Seder Nezikin · Massechet Makot · Perek Guimel · Mishná 15 de 16

O açoite que substitui o karet: 'eis que é como teu irmão'

כָּל חַיָּבֵי כְרֵתוֹת שֶׁלָּקוּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A penúltima mishná do tratado eleva o discurso do técnico-processual para o teológico: o significado espiritual do açoite, e o princípio de que a abstenção do pecado já é, em si, meritória.

Todos os responsáveis por karet que foram açoitados ficam livres de seu karet, como está dito: "e teu irmão será aviltado diante de teus olhos" — quando foi açoitado, eis que é como teu irmão — palavras de Rabi Chananya ben Gamliel. Disse Rabi Chananya ben Gamliel: se aquele que comete uma única transgressão tira sua alma por ela, aquele que cumpre um único mandamento, quanto mais lhe será dada sua alma! Rabi Shimon diz: aprende-se de seu próprio lugar, como está dito: "e serão exterminadas as almas que as praticam...", e diz: "que o homem as pratique e viva por elas." Conclui-se que todo aquele que se abstém e não transgride recebe recompensa como quem cumpre um mandamento. Rabi Shimon bar Rabi diz: eis que está dito: "somente sê forte para não comer o sangue, pois o sangue é a alma..." — se com relação ao sangue, do qual a alma do homem tem repugnância, aquele que se abstém dele recebe recompensa, roubo e relações proibidas, que a alma do homem deseja e cobiça, aquele que se abstém delas, quanto mais merecerá ele, e suas gerações, e as gerações de suas gerações, até o fim de todas as gerações.Esta mishná trata de um princípio teológico profundo: o açoite, apesar de sua severidade física, tem também uma função espiritual redentora. Aqueles que cometem transgressões puníveis com karet — a extirpação da alma por decreto Divino — e que já foram julgados e punidos com açoites por um tribunal terreno, ficam livres dessa pena celestial mais grave. A mishná deriva isso do próprio versículo do açoite: "e teu irmão será aviltado diante de teus olhos" — o texto continua a chamá-lo "teu irmão" mesmo depois de açoitado, sinal de que sua condição perante D'us foi restaurada, ele voltou ao "irmãosmento" pleno de Israel. Rabi Chananya ben Gamliel acrescenta um argumento a fortiori: se uma única transgressão pode custar a própria vida (a extirpação), quanto mais o cumprimento de um único mandamento deveria merecer recompensa de vida! Rabi Shimon e Rabi Shimon bar Rabi desenvolvem, cada um à sua maneira, o princípio de que a mera abstenção do pecado — mesmo sem realizar ativamente um mandamento positivo — já é considerada meritória, especialmente quando envolve resistir a um desejo genuíno da alma, como no caso do roubo e das relações proibidas.

כָּל חַיָּבֵי כְרֵתוֹת שֶׁלָּקוּ, נִפְטְרוּ יְדֵי כְרֵתָתָן, שֶׁנֶאֱמַר (דברים כה) וְנִקְלָה אָחִיךָ לְעֵינֶיךָ, כְּשֶׁלָּקָה הֲרֵי הוּא כְאָחִיךָ, דִּבְרֵי רַבִּי חֲנַנְיָא בֶּן גַּמְלִיאֵל. אָמַר רַבִּי חֲנַנְיָא בֶּן גַּמְלִיאֵל, מָה אִם הָעוֹבֵר עֲבֵרָה אַחַת, נוֹטֵל נַפְשׁוֹ עָלֶיהָ, הָעוֹשֶׂה מִצְוָה אַחַת, עַל אַחַת כַּמָּה וְכַמָּה שֶׁתִּנָּתֵן לוֹ נַפְשׁוֹ. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, מִמְּקוֹמוֹ הוּא לָמֵד, שֶׁנֶּאֱמַר (ויקרא יח) וְנִכְרְתוּ הַנְּפָשׁוֹת הָעֹשֹׂת וְגוֹ', וְאוֹמֵר (שם) אֲשֶׁר יַעֲשֶׂה אֹתָם הָאָדָם וָחַי בָּהֶם. הָא, כָּל הַיּוֹשֵׁב וְלֹא עָבַר עֲבֵרָה, נוֹתְנִין לוֹ שָׂכָר כְּעוֹשֶׂה מִצְוָה. רַבִּי שִׁמְעוֹן בַּר רַבִּי אוֹמֵר, הֲרֵי הוּא אוֹמֵר (דברים יב) רַק חֲזַק לְבִלְתִּי אֲכֹל הַדָּם כִּי הַדָּם הוּא הַנָּפֶשׁ וְגוֹ', וּמָה אִם הַדָּם שֶׁנַּפְשׁוֹ שֶׁל אָדָם קָצָה מִמֶּנּוּ, הַפּוֹרֵשׁ מִמֶּנּוּ מְקַבֵּל שָׂכָר, גָּזֵל וַעֲרָיוֹת שֶׁנַּפְשׁוֹ שֶׁל אָדָם מִתְאַוָּה לָהֶן וּמְחַמַּדְתָּן, הַפּוֹרֵשׁ מֵהֶן עַל אַחַת כַּמָּה וְכַמָּה שֶׁיִּזְכֶּה לוֹ וּלְדוֹרוֹתָיו וּלְדוֹרוֹת דּוֹרוֹתָיו עַד סוֹף כָּל הַדּוֹרוֹת:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Devarim 25:3 — 'e teu irmão será aviltado diante de teus olhos'
אַרְבָּעִים יַכֶּנּוּ לֹא יֹסִיף, פֶּן יֹסִיף לְהַכֹּתוֹ עַל אֵלֶּה מַכָּה רַבָּה, וְנִקְלָה אָחִיךָ לְעֵינֶיךָ.
"Quarenta o golpeará, não acrescentará; para que não acrescente a golpeá-lo além destes com uma grande pancada, e teu irmão seja aviltado diante de teus olhos."
Aplicação na mishná: a mishná lê a palavra "teu irmão" (achicha) como o ponto central do versículo — apesar de aviltado publicamente, ele permanece, e volta a ser chamado, "teu irmão"; essa restauração da fraternidade plena é interpretada como sinal de que sua dívida espiritual foi quitada.
Vayikrá 18:5,29 — a base textual de Rabi Shimon
אֲשֶׁר יַעֲשֶׂה אֹתָם הָאָדָם וָחַי בָּהֶם... וְנִכְרְתוּ הַנְּפָשׁוֹת הָעֹשֹׂת.
"...que o homem as pratique e viva por elas... e serão exterminadas as almas que as praticam."
Aplicação na mishná: Rabi Shimon lê a promessa de vida ("e viva por elas") em paralelo com a ameaça de extirpação ("serão exterminadas") no mesmo contexto legal, concluindo que quem simplesmente se abstém de transgredir já recebe a recompensa de vida prometida, mesmo sem um ato positivo adicional.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Makot 3:15
כָּל חַיָּבֵי כְרֵתוֹת שֶׁלָּקוּ נִפְטְרוּ יְדֵי כְרֵתָתָן: זֶה עִקָּר גָּדוֹל, שֶׁהַמַּלְקוּת מְכַפֶּרֶת עַל הֶעָוֹן שֶׁחַיָּב עָלָיו כָּרֵת, וְנֶחְשָׁב כְּמִי שֶׁעָשָׂה תְשׁוּבָה גְּמוּרָה.

