Seder Nezikin · Massechet Makot · Perek Guimel · Mishná 16 de 16

'D'us quis dar mérito a Israel': o encerramento do tratado

רָצָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְזַכּוֹת אֶת יִשְׂרָאֵל
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A última mishná de Massechet Makot é uma das passagens mais citadas de toda a literatura rabínica — tão amada que se tornou costume recitá-la ao final do estudo de qualquer tratado da Mishná, como selo de otimismo espiritual.

Rabi Chananya ben Akashya diz: quis o Santo, bendito seja, dar mérito a Israel; por isso multiplicou para eles Torá e mandamentos, como está dito: "Hashem quis, por causa de sua justiça, engrandecer a Torá e fazê-la gloriosa."Depois de dezesseis mishnayot dedicadas ao tema mais severo da lei penal judaica — a lista extensa de transgressões passíveis de açoite e o procedimento detalhado, quase clínico, de sua aplicação —, o tratado inteiro se encerra com uma virada surpreendente e luminosa. Rabi Chananya ben Akashya propõe uma leitura radicalmente positiva da abundância de mandamentos na Torá: longe de ser um fardo, a multiplicação de mitzvot é, ela mesma, um ato de generosidade Divina. Como cada mandamento cumprido gera seu próprio mérito independente, quanto mais mandamentos D'us concede a Israel, mais oportunidades de mérito e recompensa Ele está oferecendo — mesmo mandamentos aparentemente menores, como as leis sobre répteis ou aves impuras, tornam-se veículos de recompensa espiritual simplesmente por serem observados. A citação de Yeshayahu 42:21 — "Hashem quis, por causa de sua justiça, engrandecer a Torá e fazê-la gloriosa" — lê a "grandeza" e a "glória" da Torá não como um peso legal opressivo, mas como a expressão mesma do amor Divino: quanto mais rica e detalhada a Torá, mais generosa a oferta de proximidade com D'us que ela representa. Esta mishná, por sua beleza e concisão, tornou-se tradicionalmente recitada ao final do estudo de cada perek e cada tratado da Mishná — e é assim, com esta nota de esperança irrestrita, que Massechet Makot chega ao seu fim.

רַבִּי חֲנַנְיָא בֶּן עֲקַשְׁיָא אוֹמֵר, רָצָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְזַכּוֹת אֶת יִשְׂרָאֵל, לְפִיכָךְ הִרְבָּה לָהֶם תּוֹרָה וּמִצְוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר (ישעיה מב) יְיָ חָפֵץ לְמַעַן צִדְקוֹ יַגְדִּיל תּוֹרָה וְיַאְדִּיר:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Yeshayahu 42:21 — 'engrandecer a Torá e fazê-la gloriosa'
ה' חָפֵץ לְמַעַן צִדְקוֹ, יַגְדִּיל תּוֹרָה וְיַאְדִּיר.
"Hashem quis, por causa de sua justiça, engrandecer a Torá e fazê-la gloriosa."
Aplicação na mishná: este versículo, tirado de seu contexto profético original sobre a redenção futura de Israel, é reaplicado pela mishná como declaração atemporal sobre a própria natureza da revelação da Torá: sua abundância de mandamentos é, em si mesma, um sinal da justiça e do favor Divino para com o povo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Makot 3:16
רָצָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְזַכּוֹת אֶת יִשְׂרָאֵל: זֶה הָעִקָּר הַגָּדוֹל שֶׁכְּבָר בֵּאַרְנוּ בַּהַקְדָּמָה, שֶׁמִּי שֶׁקִּיֵּם מִצְוָה אַחַת מִתַּרְיַ״ג מִצְוֹת כָּרָאוּי וְכַהֹגֶן, וְלֹא שִׁתֵּף עִמָּהּ כַּוָּנָה מִכַּוָּנוֹת הָעוֹלָם בְּשׁוּם פָּנִים, אֶלָּא עֲשָׂאָהּ לִשְׁמָהּ מֵאַהֲבָה... הֲרֵי זָכָה בָּהּ לְחַיֵּי הָעוֹלָם הַבָּא. וְעַל זֶה אָמְרוּ: לְפִיכָךְ הִרְבָּה לָהֶם תּוֹרָה וּמִצְוֹת, לְהַרְבּוֹת לָהֶם זְכֻיּוֹת.

Nesta que é uma das passagens mais conhecidas de todo o Perush HaMishná, Rambam ensina que quem cumpre um único mandamento, dentre os seiscentos e treze, com perfeição e por puro amor — sem misturar nele nenhum interesse mundano —, já merece com isso a vida do mundo vindouro. É exatamente por essa razão, explica Rambam, que D'us multiplicou os mandamentos para Israel: não para sobrecarregá-los, mas para multiplicar suas oportunidades de mérito — cada mandamento adicional é mais uma porta aberta para a proximidade Divina e a vida eterna.

