Aquele que vê hortaliça no vinhedo e diz: "quando eu chegar até ela, vou colhê-la" — é permitido. "Quando eu voltar, vou colhê-la" — se aumentou em um duzentos avos, é proibido.
A Mishná define aqui o limite exato entre a intenção legítima de colher a hortaliça proibida (o que evita que ela "santifique" as videiras) e a negligência que já configura o ato de "manter" (kayem) essa hortaliça.
A intenção de colher, e o limite de tempo que a torna crível. A Mishná anterior falou de quem "mantém" (mekayem) a hortaliça que brota espontaneamente no vinhedo, tornando proibidas as videiras ao redor. Esta Mishná esclarece quando alguém deixa de ser considerado um "mantenedor": se a pessoa vê a hortaliça e diz que a colherá assim que chegar até ela — está apenas adiando a colheita por um instante razoável, dentro de seu percurso normal pelo vinhedo, e isso não configura "manutenção" proibida. Mas se, ao chegar até a hortaliça, ela decide adiar novamente — "quando eu voltar, vou colhê-la" — a demora já é maior, e a Mishná estabelece um limite objetivo: se, nesse intervalo adicional, a hortaliça cresceu o equivalente a um duzentos avos (uma fração mínima, mas mensurável, de seu volume ou peso), isso já demonstra negligência real, e a hortaliça — e as videiras ao redor dela — tornam-se proibidas.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.
O Rambam segue o texto da Mishná quase literalmente, e acrescenta (na halachá seguinte) o método prático de cálculo: toma-se como referência o tempo que a hortaliça levaria para secar completamente se fosse colhida — por exemplo, cem horas — e daí se deduz que, em cada intervalo proporcional (por exemplo, meia hora), ela perde ou ganha um duzentos avos de sua umidade. Se a pessoa demorou tempo suficiente para esse acréscimo teórico de um duzentos avos, considera-se que houve negligência real, e a hortaliça se torna proibida.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
Esse acréscimo será calculado em tempo, conforme se explica: quando dizemos que esta hortaliça, se fosse colhida, secaria — sem que restasse nela umidade — em duzentas horas, sem dúvida que, no espaço de uma hora, ela secará de sua umidade um duzentos avos.
E assim dizemos também que, quando ela é deixada [crescendo] por uma hora, aumenta em sua umidade um duzentos avos. E este é o sentido do que se disse na Guemará [do Yerushalmi]: "colhe uma e deixa uma" — pois esta diminui e aquela aumenta.
"Quando eu chegar até ela": ainda que tenha aumentado em duzentos avos antes de chegar até ela, é permitido, já que ele não está sendo negligente quanto ao kilayim. Mas "quando eu voltar" é proibido, porque isso demonstra negligência e desistência — e o mesmo se aplica, por analogia, à cerca do vinhedo que se rompeu: quando a pessoa desiste e não a conserta, torna-se proibido; mas enquanto não desistiu, e está sempre ocupado em consertá-la, mesmo que não tenha conseguido a tempo de o acréscimo de duzentos avos ocorrer, não se torna proibido.
E como se calcula se aumentou em duzentos avos? Observa-se: quando se corta esta hortaliça, ou este tipo de cereal, do que está preso à terra, em quanto tempo ele secaria, sem que restasse nele umidade. Suponha, por exemplo, que seca em cem horas: se permaneceu na terra meia hora depois de ter chegado até ela e não a colheu, já aumentou em duzentos avos, e é proibido — pois, assim como ela seca de sua umidade, a cada meia hora, um duzentos avos quando colhida, do mesmo modo aumenta, em meia hora, um duzentos avos quando ainda presa à terra.