Seder Zeraim · Massechet Kilayim · Perek Heh · Mishná 8

"Aquele que mantém espinhos no vinhedo"

הַמְקַיֵּם קוֹצִים בַּכֶּרֶם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Os espinhos mantidos no vinhedo, e a lista das plantas que não constituem kilaei hakerem

Aquele que mantém espinhos no vinhedo — Rabi Eliezer diz: tornou proibido. E os Sábios dizem: não torna proibido senão aquilo que costuma ser mantido. O íris, a hera, a rosa-real e todo tipo de sementes [ornamentais] não são kilaim no vinhedo. O cânhamo — Rabi Tarfon diz: não é kilaim; e os Sábios dizem: é kilaim. E o cardo é kilaim no vinhedo.

הַמְקַיֵּם קוֹצִים בַּכֶּרֶם, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, קִדֵּשׁ. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, לֹא קִדֵּשׁ אֶלָּא דָבָר שֶׁכָּמוֹהוּ מְקַיְּמִין. הָאִירוּס וְהַקִּסּוֹם וְשׁוֹשַׁנַּת הַמֶּלֶךְ וְכָל מִינֵי זְרָעִים, אֵינָן כִּלְאַיִם בַּכָּרֶם. הַקַּנְבּוֹס, רַבִּי טַרְפוֹן אוֹמֵר, אֵינוֹ כִלְאָיִם, וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, כִּלְאָיִם. וְהַקִּנְרָס, כִּלְאַיִם בַּכָּרֶם:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A Mishná final do Perek Heh volta a uma questão de definição: quais plantas, afinal, entram na categoria de "semente" proibida pelo kilaei hakerem — encerrando o capítulo com uma lista concreta de casos.

Devarim (Deuteronômio) 22:9
לֹא־תִזְרַע כַּרְמְךָ כִּלְאָיִם, פֶּן־תִּקְדַּשׁ הַמְלֵאָה הַזֶּרַע אֲשֶׁר תִּזְרָע וּתְבוּאַת הַכָּרֶם.
"Não semearás tua vinha com semente diversa, para que não se torne proibido o produto pleno da semente que semeares e o fruto da vinha" (Devarim 22:9).

Nem tudo que cresce é "semente" para os fins do kilaei hakerem. O versículo fala em "semente que semeares" — um termo que a tradição interpreta como referindo-se ao que as pessoas costumam efetivamente semear e desejar que cresça. Por isso, espinhos que brotam espontaneamente num vinhedo, e que a maioria das pessoas arranca por não terem utilidade, não constituem, para os Sábios, uma verdadeira "semente" proibida — mesmo que o dono decida deixá-los crescer. Rabi Eliezer discorda, apontando que em certas regiões (a Arábia) os árabes mantinham propositalmente espinhos em seus campos para alimentar seus camelos; e, uma vez que ao menos alguns povos consideram os espinhos dignos de serem mantidos, isso basta para que, em qualquer lugar, sejam tratados como kilaim proibido quando alguém os mantém. A Mishná então lista plantas ornamentais (íris, hera, rosa-real) que — por não serem cultivadas como alimento agrícola comum — a Torá não considera "semente" para esse fim, embora os Sábios rabínicos as tenham proibido posteriormente por decreto. O cânhamo é objeto de disputa entre Rabi Tarfon e os Sábios; e o cardo (um tipo espinhoso, identificado com o "cardo e espinho" mencionado em Gênesis 3:18) é kilaim por consenso.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Kilaim 5:18–5:19
הָרוֹאֶה בַּכֶּרֶם עֵשֶׂב שֶׁאֵין דֶּרֶךְ בְּנֵי אָדָם לְזָרְעוֹ אַף עַל פִּי שֶׁהוּא רוֹצֶה בְּקִיּוּמוֹ לִבְהֵמָה אוֹ לִרְפוּאָה... הָאִרוּס וְהַקִּיסוֹס וְשׁוֹשַׁנַּת הַמֶּלֶךְ וּשְׁאָר מִינֵי זְרָעִים אֵינָן כִּלְאַיִם בַּכֶּרֶם. הַקַּנְבּוֹס וְהַקִּנְרָס וְצֶלֶף כִּלְאַיִם בַּכֶּרֶם.
Aquele que vê no vinhedo uma erva que as pessoas não costumam semear, ainda que deseje mantê-la para o gado ou para remédio, [não torna proibido, salvo onde tal erva costuma ser cultivada]... O íris, a hera, a rosa-real e as demais sementes [ornamentais] não são kilaim no vinhedo. O cânhamo, o cardo e a alcaparreira são kilaim no vinhedo.

