Seder Zeraim · Massechet Kilayim · Perek Zayin · Mishná 6

"O roubador que semeou o vinhedo"

הָאַנָּס שֶׁזָּרַע אֶת הַכֶּרֶם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O roubador que semeia kilaim no vinhedo alheio e se retira: a colheita urgente mesmo no Chol HaMoed, o pagamento aos trabalhadores, e desde quando se chama roubador

O roubador que semeou o vinhedo e se retirou de diante dele — que o colha, mesmo no Chol HaMoed (dias intermediários da festa). Até quanto se dá aos trabalhadores? Até um terço a mais. Mais que isso, colhe do seu modo habitual e prossegue, mesmo depois da festa. Desde quando se chama roubador? Desde que ele se estabeleça.

הָאַנָּס שֶׁזָּרַע אֶת הַכֶּרֶם וְיָצָא מִלְּפָנָיו, קוֹצְרוֹ אֲפִלּוּ בַמּוֹעֵד. עַד כַּמָּה הוּא נוֹתֵן לַפּוֹעֲלִים, עַד שְׁלִישׁ. יָתֵר מִכָּאן, קוֹצֵר כְּדַרְכּוֹ וְהוֹלֵךְ אֲפִלּוּ לְאַחַר הַמּוֹעֵד. מֵאֵימָתַי הוּא נִקְרָא אַנָּס, מִשֶּׁיִּשְׁקָע:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Continuando o tema de propriedade introduzido em 7:4–7:5, esta Mishná trata do caso oposto: não de alguém que planta em terra alheia por escolha, mas de um roubador (anas) que toma à força o vinhedo de outrem e nele semeia kilaim.

Devarim (Deuteronômio) 22:9
לֹא־תִזְרַע כַּרְמְךָ כִּלְאָיִם, פֶּן־תִּקְדַּשׁ הַמְלֵאָה הַזֶּרַע אֲשֶׁר תִּזְרָע וּתְבוּאַת הַכָּרֶם.
"Não semearás tua vinha com semente diversa, para que não se torne proibido o produto pleno da semente que semeares e o fruto da vinha" (Devarim 22:9).

Por que se pode colher kilaim até no Chol HaMoed. Um anas (roubador ou usurpador violento) toma posse à força do vinhedo de outra pessoa e nele semeia cereal ou hortaliça, criando kilaim. Como já visto (7:4–7:5), "ninguém santifica algo que não é seu" — e, enquanto o roubador ainda controla o vinhedo, ele não é considerado seu de fato para efeitos de santificação (a menos que "se estabeleça" nele, como a própria Mishná esclarece no final). Mas o problema prático surge quando o roubador finalmente se retira e o vinhedo volta às mãos do dono original, com a semente do roubador ainda plantada e crescendo ali: agora, se o dono original a deixar crescer, ele mesmo passaria a "manter" (mekayem) kilaim em seu próprio vinhedo, santificando-o retroativamente. Por isso, a Mishná permite ao dono colher a semente imediatamente — mesmo durante o Chol HaMoed, quando o trabalho agrícola é normalmente restrito às atividades essenciais e urgentes —, pois evitar que o próprio vinhedo se torne proibido é considerado uma necessidade genuína (davar ha'aved, "coisa que se perde" se não for atendida a tempo). A Mishná ainda regula quanto o dono deve pagar a mais aos trabalhadores para agilizar essa colheita urgente (até um terço além do salário normal) — além desse limite, ele pode adiar a colheita para depois da festa, prosseguindo em ritmo normal.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Kilaim 5:10, 5:12
הָאַנָּס שֶׁזָּרַע כִּלְאַיִם בְּכֶרֶם חֲבֵרוֹ אִם נִשְׁתַּקְּעוּ הַבְּעָלִים אַף עַל פִּי שֶׁלֹּא נִתְיָאֲשׁוּ הֲרֵי זֶה קִדֵּשׁ מִן הַתּוֹרָה... אַנָּס שֶׁזָּרַע הַכֶּרֶם כְּשֶׁיָּצָא הָאַנָּס יִקְצֹר הַזֶּרַע מִיָּד וַאֲפִלּוּ בְּחֻלּוֹ שֶׁל מוֹעֵד. וְאִם לֹא מָצָא פּוֹעֲלִין יוֹסִיף לָהֶן עַד שְׁלִישׁ בִּשְׂכָרָן.
O roubador que semeou kilaim no vinhedo do próximo — se os donos se estabeleceram nele [i.e., o roubador se firmou como se fosse dono], mesmo sem terem desistido [da posse], isto santificou pela lei da Torá... Roubador que semeou o vinhedo — quando o roubador saiu, o dono colherá a semente imediatamente, mesmo no Chol HaMoed. E se não encontrou trabalhadores, acrescentará até um terço em seu salário.

