Seder Moed · Massechet Meguilá · Perek Dalet · Mishná 1 de 10 — abre o último perek

Em pé ou sentado, e os três leitores da Torá

הַקּוֹרֵא אֶת הַמְּגִלָּה עוֹמֵד וְיוֹשֵׁב
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O último perek do tratado abre com regras finais sobre a leitura da Meguilá e faz a transição para as regras da leitura pública da Torá nos dias comuns da semana e no Shabat à tarde.

Quem lê a Meguilá pode fazê-lo em pé ou sentado. Se um a leu, ou se dois a leram, cumpriram. Lugar onde costumam abençoar, abençoe; e onde não costumam, não abençoe.Ao contrário da leitura da Torá em público, que exige estar de pé, a Meguilá pode ser lida tanto em pé quanto sentado, à escolha de quem lê. E, se dois leitores a lerem juntos em voz alta simultaneamente, ambos cumprem sua obrigação — não se aplica aqui o princípio de que duas vozes não são audíveis como uma. Quanto à bênção antes e depois da leitura, a prática segue o costume de cada localidade.

Na segunda e na quinta e no Shabat pela tarde leem três, não se diminui deles nem se acrescenta a eles, e não se conclui com os Profetas. O que abre e o que fecha na Torá abençoa antes e depois dela.Nos dias regulares de leitura pública da Torá — segunda-feira, quinta-feira e a oração da tarde de Shabat — chamam-se exatamente três pessoas à leitura, nem menos nem mais; e não se acrescenta, nesses dias, uma leitura complementar dos Profetas. O primeiro dos três leitores recita a bênção antes de começar sua leitura, e o último recita a bênção depois de concluir a sua — os leitores intermediários não recitam bênção alguma.

הַקּוֹרֵא אֶת הַמְּגִלָּה עוֹמֵד וְיוֹשֵׁב. קְרָאָהּ אֶחָד, קְרָאוּהָ שְׁנַיִם, יָצְאוּ. מְקוֹם שֶׁנָּהֲגוּ לְבָרֵךְ, יְבָרֵךְ. וְשֶׁלֹּא לְבָרֵךְ, לֹא יְבָרֵךְ. בְּשֵׁנִי וּבַחֲמִישִׁי וּבְשַׁבָּת בַּמִּנְחָה, קוֹרִין שְׁלֹשָׁה, אֵין פּוֹחֲתִין וְאֵין מוֹסִיפִין עֲלֵיהֶן, וְאֵין מַפְטִירִין בַּנָּבִיא. הַפּוֹתֵחַ וְהַחוֹתֵם בַּתּוֹרָה, מְבָרֵךְ לְפָנֶיהָ וּלְאַחֲרֶיהָ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Shemot (Êxodo) 18:14
וַיֵּשֶׁב מֹשֶׁה לִשְׁפֹּט אֶת הָעָם וַיַּעֲמֹד הָעָם עַל מֹשֶׁה מִן הַבֹּקֶר עַד הָעָרֶב
E Moshé se sentou para julgar o povo, e o povo permaneceu de pé diante de Moshé desde a manhã até a tarde.

A Guemará contrasta este versículo — no qual Moshé, ensinando a Torá ao povo, permanece sentado enquanto o povo fica de pé — com a exigência de que a leitura pública da Torá em si seja feita de pé, derivando por analogia que também a leitura em si, sendo mais formal, exige postura mais rigorosa que a Meguilá. A Guemará explica que a leitura da Meguilá, por não ter o mesmo grau de solenidade formal da leitura da Torá em público, permite maior flexibilidade quanto à postura, refletindo a diferença de caráter entre o preceito rabínico de Purim e a leitura bíblica da própria Torá.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica por que a bênção da Meguilá é sempre recitada antes dela, independentemente do costume local sobre a bênção final.

Rambam · Perush HaMishná, Meguilá 4:1
אָמְרוּ מָקוֹם שֶׁנָּהֲגוּ לְבָרֵךְ יְבָרֵךְ, רְצוֹנוֹ לוֹמַר אַחַר קְרִיאַת הַמְּגִלָּה. אֲבָל לְפָנֶיהָ עַל כָּל פָּנִים צָרִיךְ לְבָרֵךְ, לְפִי שֶׁהוּא מִצְוָה, וְהָעִקָּר אֶצְלֵנוּ כָּל הַמִּצְוֹת כֻּלָּן מְבָרֵךְ עֲלֵיהֶם עוֹבֵר לַעֲשִׂיָּתָם.
Quando a mishná diz "lugar onde costumam abençoar, abençoe", refere-se especificamente à bênção recitada depois da leitura da Meguilá — essa sim varia conforme o costume local. Mas a bênção anterior à leitura deve ser recitada em todo lugar, sem exceção, pois trata-se de mitzvá, e o princípio estabelecido entre nós é que se abençoa antes de realizar qualquer mitzvá, sem depender de costume — apenas a bênção final, de caráter mais opcional, ficou sujeita à variação de uso entre as comunidades.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica por que dois leitores simultâneos cumprem a obrigação apesar do princípio de que duas vozes não se ouvem como uma; Rashi detalha a instituição de Ezra sobre a leitura de segunda e quinta-feira.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Meguilá 4:1
הַפּוֹתֵחַ וְהַחוֹתֵם בַּתּוֹרָה מְבָרֵךְ לְפָנֶיהָ וּלְאַחֲרֶיהָ: זֶה מְבֹאָר.

"O que abre e o que fecha na Torá abençoa antes e depois dela" — isto é claro: o primeiro dos leitores chamados recita a bênção antes de sua própria leitura, e o último recita a bênção depois da sua, encerrando a leitura pública com essa moldura de bênçãos que abrange toda a sequência de leitores intermediários.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Meguilá 4:1
קְרָאוּהָ שְׁנַיִם. בְּיַחַד. יָצְאוּ. וְלֹא אָמְרִינַן שְׁנֵי קוֹלוֹת אֵין נִשְׁמָעִין כְּאֶחָד.

"Se dois a leram" — juntos, simultaneamente, em voz alta. "Cumpriram" — e não se aplica aqui o princípio geral segundo o qual duas vozes falando ao mesmo tempo não podem ser distintamente ouvidas por quem escuta; por se tratar de uma leitura muito querida ao povo, que se esforça para escutá-la com atenção redobrada, considera-se que os ouvintes conseguem, sim, acompanhar ambas as vozes.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Meguilá 21a
בְּשֵׁנִי וּבַחֲמִישִׁי בַּשַּׁחֲרִית וּבְשַׁבָּת בַּמִּנְחָה - עֶזְרָא תִּקֵּן שֶׁיְּהוּ קוֹרִין בְּשֵׁנִי וּבַחֲמִישִׁי, וְהָכָא אַשְׁמְעִינַן דִּשְׁלֹשָׁה הֵן: כֹּהֵן וְלֵוִי וְיִשְׂרָאֵל.

"Na segunda e na quinta pela manhã e no Shabat pela tarde" — foi Ezra quem instituiu que se lesse a Torá publicamente nesses dias, para que o povo não passasse mais de três dias sem ouvir a leitura da Torá. E aqui a mishná nos ensina que os três leitores chamados nesses dias correspondem à divisão tradicional: um cohen, um levita e um israelita comum, na ordem própria de precedência.