Seder Kodashim · Massechet Meilá · Perek Guimel · Mishná 6 de 8

O poço, o monturo, o pombal, a árvore e o campo

כָּל הָרָאוּי לַמִּזְבֵּחַ וְלֹא לְבֶדֶק הַבַּיִת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná ensina que tudo o que, por si mesmo, não é próprio nem ao altar nem à manutenção do Templo tem meilá plena, inclusive no que ele contém no momento da consagração — mas não no que se acrescenta depois — e acrescenta um conjunto de regras sobre não desfrutar do que cresce de um bem consagrado

Tudo o que é próprio ao altar e não à manutenção do Templo, à manutenção do Templo e não ao altar, nem ao altar nem à manutenção do Templo — há meilá nele. Como assim? Consagrou um poço cheio de água, um monturo cheio de esterco, um pombal cheio de pombas, uma árvore cheia de frutos, um campo cheio de ervas — há meilá neles e no que está dentro deles. Mas se consagrou um poço e depois se encheu de água, um monturo e depois se encheu de esterco, um pombal e depois se encheu de pombas, uma árvore e depois se encheu de frutos, um campo e depois se encheu de ervas — há meilá neles, mas não há meilá no que está dentro deles, palavras de Rabi Iehudá. E Rabi Shimon diz: aquele que consagra um campo e uma árvore — há meilá neles e em seus produtos, porque são produtos do consagrado. O filhote da dizimada não deve mamar da dizimada, mas outros podem fazer disso doação voluntária. O filhote de animais consagrados não deve mamar dos consagrados, mas outros podem fazer disso doação voluntária. Os trabalhadores não devem comer dos figos secos do Templo. E do mesmo modo, a vaca não deve comer da vícia do Templo.

A mishná estabelece um princípio amplo: mesmo bens que não têm aptidão alguma para o serviço do Templo — nem para o altar, nem para a manutenção do edifício — ainda assim têm meilá plena, pois seu valor monetário pertence ao Templo desde a consagração. O exemplo do poço cheio de água ilustra o caso de algo apto ao altar e não à manutenção (água viva serve à libação, mas não ao edifício); do monturo cheio de esterco, algo que não serve a nenhum dos dois; do pombal cheio de pombas, algo apto ao altar; da árvore cheia de frutos, algo apto aos primeiros frutos mas não à manutenção; do campo cheio de ervas, novamente nenhum dos dois — e, em todos, há meilá tanto no bem quanto no que já estava dentro dele no momento exato da consagração. A distinção decisiva, porém, é temporal: se o poço, o monturo, o pombal, a árvore ou o campo foram consagrados vazios, e só depois vieram a se encher, então há meilá no bem original, mas não no que se acrescentou posteriormente — pois aquilo que cresce depois da consagração não é, para Rabi Iehudá, parte do que foi consagrado. Rabi Shimon discorda quanto ao campo e à árvore especificamente: para ele, todo o crescimento posterior de uma terra ou árvore consagrada é considerado “produto do consagrado” e entra sob a meilá, ainda que tenha brotado depois. A mishná fecha com três aplicações práticas do princípio de que não se desfruta do crescimento do consagrado: o filhote de uma fêmea separada como dízimo do gado (ma'asser behemá) não deve mamar de sua mãe, pois seu leite é consagrado; o mesmo vale para o filhote de uma fêmea diretamente consagrada ao Templo — em ambos os casos, porém, um terceiro pode doar seu próprio leite voluntariamente para alimentá-los; e, do mesmo modo, os trabalhadores do Templo não podem comer os figos secos do Templo nem podem os animais de trabalho comer da vícia consagrada durante a debulha, ainda que a lei geral permita ao animal comer livremente do que debulha.

כָּל הָרָאוּי לַמִּזְבֵּחַ וְלֹא לְבֶדֶק הַבַּיִת, לְבֶדֶק הַבַּיִת וְלֹא לַמִּזְבֵּחַ, לֹא לַמִּזְבֵּחַ וְלֹא לְבֶדֶק הַבַּיִת, מוֹעֲלִין בּוֹ. כֵּיצַד, הִקְדִּישׁ בּוֹר מָלֵא מַיִם, אַשְׁפָּה מְלֵאָה זֶבֶל, שׁוֹבָךְ מָלֵא יוֹנִים, אִילָן מָלֵא פֵרוֹת, שָׂדֶה מְלֵאָה עֲשָׂבִים, מוֹעֲלִין בָּהֶם וּבְמַה שֶּׁבְּתוֹכָן. אֲבָל אִם הִקְדִּישׁ בּוֹר וְאַחַר כָּךְ נִתְמַלֵּא מַיִם, אַשְׁפָּה וְאַחַר כָּךְ נִתְמַלְאָה זֶבֶל, שׁוֹבָךְ וְאַחַר כָּךְ נִתְמַלֵּא יוֹנִים, אִילָן וְאַחַר כָּךְ נִתְמַלֵּא פֵרוֹת, שָׂדֶה וְאַחַר כָּךְ נִתְמַלְאָה עֲשָׂבִים, מוֹעֲלִין בָּהֶן, וְאֵין מוֹעֲלִין בְּמַה שֶּׁבְּתוֹכָן, דִּבְרֵי רַבִּי יְהוּדָה. וְרַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, הַמַּקְדִּישׁ שָׂדֶה וְאִילָן, מוֹעֲלִין בָּהֶם וּבְגִדּוּלֵיהֶם, מִפְּנֵי שֶׁהֵן גִּדּוּלֵי הֶקְדֵּשׁ. וְלַד מְעֻשֶּׂרֶת לֹא יִינַק מִן הַמְעֻשֶּׂרֶת. וַאֲחֵרִים מִתְנַדְּבִים כֵּן. וְלַד מֻקְדָּשִׁין לֹא יִינַק מִן הַמֻּקְדָּשִׁין. וַאֲחֵרִים מִתְנַדְּבִים כֵּן. הַפּוֹעֲלִים לֹא יֹאכְלוּ מִגְּרוֹגָרוֹת שֶׁל הֶקְדֵּשׁ. וְכֵן פָּרָה לֹא תֹאכַל מִכַּרְשִׁינֵי הֶקְדֵּשׁ:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Meilá 3:6