O Rambam esclarece que "nishtak'u habealim" ("os donos se estabeleceram") tem um sentido específico: refere-se ao roubador se estabelecer no vinhedo a ponto de os donos legítimos desistirem mentalmente de recuperá-lo — daí a pergunta final da Mishná, "desde quando se chama roubador?". O Rambam continua, na mesma halachá (5:12): "Se pediram [os trabalhadores] mais que isso, ou não encontrou trabalhadores, buscará com calma e colherá. E se a semente permaneceu até chegar à época de santificar, isto santificará e ambos [semente e uvas] ficarão proibidos" — reforçando a urgência da colheita antes que a semente atinja o estágio de "mishetashrish" (enraizamento pleno), tratado na Mishná seguinte (7:7).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Kilayim 7:6
עוֹד יִתְבָּאֵר לְךָ בִּמְקוֹמוֹ שֶׁהַקְּצִירָה בְּחֻלּוֹ שֶׁל מוֹעֵד אֲסוּרָה אֶלָּא לְצֹרֶךְ מַכְרִיחַ... וְעִנְיַן עַד שְׁלִישׁ רְצוֹנִי שֶׁיּוֹסִיף לָהֶם שְׁלִישִׁית הַשָּׂכָר כְּדֵי לְמַהֵר בַּעֲקִירָתוֹ... וּמַה שֶּׁאָמַר מִשֶּׁיִּשְׁקָע רְצוֹנִי מִשֶּׁיִּתְחַבֵּא בַּעַל הַכֶּרֶם מִפַּחַד הָאַנָּס.

Ainda se explicará, em seu lugar, que a colheita no Chol HaMoed é proibida, salvo em caso de necessidade urgente, como se explicará em seu lugar; e é permitido a ele colher o kilayim no Chol HaMoed, como disse.

E o sentido de "até um terço" é: que lhes acrescente um terço do salário para se apressarem em arrancá-lo — por exemplo, se o salário deles fosse três moedas por dia, dará quatro moedas. E se não encontrar senão por salário maior que isso, colherá devagar; e mesmo que a colheita se prolongue até depois da festa, e depois da festa buscará trabalhadores pelo salário costumeiro e colherão do seu modo habitual.

E o que disse "desde que se estabeleça" quer dizer: desde que o dono do vinhedo se esconda por medo do roubador que quer usurpá-lo.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Kilayim 7:6
הָאַנָּס. שֶׁגָּזַל כֶּרֶם וּזְרָעוֹ: וְיָצָא מִלְּפָנָיו. שֶׁחָזַר הַכֶּרֶם לִבְעָלָיו כְּשֶׁהוּא זָרוּעַ: קוֹצְרוֹ אֲפִלּוּ בַּמּוֹעֵד. וְאַף עַל פִּי שֶׁאֵינוֹ דָבָר הָאָבֵד, שֶׁאֵין אָדָם אוֹסֵר דָּבָר שֶׁאֵינוֹ שֶׁלּוֹ, אַף עַל פִּי כֵן מִפְּנֵי מַרְאִית הָעַיִן הִתִּירוּ לִקְצֹר בַּמּוֹעֵד שֶׁלֹּא יְהֵא נִרְאֶה כִּמְקַיֵּם כִּלְאַיִם בַּכֶּרֶם.

"O roubador": aquele que roubou um vinhedo e o semeou.

"E se retirou de diante dele": ou seja, o vinhedo voltou a seus donos já semeado.

"Que o colha, mesmo no Chol HaMoed": e ainda que não seja tecnicamente "coisa que se perde" [pois ninguém proíbe algo que não é seu, e portanto o dono não perderia nada se deixasse a semente ali] — mesmo assim, por causa da aparência aos olhos [de quem vê e pensa que o dono está cultivando kilayim deliberadamente], permitiram colher no Chol HaMoed, para que não pareça que ele está mantendo kilayim em seu vinhedo. Ou, alternativamente: se ele teme que a semente venha a acrescentar um duzentos-avos [tornando-se halachicamente "crescida"] durante o Chol HaMoed, então sim se torna "coisa que se perde" de fato — pois, ainda que o roubador não a tenha proibido (já que ninguém proíbe o que não é seu), uma vez que o próprio dono a deixa crescer em seu vinhedo, ele mesmo a proíbe por mantê-la.

"Até um terço": há quem explique "até um terço" referindo-se ao salário dos trabalhadores — se não encontrar trabalhadores senão por um terço a mais que seu salário adequado, deve dar, para que arranquem o kilayim imediatamente; mais que isso, não dará, mas colhe do seu modo habitual, ainda que o kilayim permaneça no vinhedo. E há quem explique "até um terço" como a proporção entre o valor dos frutos do vinhedo e o cereal do campo.

"Desde quando se chama roubador?": ou seja, desde quando o vinhedo passa a ser atribuído ao nome do roubador, a ponto de ser considerado como seu para proibi-lo por semeadura.

"Desde que se estabeleça": o nome dos donos se afasta do vinhedo e ele passa a ser chamado pelo nome do usurpador — a partir desse momento o vinhedo é considerado como seu, e santifica tudo o que nele semear.

Massechet Kilayim não possui Guemará no Talmud Bavli — é um dos tratados da Ordem de Zeraim sem comentário talmúdico babilônico (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.