Animal doméstico (behemá) com animal doméstico [de outra espécie], e animal selvagem (chaiá) com animal selvagem [de outra espécie]; animal doméstico com animal selvagem, e animal selvagem com animal doméstico; impuro com impuro [de outra espécie], e puro com puro [de outra espécie]; impuro com puro, e puro com impuro — são proibidos de arar, de puxar e de conduzir.
Depois de tratar do cruzamento (harbaá) na Mishná anterior, o Perek Chet passa agora ao segundo âmbito do kilaei behemá: o trabalho conjunto de dois animais de espécies diferentes, proibido mesmo sem qualquer intenção de reprodução.
Por que a proibição vai além da arada e além do boi e do jumento. O versículo, em sua letra, fala apenas de arar com boi e jumento — dois animais domésticos, um puro e um impuro. Mas a Mishná ensina, seguindo a tradição recebida, que a Torá pretendeu um princípio muito mais amplo: a expressão "juntos" (יַחְדָּו) indica que o que está em jogo não é a espécie específica desses dois animais, mas o ato de unir dois animais de espécies diferentes para um trabalho comum — seja arar, seja puxar uma carroça ou pedra, seja conduzi-los atrelados juntos. Por isso a proibição se estende a qualquer par de espécies diferentes: dois animais domésticos diferentes entre si, dois animais selvagens diferentes entre si, um doméstico com um selvagem, e também conforme a pureza ritual — um animal impuro com outro impuro de espécie diferente, ou um puro com outro puro de espécie diferente, e até um impuro com um puro. O boi e o jumento do versículo servem de modelo do qual se aprende a regra geral para todas as combinações de duas espécies distintas trabalhando como uma unidade.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.
O Rambam distingue dois níveis de severidade que a Mishná apresenta unificados: quando as duas espécies diferem também em pureza ritual (uma pura, uma impura), a proibição de trabalhá-las juntas é bíblica, com pena de açoites, derivada diretamente do versículo do boi e do jumento; mas quando as duas espécies são ambas puras entre si (ou ambas impuras entre si) — apenas kilaim uma com a outra por serem espécies diferentes que poderiam cruzar — a proibição de trabalho conjunto é de origem rabínica, com pena de "makat mardut" (açoite disciplinar), não a pena bíblica plena.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
Quando disse [na Mishná anterior] que kilaei de animais não são proibidos senão de cruzar, isso valia para animal doméstico com animal doméstico, ou animal selvagem com animal selvagem, e o restante do que se ordenou. Mas animal impuro com puro, e puro com impuro, tem um acréscimo além da proibição de cruzamento — que é serem proibidos de arar, puxar e conduzir juntos.
E este é o sentido do que disse a Escritura: "não ararás com boi e jumento juntos" — e disseram que o sentido de "juntos" é uni-los e associá-los de qualquer maneira que seja, seja para arar ou para outra coisa. E do boi e do jumento tomamos prova para quaisquer duas espécies, uma impura e uma pura — e esta proibição é da Torá. Mas por [decreto] rabínico é igualmente proibida a arada e o restante com as demais espécies de kilaim [ambas puras ou ambas impuras entre si].
"Animal doméstico com animal doméstico, e animal selvagem com animal selvagem etc.": ainda que o Misericordioso tenha dito [especificamente] "não ararás com boi e jumento", aprendemos a palavra "boi" [aqui] a partir do "boi" mencionado em relação ao Shabat [Shemot 20:10, que menciona "teu boi e teu jumento" incluindo todo tipo de animal, gado e ave] — que o mesmo se aplica a todo animal doméstico, selvagem e ave.
"E puxar e conduzir": puxar aquele cujo costume é ser puxado, e conduzir aquele cujo costume é ser conduzido — o costume do camelo é ser puxado [à frente, pela corda], e o costume do jumento é ser conduzido [por trás, com voz e vara]. Mas de qualquer forma, tanto no camelo quanto no jumento, é responsável tanto quem puxa quanto quem conduz [mesmo fora do modo habitual de cada um].