Seder Zeraim · Massechet Kilayim · Perek Heh · Mishná 5

"Quarenta e cinco videiras"

מְקַדֵּשׁ אַרְבָּעִים וַחֲמִשָּׁה גְפָנִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O alcance da proibição quando se planta ou mantém hortaliça dentro do vinhedo

Aquele que planta hortaliça no vinhedo, ou a mantém, torna proibidas quarenta e cinco videiras. Quando? Quando estavam plantadas a quatro por quatro côvados, ou a cinco por cinco. Se estavam plantadas a seis por seis, ou a sete por sete, torna proibido dezesseis côvados para cada lado — em círculos, e não em quadrados.

הַנּוֹטֵעַ יָרָק בַּכֶּרֶם אוֹ מְקַיֵּם, הֲרֵי זֶה מְקַדֵּשׁ אַרְבָּעִים וַחֲמִשָּׁה גְפָנִים. אֵימָתַי, בִּזְמַן שֶׁהָיוּ נְטוּעוֹת עַל אַרְבַּע אַרְבַּע, אוֹ עַל חָמֵשׁ חָמֵשׁ. הָיוּ נְטוּעוֹת עַל שֵׁשׁ שֵׁשׁ, אוֹ עַל שֶׁבַע שֶׁבַע, הֲרֵי זֶה מְקַדֵּשׁ שֵׁשׁ עֶשְׂרֵה אַמָּה לְכָל רוּחַ, עֲגֻלּוֹת וְלֹא מְרֻבָּעוֹת:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Depois de tratar de espaços e estruturas dentro do vinhedo, a Mishná passa a medir o alcance da própria proibição: quantas videiras ficam "contaminadas" quando alguém planta hortaliça no meio delas.

Devarim (Deuteronômio) 22:9
לֹא־תִזְרַע כַּרְמְךָ כִּלְאָיִם, פֶּן־תִּקְדַּשׁ הַמְלֵאָה הַזֶּרַע אֲשֶׁר תִּזְרָע וּתְבוּאַת הַכָּרֶם.
"Não semearás tua vinha com semente diversa, para que não se torne proibido o produto pleno da semente que semeares e o fruto da vinha" (Devarim 22:9).

Um círculo de dezesseis côvados ao redor da transgressão. A regra central desta Mishná é que a proibição de kilaei hakerem não se limita à hortaliça em si, nem apenas às videiras vizinhas mais próximas — ela se estende, a partir do ponto onde a hortaliça foi plantada, por um raio de dezesseis côvados em todas as direções, formando um círculo (e não um quadrado, pois um quadrado alcançaria cantos desnecessariamente distantes). Quando o vinhedo está plantado numa grade regular de quatro por quatro ou cinco por cinco côvados entre videiras, esse círculo de dezesseis côvados de raio contém, em cálculo geométrico exato, quarenta e cinco videiras — e por isso a Mishná prefere expressar a medida em número de videiras proibidas, uma forma mais concreta e verificável no campo do que a abstração de "dezesseis côvados". Já quando as fileiras são mais espaçadas (seis ou sete côvados entre videiras), o número de videiras dentro do mesmo círculo de dezesseis côvados varia (pois a proporção entre a grade e o círculo muda), de modo que a Mishná abandona a contagem fixa e volta à medida geométrica direta: dezesseis côvados de raio, em círculo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Kilaim 6:1
הַזּוֹרֵעַ יָרָק אוֹ תְּבוּאָה בַּכֶּרֶם אוֹ הַמְקַיְּמוֹ עַד שֶׁהוֹסִיף בְּמָאתַיִם הֲרֵי זֶה מְקַדֵּשׁ מִן הַגְּפָנִים שֶׁסְּבִיבוֹתָיו שֵׁשׁ עֶשְׂרֵה אַמָּה לְכָל רוּחַ עֲגֻלּוֹת לֹא מְרֻבָּעוֹת. וְכֵן אִם הָיוּ נְטוּעוֹת עַל אַרְבַּע אַמּוֹת אוֹ עַל חָמֵשׁ אַמּוֹת הֲרֵי זֶה מְקַדֵּשׁ אַרְבָּעִים וְחָמֵשׁ גְּפָנִים.
Aquele que semeia hortaliça ou cereal no vinhedo, ou a mantém até que aumente em duzentas [partes], torna proibidas, das videiras ao redor, dezesseis côvados para cada lado — em círculos, não em quadrados. E, do mesmo modo, se estavam plantadas a quatro côvados ou a cinco côvados, isso torna proibidas quarenta e cinco videiras.

