Todos os responsáveis por karet que foram açoitados ficam livres de seu karet, como está dito: "e teu irmão será aviltado diante de teus olhos" — quando foi açoitado, eis que é como teu irmão — palavras de Rabi Chananya ben Gamliel. Disse Rabi Chananya ben Gamliel: se aquele que comete uma única transgressão tira sua alma por ela, aquele que cumpre um único mandamento, quanto mais lhe será dada sua alma! Rabi Shimon diz: aprende-se de seu próprio lugar, como está dito: "e serão exterminadas as almas que as praticam...", e diz: "que o homem as pratique e viva por elas." Conclui-se que todo aquele que se abstém e não transgride recebe recompensa como quem cumpre um mandamento. Rabi Shimon bar Rabi diz: eis que está dito: "somente sê forte para não comer o sangue, pois o sangue é a alma..." — se com relação ao sangue, do qual a alma do homem tem repugnância, aquele que se abstém dele recebe recompensa, roubo e relações proibidas, que a alma do homem deseja e cobiça, aquele que se abstém delas, quanto mais merecerá ele, e suas gerações, e as gerações de suas gerações, até o fim de todas as gerações. — Esta mishná trata de um princípio teológico profundo: o açoite, apesar de sua severidade física, tem também uma função espiritual redentora. Aqueles que cometem transgressões puníveis com karet — a extirpação da alma por decreto Divino — e que já foram julgados e punidos com açoites por um tribunal terreno, ficam livres dessa pena celestial mais grave. A mishná deriva isso do próprio versículo do açoite: "e teu irmão será aviltado diante de teus olhos" — o texto continua a chamá-lo "teu irmão" mesmo depois de açoitado, sinal de que sua condição perante D'us foi restaurada, ele voltou ao "irmãosmento" pleno de Israel. Rabi Chananya ben Gamliel acrescenta um argumento a fortiori: se uma única transgressão pode custar a própria vida (a extirpação), quanto mais o cumprimento de um único mandamento deveria merecer recompensa de vida! Rabi Shimon e Rabi Shimon bar Rabi desenvolvem, cada um à sua maneira, o princípio de que a mera abstenção do pecado — mesmo sem realizar ativamente um mandamento positivo — já é considerada meritória, especialmente quando envolve resistir a um desejo genuíno da alma, como no caso do roubo e das relações proibidas.
Rambam identifica aqui um dos princípios teológicos maiores de toda a lei penal: o açoite não é apenas punição, mas um veículo de expiação — quem recebe açoites por uma transgressão sujeita a karet é considerado como se tivesse feito arrependimento pleno, sua alma restaurada perante D'us.
Bartenura resume: o açoite substitui e cumpre a pena de karet, de modo que o transgressor sai plenamente reabilitado. E sobre a conclusão de Rabi Shimon: mesmo alguém que apenas permanece sentado, sem sequer ter a oportunidade de transgredir, recebe recompensa equivalente a quem ativamente cumpriu um mandamento — o mérito da abstenção intencional é reconhecido mesmo sem ação concreta.
Rashi calcula a proporção exata implícita na comparação de Rabi Chananya ben Gamliel: como a medida da recompensa Divina é mil vezes maior que a da punição (comparando "até a quarta geração" na punição com "até a milésima geração" na recompensa, conforme Shemot 20), a proporção resultante é de um para quinhentos — a recompensa por um mandamento cumprido supera em muito a punição por uma transgressão equivalente. Rashi também situa esta mishná em diálogo com um debate paralelo no tratado Meguilá sobre a natureza exata da pena de karet.