O Rambam decide como os Sábios, contra Rabi Eliezer: só se torna proibido aquilo que, em algum lugar, costuma ser mantido intencionalmente. Quanto ao cânhamo, o Rambam decide como os Sábios (contra Rabi Tarfon), classificando-o como kilaim. Note-se uma diferença notável: onde a Mishná lista quatro categorias isentas (íris, hera, rosa-real, "todo tipo de sementes"), o Rambam entende esse "todo tipo de sementes" não como uma quarta categoria isenta ilimitada, mas como uma generalização referente às demais plantas puramente ornamentais semelhantes às três primeiras — e adiciona a alcaparreira (tzalaf) à lista do que É kilaim, tema que a Mishná explora em maior detalhe na sequência do capítulo seguinte.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta última Mishná do Perek Heh.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Kilayim 5:8
אָמַר הַכָּתוּב אֲשֶׁר תִּזְרָע, מַה שֶּׁנָּהֲגוּ בְּנֵי אָדָם לִזְרֹעַ וְרוֹצִין בְּקִיּוּמָן וְאֵין מִנְהַג בְּנֵי אָדָם שֶׁיִּרְצֶה קִיּוּם הַקּוֹצִים בְּשָׂדֵהוּ אֲבָל יַעֲקֹר אוֹתָם וְרַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר כִּי הָעַרְבִיִּים יַנִּיחוּהוּ בִּשְׂדוֹתֵיהֶם כְּדֵי שֶׁיִּרְעוּהוּ גְּמַלֵּיהֶם וְאַחַר שֶׁקְּצָת בְּנֵי אָדָם רוֹצִים לְהַנִּיחָם בִּשְׂדוֹתֵיהֶם אָסוּר בְּכָל מָקוֹם.

Disse a Escritura "a semente que semeares" — o que as pessoas costumam semear e desejam manter. E não é costume das pessoas desejar manter espinhos em seu campo; antes, arrancam-nos. E Rabi Eliezer diz que os árabes os deixam em seus campos para que seus camelos pastem neles — e, uma vez que uma parte das pessoas deseja deixá-los em seus campos, é proibido em todo lugar.

E os Sábios dizem que não é proibido senão na terra da Arábia, onde ali desejam mantê-los.

E "iros" (íris): erva chamada, em árabe, susanbar, de folhas largas, que se coloca no guisado, e em português antigo, "menta". E "kisum" (hera): em árabe, lelav, e em português antigo, planta que se faz subir sobre as lojas e janelas. E "shoshanat hamelech" (rosa-real): chamada shakaik al-nu'man, e em português antigo, roseira.

E o cânhamo é chamado, em árabe, kinab. E o cardo (kinras): em árabe, al-kanadia — e não é a halachá segundo Rabi Eliezer, mas segundo Rabi Tarfon.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Kilayim 5:8
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר קִדֵּשׁ. שֶׁכֵּן בְּעַרְבִיָּא מְקַיְּמִין קוֹצִים בַּכֶּרֶם כְּדֵי שֶׁיִּרְעוּ גְמַלֵּיהֶם, וּמֵאַחַר שֶׁמִּקְצָת בְּנֵי אָדָם מְקַיְּמִים אוֹתָם בִּשְׂדוֹתֵיהֶם הֲווּ כִלְאַיִם בְּכָל מָקוֹם... לֹא קִדֵּשׁ אֶלָּא דָבָר שֶׁכָּמוֹהוּ מְקַיְּמִים. בְּאוֹתוֹ מָקוֹם, כְּגוֹן קוֹצִים בְּעַרְבִיָּא לְפִי שֶׁלְּשָׁם מְקַיְּמִים אוֹתָם, אֲבָל בִּשְׁאָר מְקוֹמוֹת שֶׁאֵין מְקַיְּמִין אוֹתָן מֻתָּר. וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים.

"Rabi Eliezer diz: tornou proibido": pois, na Arábia, mantêm-se espinhos no vinhedo para que os camelos pastem neles, e uma vez que uma parte das pessoas os mantém em seus campos, tornam-se kilaim em qualquer lugar.

"Não torna proibido senão aquilo que costuma ser mantido": naquele lugar — como os espinhos na Arábia, pois lá costumam mantê-los; mas nos demais lugares, onde não costumam mantê-los, é permitido. E a halachá é como os Sábios.

"O íris": um tipo de hortaliça de folhas largas, que se põe no guisado, chamada em árabe susanbar.

"E a hera": planta que se faz subir sobre lojas e janelas.

"E a rosa-real": roseira.

"E todo tipo de sementes não são kilaim no vinhedo": pela Torá — mas pelos Sábios rabínicos são kilaim, como se demonstra no tratado Menachot (folha 15).

"Cânhamo": em árabe, kinab. "E os Sábios dizem: é kilaim": e a halachá é como os Sábios.

"O cardo" (kinras): em árabe, karshuf, e é o "cardo e espinho" mencionado na Torá (Gênesis 3:18): "cardo e espinho brotará para ti".

Massechet Kilayim não possui Guemará no Talmud Bavli — é um dos tratados da Ordem de Zeraim sem comentário talmúdico babilônico (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. Com esta Mishná encerra-se o Perek Heh de Massechet Kilayim.