bartenura explica, sobre “todos os pigulim”: de oferenda de subida, de chatat, de asham e de ofertas de paz. Sobre “juntam-se uns aos outros”: para quem come deles um cazáit, ficar sujeito a carét; e o mesmo vale para todos os notarim. Sobre “todas as carcaças juntam-se”: mesmo a carcaça de animal impuro com a de animal puro, somam-se para o cazáit quanto à impureza; mas não quanto aos açoites, pois não recebe açoites até comer um cazáit inteiro de carcaça de animal puro sozinha, ou um cazáit inteiro da impura sozinha, por serem dois nomes distintos — quem come carne de animal impuro não recebe açoites por “carcaça”, mas por “comer carne de animal impuro”. Sobre “e todos os répteis juntam-se uns aos outros”: para o cazáit, para responsabilizar quem os come com açoites; e os oito répteis escritos na Torá somam-se entre si para responsabilizar quem os come na medida de uma lentilha — assim como sua medida de impureza, assim sua medida de comer. Sobre “o sangue do réptil e sua carne juntam-se”: pois se amplia a partir do versículo “e isto vos será impuro entre os répteis que se arrastam sobre a terra”, incluindo o sangue do réptil para que torne impuro como sua carne. Sobre “tudo cuja impureza e medida são iguais”: como carcaça com carcaça, ou réptil com réptil. Sobre “sua impureza mas não sua medida”: como carcaça e réptil, cuja impureza é igual (ambos impuros até a noite), mas não a medida — a carcaça tem medida de cazáit, e o réptil, de lentilha. Sobre “sua medida mas não sua impureza”: como carcaça e morto, ambos impuros na medida de cazáit, mas não na impureza — a impureza do morto dura sete dias, e a da carcaça, só até a noite. Sobre “nem sua impureza nem sua medida”: como morto e réptil, cuja impureza difere (sete dias contra até a noite) e cuja medida também difere (cazáit contra lentilha). Sobre “estes não se juntam uns aos outros”: por serem distintos.
Rashi explica que, sobre a soma das carcaças de animais puros com as de animais impuros, Rav restringe o ensino da mishná apenas à impureza: para efeito de açoites por comer, a proibição de carcaça (que rege igualmente as espécies puras) não se soma à proibição de comer animal impuro, porque um isur (proibição) não incide sobre outro isur já vigente sobre o mesmo item; por isso, carcaças puras somam-se entre si e carcaças impuras somam-se entre si, mas as duas categorias não se somam para os açoites, embora se somem para a impureza. Levi discorda e sustenta que também para a aplicação dos açoites elas se somam, pois, em sua visão, um isur pode sim incidir sobre outro. A Guemará (16a) traz ainda uma baraita sobre o caso de meio cazáit de vaca morta e meio cazáit de camelo vivo, explorando os limites dessa soma entre a proibição de carcaça e a de membro de animal vivo.
Rashi registra a discussão sobre a medida para os açoites por comer répteis: Rav sustenta que só se recebem açoites por comer um cazáit inteiro, enquanto uma baraita citada por Rabi Yossi bar Rabi Chanina, elogiada por Rabi Yochanan, ensina que a medida de comer segue a medida de impureza — uma lentilha. A Guemará resolve a aparente contradição distinguindo répteis vivos (onde vale a medida de cazáit) de répteis já mortos (onde vale a medida de lentilha, igual à da impureza), e depois refina ainda mais a distinção entre os oito répteis explicitamente mencionados na Torá — para os quais a medida de comer é sempre a lentilha, por serem “destacados” (muvdalin) no próprio versículo — e os demais répteis não mencionados individualmente, para os quais vale a medida de cazáit.
Sobre a soma entre sangue e carne do réptil, Rashi precisa que a mishná fala apenas do sangue e da carne de um mesmo réptil: se o sangue vier de um réptil e a carne de outro, não se somam para completar a lentilha. A Guemará (17a) discute ainda, a partir de uma baraita, se dois répteis inteiros e distintos (por exemplo, uma doninha e um rato) podem se somar entre si mesmo quando fragmentados — concluindo, por meio de Rav Yossef, que a soma vale quando cada fragmento provém de um réptil originalmente inteiro (“bekulo”), mas não quando provém apenas de uma porção parcial de cada um (“bemiktzato”). A discussão se apoia ainda no versículo “e isto vos será impuro”, que a Guemará (17a) atribui, numa tradição transmitida por Rabi Shimon bar Yochai a Rabi Matia ben Charash, como fonte para a impureza do próprio sangue do réptil.