Seder Moed · Massechet Meguilá · Perek Bet · Mishná 2 de 6

A intenção do coração e o material da escrita

קְרָאָהּ סֵרוּגִין וּמִתְנַמְנֵם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná trata de três situações intermediárias — a leitura interrompida, a leitura que ocorre por acaso durante outra atividade, e a validade do material sobre o qual a Meguilá está escrita.

Se a leu em intervalos, ou cochilando, cumpriu.Quem lê a Meguilá em trechos separados, pausando e retomando, ou mesmo cochilando entre uma parte e outra, cumpre sua obrigação — desde que continue e conclua a leitura.

Se estava escrevendo-a, expondo-a ou corrigindo-a, se dirigiu seu coração cumpriu, e se não, não cumpriu.Se alguém, no processo de copiar a Meguilá, de expô-la publicamente ou de revisar seu texto, pronuncia as palavras e tem a intenção de cumprir com isso o preceito da leitura, cumpre sua obrigação; mas se não teve essa intenção — lendo apenas mecanicamente, sem voltar-se para o cumprimento do preceito —, não cumpriu.

Se estava escrita com tinta vegetal, com almagre, com goma ou com vitríolo, sobre papel ou sobre couro não curtido, não cumpriu, até que esteja escrita em assírio, sobre pergaminho e com tinta.A Meguilá só é válida quando escrita com tinta própria de sefer Torá, em escrita assíria — o alfabeto hebraico quadrado —, sobre pergaminho preparado adequadamente; escrita com outros pigmentos ou sobre materiais impróprios, como papel comum ou couro que não passou pelo processo de curtimento, não cumpre a obrigação.

קְרָאָהּ סֵרוּגִין, וּמִתְנַמְנֵם, יָצָא. הָיָה כוֹתְבָהּ, דּוֹרְשָׁהּ, וּמַגִּיהָהּ, אִם כִּוֵּן לִבּוֹ, יָצָא. וְאִם לָאו, לֹא יָצָא. הָיְתָה כְּתוּבָה בְּסַם, וּבְסִקְרָא, וּבְקוֹמוֹס וּבְקַנְקַנְתּוֹם, עַל הַנְּיָר וְעַל הַדִּפְתְּרָא, לֹא יָצָא, עַד שֶׁתְּהֵא כְּתוּבָה אַשּׁוּרִית, עַל הַסֵּפֶר וּבִדְיוֹ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Shemot (Êxodo) 17:14
כְּתֹב זֹאת זִכָּרוֹן בַּסֵּפֶר
Escreve isto por memória no livro.

A Guemará compara as exigências de escrita da Meguilá às do sefer Torá, derivadas da expressão "no livro" — "בַּסֵּפֶר" —, que a tradição interpreta como exigindo pergaminho preparado especificamente para a escrita sagrada, e tinta permanente, e não pigmentos como o vitríolo ou a goma, que se apagam ou desbotam. A palavra "סֵפֶר" torna-se assim o termo técnico repetido na própria mishná — "עַל הַסֵּפֶר" —, ligando a validade material da Meguilá à mesma exigência que rege a escrita de um rolo da Torá: pergaminho, tinta e escrita assíria, o alfabeto quadrado usado desde a volta do exílio da Babilônia.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam distingue a leitura por acaso, no meio de outra atividade, da leitura deliberada, e explica o critério da intenção.

Rambam · Perush HaMishná, Meguilá 2:2
סֵרוּגִין, פִּסְקֵי פִּסְקֵי, וַאֲפִלּוּ שָׁהָה כְּדֵי לִגְמֹר אֶת כֻּלָּהּ. וּמִתְנַמְנֵם הוּא שֶׁהִתְחִיל לִישֹׁן אֲבָל לֹא נִשְׁתַּקֵּעַ בַּשֵּׁנָה.
"Em intervalos" significa em partes separadas, pausando entre uma e outra, mesmo que a pausa dure tanto quanto o tempo necessário para concluir a leitura toda. E "cochilando" refere-se a quem começou a adormecer, mas não mergulhou de fato no sono profundo — nesse estado intermediário, ainda é capaz de ter a intenção necessária, e por isso cumpre sua obrigação. Já quem copia, expõe ou corrige a Meguilá cumpre a obrigação da leitura somente se, ao pronunciar cada palavra, teve em mente cumprir com isso o preceito — pois a ação de copiar ou expor, por si só, não constitui leitura ritual.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha os materiais impróprios mencionados na mishná; Rashi identifica cada substância e explica os termos técnicos "sam", "sikra", "kankantom" e "diftera".

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Meguilá 2:2
הָיָה כוֹתְבָהּ דּוֹרְשָׁהּ וּמַגִּיהָהּ, אִם כִּוֵּן לִבּוֹ יָצָא. וְאִם לָאו לֹא יָצָא.

Se estava escrevendo-a, expondo-a ou corrigindo-a: se dirigiu seu coração para cumprir o preceito ao pronunciar as palavras, cumpriu; se não, não cumpriu — pois o critério decisivo, em todos esses casos intermediários, é sempre a intenção de quem lê, e não apenas o fato de as palavras terem sido pronunciadas.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Meguilá 2:2
הָיָה כוֹתְבָהּ כוּ׳. כְּגוֹן דִּכְתִיבָא כֻּלָּהּ קַמֵּיהּ, וְקָא כָתֵיב וְקָארֵי בָּהּ.

"Se estava escrevendo-a" e assim por diante: refere-se ao caso em que a Meguilá inteira já está escrita diante do copista, e ele escreve uma nova cópia lendo e copiando ao mesmo tempo o texto já existente — nesse caso, se teve intenção, sua leitura em voz alta enquanto copia cumpre a obrigação.

Quanto ao material: tinta vegetal, almagre, goma e vitríolo são substâncias que não constituem tinta permanente própria de sefer Torá; e papel comum e couro não curtido não constituem o pergaminho exigido — por isso a Meguilá só é válida quando reúne as três condições: escrita assíria, pergaminho apropriado e tinta verdadeira.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Meguilá 17a-18b
סֵרוּגִין - בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ קוֹרֵא מְעַט וּפוֹסֵק וְחוֹזֵר וּפוֹסֵק. סַמָּא - זַרְנִיךְ בִּלְשׁוֹן קֹדֶשׁ. סִקְרְתָא - צֶבַע אָדֹם שֶׁצּוֹבְעִין בּוֹ תְּרִיסִין. קוֹמָא - שְׂרַף אִילָן.

"Em intervalos" — a Guemará explica: lê um pouco e para, e volta a ler um pouco e para, mesmo que a pausa seja longa.

"Sam" — é o "zarnich", um pigmento amarelo mineral, chamado em hebraico sagrado por esse nome técnico. "Sikra" — é um corante vermelho usado para tingir escudos. "Komos" — é a resiva ou seiva de uma árvore, usada como aglutinante de tinta, mas que não possui a durabilidade da tinta própria de escrita sagrada. Todos esses são pigmentos que servem para tingir, mas não constituem a tinta exigida para a validade da Meguilá, que deve ser escrita com tinta escura e permanente, como a do sefer Torá.