Rambam identifica aqui um dos princípios teológicos maiores de toda a lei penal: o açoite não é apenas punição, mas um veículo de expiação — quem recebe açoites por uma transgressão sujeita a karet é considerado como se tivesse feito arrependimento pleno, sua alma restaurada perante D'us.

Bartenura · Makot 3:15
נִפְטְרוּ יְדֵי כְרֵתָתָן. שֶׁהַמַּלְקוּת בָּא בִּמְקוֹם הַכָּרֵת: הָא כָּל הַיּוֹשֵׁב וְלֹא עָבַר עֲבֵרָה נוֹתְנִין לוֹ שָׂכָר כְּעוֹשֶׂה מִצְוָה. אַף עַל פִּי שֶׁלֹּא עָשָׂה מַעֲשֶׂה בְּפֹעַל.

Bartenura resume: o açoite substitui e cumpre a pena de karet, de modo que o transgressor sai plenamente reabilitado. E sobre a conclusão de Rabi Shimon: mesmo alguém que apenas permanece sentado, sem sequer ter a oportunidade de transgredir, recebe recompensa equivalente a quem ativamente cumpriu um mandamento — o mérito da abstenção intencional é reconhecido mesmo sem ação concreta.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Makkot 23a, s.v. על אחת כמה וכמה שתנתן לו נפשו; הא
עַל אַחַת כַּמָּה וְכַמָּה שֶׁתִּנָּתֵן לוֹ נַפְשׁוֹ — דְּמִדָּה טוֹבָה מְרֻבָּה מִמִּדַּת פּוּרְעָנוּת, אֶחָד מֵחֲמֵשׁ מֵאוֹת: דְּבְמִדַּת פּוּרְעָנוּת כְּתִיב "פֹּקֵד עֲוֹן אָבוֹת עַל בָּנִים עַל שִׁלֵּשִׁים וְעַל רִבֵּעִים", וּבְמִדָּה טוֹבָה כְּתִיב "עֹשֶׂה חֶסֶד לַאֲלָפִים": הָא — מַתְנִי' דִּמְגִלָּה, רַבִּי יִצְחָק הִיא, וּלְהָכֵי קָאָמַר דִּזְדוֹן כָּרֵת בִּידֵי שָׁמַיִם וְלֹא בִּידֵי אָדָם.

Rashi calcula a proporção exata implícita na comparação de Rabi Chananya ben Gamliel: como a medida da recompensa Divina é mil vezes maior que a da punição (comparando "até a quarta geração" na punição com "até a milésima geração" na recompensa, conforme Shemot 20), a proporção resultante é de um para quinhentos — a recompensa por um mandamento cumprido supera em muito a punição por uma transgressão equivalente. Rashi também situa esta mishná em diálogo com um debate paralelo no tratado Meguilá sobre a natureza exata da pena de karet.