Bartenura · Makot 3:16
רָצָה הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְזַכּוֹת אֶת יִשְׂרָאֵל. לְפִי שֶׁמִּצְוֹת עֲשֵׂה יֵשׁ בָּהֶן מִצְוֹת קַלּוֹת שֶׁאֵין בָּהֶן טֹרַח כְּלָל, כְּגוֹן צִיצִית וּמְזוּזָה, וְשָׂכָר הַרְבֵּה תָּלוּי בָּהֶן — לְפִיכָךְ הִרְבָּה לָהֶם תּוֹרָה וּמִצְוֹת, שֶׁיִּזְכּוּ בָהֶם עַל יְדֵי קִיּוּם מִצְוֹת קַלּוֹת אֵלּוּ.

Bartenura acrescenta uma observação prática e comovente: entre os mandamentos positivos há muitos que são leves de cumprir, sem qualquer esforço real — como usar tzitzit ou afixar a mezuzá — e ainda assim carregam grande recompensa. É precisamente por isso que D'us multiplicou tantos mandamentos: para que Israel pudesse merecer recompensa abundante mesmo através do cumprimento de obrigações simples e acessíveis a todos.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Makkot 23b, s.v. לזכות את ישראל
לְזַכּוֹת אֶת יִשְׂרָאֵל — כְּדֵי שֶׁיְּהוּ מְקַבְּלִין שָׂכָר בְּמַה שֶּׁמּוֹנְעִין עַצְמָן מִן הָעֲבֵרוֹת, לְפִיכָךְ הִרְבָּה לָהֶן שֶׁלֹּא הָיָה צָרִיךְ לְצַוּוֹת כַּמָּה מִצְוֹת וְכַמָּה אַזְהָרוֹת עַל שְׁקָצִים וּנְבֵלוֹת, שֶׁאֵין לְךָ אָדָם שֶׁאֵינוֹ קָץ בָּהֶן, אֶלָּא כְּדֵי שֶׁיְּקַבְּלוּ שָׂכָר עַל שֶׁפּוֹרְשִׁין מֵהֶן.

Rashi oferece aqui uma leitura ainda mais surpreendente: mesmo mandamentos que, à primeira vista, parecem desnecessários — como as proibições de comer répteis ou animais impuros, coisas das quais qualquer pessoa já sentiria repugnância natural — foram formulados deliberadamente como mandamentos formais, precisamente para que a abstenção espontânea de Israel se transformasse em ato meritório recompensável. Aquilo que o instinto humano já rejeitaria naturalmente, a Torá o eleva à categoria de mitzvá cumprida, multiplicando assim, generosamente, as oportunidades de mérito de Israel.

Encerramento do tratado · סִיּוּם מַסֶּכֶת

הֲדַרָן עֲלָךְ אֵלּוּ הֵן הַלּוֹקִין, וּסְלִיקָא לַהּ מַסֶּכֶת מַכּוֹת

Com esta décima sexta mishná do Perek Guimel, encerra-se o Perek "אֵלּוּ הֵן הַלּוֹקִין" ("Estes são os que são açoitados") — e com ele, toda a Massechet Makot. A fórmula tradicional de encerramento, "hadran alach" ("voltaremos a ti"), expressa o compromisso de retornar ao estudo deste tratado mesmo depois de concluído, seguida da declaração "vessalika lah massechet Makot", "e assim se encerra o tratado Makot".

Ao longo de seus três perakim e trinta e quatro mishnayot, Makot percorreu a última fronteira do sistema penal de Israel depois da execução (tratada em Sanhedrin): o exílio do homicida involuntário para as cidades de refúgio, com suas condições precisas e a proteção contra o vingador do sangue (Perek Alef); as leis do próprio exílio — a morte do Sumo Sacerdote como marco de retorno, a honra devida e recusada ao exilado (Perek Bet); e, neste último perek, a mais branda das três formas clássicas de punição judicial, o açoite: a extensa lista de transgressões que o geram — relações proibidas, impurezas do Templo, luto pagão, o ninho do pássaro, a tatuagem, o nazireu —, o procedimento físico detalhado de sua aplicação, e, por fim, o significado espiritual mais profundo do castigo, que restaura o transgressor à condição de "irmão" e à comunidade de Israel.

Com a conclusão de Massechet Makot, completa-se o quinto tratado da Seder Nezikin — depois de Bava Kamma, Bava Metzia, Bava Batra e Sanhedrin —, a quarta das seis Ordens da Mishná. Segue-se agora Massechet Shevuot.