O Rambam segue o texto da Mishná quase literalmente, mas acrescenta uma condição importante retirada de outra fonte (Mishná Kilayim 5:6, discutida na próxima página): a proibição pelo plantio ilícito só se aplica plenamente depois que a hortaliça "aumentar em duzentas partes" — isto é, crescer o suficiente para se considerar que houve um enraizamento e desenvolvimento reais, e não um mero acidente passageiro. Essa condição une esta halachá à seguinte (6:1 e a base de 5:6), mostrando que o Rambam lê as duas mishnayot como uma só unidade legal.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná — cujo raciocínio geométrico completo ocupa páginas de diagramas nas edições clássicas.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Kilayim 5:5
הַנּוֹטֵעַ יָרָק. הוּא הַזּוֹרֵעַ אוֹתָם: וְהַמְקַיֵּם הוּא שֶׁיִּרְאֵהוּ צוֹמֵחַ וְיַנִּיחֵהוּ: וּמַה שֶּׁאָמַר הֲרֵי זֶה מְקַדֵּשׁ מ"ה גְּפָנִים כְּפִי מַה שֶּׁאוֹמַר וְהוּא שֶׁהוּא מְקַדֵּשׁ לְעוֹלָם ט"ז אַמָּה לְכָל רוּחַ עֲגֻלּוֹת כְּדֵי שֶׁתִּהְיֶה הָעֲגֻלָּה שֶׁיִּתְקַדֵּשׁ כָּל מַה שֶּׁבְּתוֹכָהּ עֲגֻלָּה שֶׁיֵּשׁ בַּאֲלַכְסוֹנָהּ ל"ב אַמּוֹת.

"Aquele que planta hortaliça": é o que a semeia. "E a mantém": é quando a vê brotar e a deixa.

E o que disse "torna proibidas quarenta e cinco videiras" é conforme o que vai explicar: a base é que sempre se torna proibido dezesseis côvados para cada lado, em círculos — de modo que o círculo cujo interior inteiro se torna proibido é um círculo cujo diâmetro tem trinta e dois côvados.

O Rambam desenvolve, com diagramas geométricos detalhados, por que a Mishná escolheu expressar a medida em número de videiras (quarenta e cinco) quando o espaçamento é de quatro ou cinco côvados: nessas duas configurações, o círculo de trinta e dois côvados de diâmetro sempre contém exatamente quarenta e cinco videiras — um número fixo e facilmente verificável no campo, mais prático do que medir a distância exata. Já para espaçamentos de seis ou sete côvados, o número de videiras dentro do mesmo círculo varia, tornando necessário voltar à medida direta de dezesseis côvados de raio.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Kilayim 5:5
הַנּוֹטֵעַ יָרָק בַּכֶּרֶם אוֹ מְקַיֵּם. שֶׁרוֹאֵהוּ שֶׁצּוֹמֵחַ וְיַנִּיחֵהוּ: הֲרֵי זֶה מְקַדֵּשׁ וְכוּ'. כְּלַל מִשְׁנָתֵנוּ הוּא שֶׁלְּעוֹלָם מְקַדֵּשׁ שֵׁשׁ עֶשְׂרֵה אַמָּה לְכָל רוּחַ עֲגֻלּוֹת. וְאַף עַל גַּב דִּתְנַן לְעֵיל הַזּוֹרֵעַ אַרְבַּע אַמּוֹת שֶׁל עֲבוֹדַת הַכֶּרֶם אֵינוֹ מְקַדֵּשׁ אֶלָּא שְׁתֵּי שׁוּרוֹת, הֵיכָא דְזוֹרֵעַ בֵּין הַגְּפָנִים מְקַדֵּשׁ שֵׁשׁ עֶשְׂרֵה כְּשִׁעוּר כֶּרֶם גָּדוֹל.

"Aquele que planta hortaliça no vinhedo, ou a mantém": quando a vê brotar e a deixa.

"Torna proibidas...": a regra geral desta nossa Mishná é que sempre se torna proibido dezesseis côvados para cada lado, em círculos. E ainda que tenhamos ensinado anteriormente [4:4] que aquele que semeia nos quatro côvados do cultivo do vinhedo só torna proibidas duas fileiras, aqui — onde semeia entre as próprias videiras — torna proibidos dezesseis côvados, a medida de um grande vinhedo, pois se estende até esse limite.

Bartenura reproduz então, seguindo o Rambam, o desenvolvimento geométrico completo: por que um vinhedo plantado a quatro por quatro ou cinco por cinco côvados, ao se traçar um círculo de trinta e dois côvados de diâmetro a partir do ponto da hortaliça, sempre resulta em exatamente quarenta e cinco videiras proibidas — enquanto vinhedos mais espaçados (seis ou sete côvados) exigem a medida direta de dezesseis côvados de raio, pois o número de videiras deixa de ser constante. Cita ainda a objeção do Rosh sobre por que não se proíbem também as videiras adjacentes às sete fileiras centrais, e a resposta de que a medida de quatro côvados entre videiras já exclui as próprias raízes do cálculo.

Massechet Kilayim não possui Guemará no Talmud Bavli — é um dos tratados da Ordem de Zeraim sem comentário talmúdico babilônico (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. O desenvolvimento geométrico completo desta Mishná, com os diagramas originais de círculos e quadrados traçados pelo Rambam e reproduzidos por Bartenura, está preservado nas edições impressas clássicas da Mishná; aqui se resume o raciocínio essencial.