Aquele que verte de (líquido) quente para quente, e de frio para frio, e de quente para frio: está puro. De frio para quente: está impuro. Rabi Shimon diz: também aquele que verte de quente para quente, quando o poder do (recipiente) inferior é maior do que o do superior, está impuro.
Como na mishná anterior, trata-se aqui de verter de um recipiente puro (acima) para um recipiente impuro (abaixo), através do fio que verte. A regra geral é que essa coluna líquida não conecta os dois recipientes — mas há uma exceção adicional, ligada não à espessura do líquido, e sim ao calor.
Quando se verte água fria de um recipiente puro para um recipiente impuro que contém água quente, o calor do líquido de baixo faz subir vapor junto com a coluna que verte — e esse vapor, subindo do impuro para o puro, é considerado, pela halachá, como se fosse ele próprio um líquido: por isso ele contamina a água fria que ainda está no recipiente de cima. Nos demais casos — quente para quente, frio para frio, ou quente para frio — não há essa diferença de temperatura capaz de gerar um vapor perceptível subindo do impuro ao puro, e por isso o que resta em cima permanece puro.
Rabi Shimon amplia ainda mais a regra: mesmo quando ambos os líquidos estão quentes, se o de baixo (o impuro) é sensivelmente mais quente do que o de cima, o vapor mais intenso que dele sobe já basta para contaminar o líquido de cima. A halachá, porém, não segue Rabi Shimon: uma vez que o líquido de cima já está quente por si mesmo, o efeito adicional do calor do de baixo não se manifesta de modo perceptível nele, e por isso não o contamina.
Atenta, na explicação desta mishná, ao que já mencionei na halachá anterior a esta: que o recipiente do qual se verte é o puro, e aquele para o qual se verte é o impuro. E a razão de dizerem “de frio para quente, está impuro” é que a coluna do líquido, chamada nitzok, se aquece por sua extremidade estar no recipiente quente, e sobe o vapor junto com o nitzok, de dentro do recipiente quente impuro, e aquece o líquido que está no recipiente superior — e por isso ele se torna impuro, pois o vapor quente os uniu, e ele sobe do impuro para o puro.
E Rabi Shimon diz que este mesmo princípio nos obriga a dizer, no caso de quem derrama um líquido quente puro num recipiente onde há um líquido impuro mais quente do que ele: pois desse (líquido) impuro, que é mais quente, sobe um vapor fervente junto com o nitzok, e aumenta o calor do líquido puro — e este é o sentido de dizerem “o poder do inferior é maior do que o do superior, está impuro”. E não é lei conforme Rabi Shimon, pois, uma vez que ambos estão quentes, ainda que o inferior seja mais quente do que o superior, não se manifesta nele um efeito claro no líquido que dali se verte.
“Aquele que verte de quente para quente”: também aqui se trata de que os líquidos que estão no recipiente superior, de onde se verte, são puros, e os que estão no recipiente inferior, para dentro do qual se verte, são impuros.
“De frio para quente, está impuro”: pois o (recipiente) inferior quente faz subir vapor para o (líquido) superior frio, e o contamina, pois a nuvem que sobe do quente é considerada como um líquido.
“E o poder do inferior é maior”: quando o seu calor é maior do que o do superior. E não é lei conforme Rabi Shimon, pois, uma vez que o superior já é quente, ainda que o inferior seja mais quente do que ele, o efeito do inferior não se manifesta no superior, e não o contamina.