Vieram outras e as desmascararam; vieram outras e as desmascararam — ainda que sejam cem, todas são executadas. Rabi Yehudá diz: isto é uma conspiração organizada, e não é executada senão a primeira leva. — O cenário: uma primeira dupla testemunha um fato; uma segunda dupla vem e a desmascara, tornando-a conspiradora; mas então uma terceira dupla testemunha o mesmíssimo fato que a primeira — e uma quarta dupla vem desmascarar também esta; e assim sucessivamente, por muitas levas. Segundo os Sábios, todas as levas de testemunhas desmascaradas ao longo dessa cadeia são executadas, ainda que sejam cem duplas — pois cada uma delas, individualmente, foi validamente contradita por outra que testemunhou sobre sua própria localização física. Rabi Yehudá, porém, enxerga nesse padrão repetitivo algo suspeito: chama-o de istasit — usando a imagem de um tanque de tingimento, onde tudo que nele toca sai tingido da mesma cor — sugerindo que, após a primeira leva ser desmascarada, todo aquele que insiste em testemunhar o mesmo fato repetido já nasce sob suspeita coletiva, e por isso apenas a primeira leva, a genuinamente original, é executada; as demais não recebem crédito suficiente para serem tratadas como testemunhas independentes dignas de execução.
Rambam ilustra o mecanismo com um exemplo nomeado: Reuven é acusado de matar Shimon por uma primeira dupla, que Kehat e Chushim desmascaram; então uma segunda dupla testemunha exatamente o mesmo fato, e também é desmascarada por Kehat e Chushim — e assim sucessivamente, mesmo que se repita por mil levas, todas são executadas com base no testemunho da última dupla que as desmascarou. A razão pela qual a halachá rejeita Rabi Yehudá: se a segunda leva de testemunhas tivesse sido validada — sem que aparecessem desmascaradores para ela —, Reuven teria sido executado com base nela tanto quanto com base na primeira; logo, cada leva tem, em princípio, o mesmo peso jurídico pleno, e deve ser tratada igualmente quando desmascarada.
Bartenura oferece duas explicações para a palavra istasit: a primeira, que se trata de uma conspiração deliberada entre as próprias levas de testemunhas, combinadas de antemão para desmascarar toda dupla que viesse depois delas; a segunda — mais literal — de que a palavra deriva de "istis", o corante índigo, e a imagem é a de um tanque de tingimento: assim como tudo que toca o tanque sai tingido da mesma cor, toda testemunha que se aproxima desse padrão repetido de testemunho já sai "contaminada" pela suspeita. Confirma que a halachá segue os Sábios, não Rabi Yehudá.
No decorrer da discussão da Guemará sobre esta mishná, Rashi esclarece um detalhe de sequência temporal: o caso hipotético trata de uma situação em que a primeira leva de testemunhas conspiradoras já foi executada antes mesmo que a segunda leva chegasse a testemunhar — uma nuance relevante para a discussão sobre até que ponto a cadeia de "levas" desmascaradas continua a gerar responsabilidade para as levas subsequentes.