Quem lê a Meguilá fora de ordem não cumpriu. — Se alguém lê um trecho posterior antes de um trecho anterior, invertendo a sequência dos versículos, não cumpre sua obrigação — é preciso ler do início ao fim, na ordem em que o texto está escrito.
Se a leu de cor, se a leu em tradução, em qualquer língua, não cumpriu. Mas pode-se lê-la para os que falam língua estrangeira em língua estrangeira, e o que fala língua estrangeira que ouviu em assírio cumpriu. — Ler de memória, sem o texto escrito diante de si, não é válido; tampouco vale ler numa tradução aramaica ou em qualquer outra língua que substitua o texto original. No entanto, para quem só compreende uma língua estrangeira, é permitido ler a Meguilá naquela língua, desde que o texto esteja de fato escrito nela. E, inversamente, aquele que só fala língua estrangeira mas ouviu a leitura em hebraico — em escrita assíria — cumpre sua obrigação, ainda que não entenda o que ouviu, pois o que importa é a leitura do texto original.
A Guemará busca a fonte para a exigência de ler na ordem correta e a encontra por analogia, não diretamente nesse versículo: assim como o Hallel deve ser recitado na ordem em que está escrito — "do nascer do sol até o seu ocaso, louvado seja o nome do Eterno" (Salmos 113:3), pois o sol não nasce e se põe fora de ordem —, também a Meguilá, que os Sábios equipararam ao Hallel por ser igualmente uma leitura de louvor e de lembrança, deve ser lida do início ao fim, sem inversão. Rambam, em seu comentário à Mishná, liga o princípio diretamente à expressão "nizcarim vena'assim" — "lembrados e feitos" — do próprio livro de Ester: assim como não é possível refazer um dia já passado, também não é possível ler a Meguilá relembrando seus dias fora da ordem em que ocorreram.
Rambam explica o alcance de "para os que falam língua estrangeira" e por que a leitura em hebraico sempre cumpre a obrigação, mesmo para quem não entende.
Bartenura distingue "leitura em língua estrangeira" e "tradução"; Rashi explica por que a mishná parece repetir-se ao falar de tradução e língua estrangeira.
"Se a leu de cor" — não cumpriu, porque é necessário lê-la a partir do texto escrito, e não de memória. E quando diz "pode-se lê-la para os que falam língua estrangeira em língua estrangeira", quer dizer: quando ela está de fato escrita naquela língua estrangeira, e não apenas traduzida oralmente no momento da leitura.
"Se a leu em tradução" — não cumpre, mesmo que a tenha escrita numa língua que compreende, contanto que essa não seja a própria língua original hebraica nem a língua estrangeira escrita por extenso. Já "pode-se lê-la para os que falam língua estrangeira em língua estrangeira" refere-se ao caso em que a Meguilá está escrita de fato naquela própria língua estrangeira, letra por letra — e não a uma tradução improvisada de um texto hebraico.
"E o que fala língua estrangeira que ouviu em assírio cumpriu" — mesmo sem entender uma palavra, pois a obrigação central é ouvir o texto original tal como foi escrito.
"Quem lê para os que falam língua estrangeira" — toda língua que não é a língua sagrada, o hebraico, é chamada de "lá'az", língua estrangeira.
"Se a leu em tradução, em qualquer língua" — a mishná ensina isto e aquilo, numa ordem crescente: nem mesmo em tradução aramaica cumpre a obrigação, e tampouco em qualquer outra língua estrangeira que não seja a própria língua em que o ouvinte a compreende por extenso — para não se confundir a permissão de ler em língua estrangeira, quando ela está escrita naquela língua, com a invalidade de traduzir livremente a partir do hebraico.