Rambam explica que o dízimo do gado é consagrado, e por isso, se a que saiu era fêmea, há meilá em seu leite; e o que a mishná chama de “outros podem fazer disso doação voluntária” significa que alguém pode doar leite comum para amamentar o filhote da dizimada ou o filhote dos consagrados, já que não é permitido a ele mamar do leite de sua mãe, pois isso é considerado como uma espécie de serviço, e a tosquia e o serviço não são permitidos nas coisas sagradas, como já se explicou em Bechorot. E mesmo que os trabalhadores tenham estipulado com o Templo a respeito de seu sustento, não comerão figos secos do Templo, mas o Templo lhes dá o valor do sustento; e do mesmo modo, se debulhou vícia do Templo, é obrigado a amordaçar a vaca no momento da debulha e impedi-la de comer dali, pois está dito “não amordaçarás o boi em sua debulha” — isto é, na debulha que lhe é própria não o amordaçarás, mas na debulha do consagrado, que lhe é vedada, deves amordaçá-lo.

Bartenura · Meilá 3:6
בּוֹר מָלֵא מַיִם. גּוּפָן רָאוּי לְבֶדֶק הַבַּיִת לְבִנְיָן, וְאֵין גּוּפָן רָאוּי לַמִּזְבֵּחַ, שֶׁאֵין רְאוּיִין לְנִסּוּךְ הַמַּיִם אֶלָּא מַיִם חַיִּים: וְאֵין מוֹעֲלִין בְּמַה שֶּׁבְּתוֹכָן. דְּאֵין מוֹעֲלִים בְּמַה שֶּׁהִשְׁבִּיחַ לְאַחַר שֶׁהֻקְדַּשׁ: וְלַד מְעֻשֶּׂרֶת. אִם יָצְאָה נְקֵבָה עֲשִׂירִית תַּחַת הַשֵּׁבֶט, וְהָיָה לָהּ בֵּן קֹדֶם לָכֵן, לֹא יִינַק שׁוּב מִמֶּנָּה, שֶׁבְּנָהּ חֻלִּין הוּא וְהִיא מַעֲשֵׂר, וְנִמְצָא נֶהֱנֶה מֵחֲלֵב מֻקְדָּשִׁים: לֹא יֹאכְלוּ מִגְּרוֹגָרוֹת שֶׁל הֶקְדֵּשׁ. וַאֲפִלּוּ הִתְנוּ שֶׁיַּעֲשׂוּ מְלָאכָה בִמְזוֹנוֹתֵיהֶן אֵין אוֹכְלִים מִגְּרוֹגָרוֹת שֶׁל הֶקְדֵּשׁ, אֶלָּא הַגִּזְבָּר נוֹתֵן לָהֶם דְּמֵי מְזוֹנוֹת מִשֶּׁל הֶקְדֵּשׁ: וְכֵן פָּרָה. שֶׁדָּשָׁה בְכַרְשִׁינֵי הֶקְדֵּשׁ, חוֹסֵם פִּיהָ שֶׁלֹּא תֹאכַל מִשֶּׁל הֶקְדֵּשׁ, דִּכְתִיב לֹא תַחְסֹם שׁוֹר בְּדִישׁוֹ, בְּדַיִשׁ שֶׁרָאוּי לוֹ לֹא תַחְסֹם, אֲבָל אַתָּה חוֹסֵם בְּדַיִשׁ שֶׁל הֶקְדֵּשׁ שֶׁאֵינוֹ רָאוּי לוֹ:

Bartenura explica, sobre “um poço cheio de água”: seu corpo é próprio à manutenção do Templo, para construção, mas não é próprio ao altar, pois só se libam águas vivas sobre o altar. Sobre “e não há meilá no que está dentro deles”: pois não há meilá no que se acrescentou depois da consagração. Sobre “o filhote da dizimada”: se saiu fêmea como a décima sob a vara, e ela já tinha um filhote anterior, este não voltará a mamar dela, pois seu filhote é comum e ela é dízimo, e resultaria em desfrutar de leite consagrado. Sobre “os trabalhadores não devem comer dos figos secos do Templo”: mesmo que tenham estipulado trabalhar em troca de seu sustento, não comem dos figos secos do Templo, mas o tesoureiro lhes dá o valor do sustento em dinheiro do Templo. Sobre “e do mesmo modo a vaca”: que debulha a vícia do Templo, amordaça sua boca para que não coma do que é do Templo, pois está escrito “não amordaçarás o boi em sua debulha” — na debulha que lhe é própria não o amordaçarás, mas amordaças na debulha do Templo, que não lhe é própria.